Hotel indenizará camareiro em R$ 30 mil por assédio de hóspede
Juiz considerou a dificuldade de produzir provas e a falta de suporte ao empregado após a comunicação da violência.
Da Redação
quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Atualizado às 13:08
A 9ª vara do Trabalho de Manaus/AM condenou duas empresas, solidariamente, a pagar R$ 30 mil por danos morais a camareiro que sofreu assédio sexual de hóspede.
Ao reconhecer o dever de indenizar, o juiz Diego Enrique Linares Troncoso considerou a credibilidade do relato do trabalhador e a ausência de medidas adequadas para acolhê-lo após o episódio.
Na análise das provas, o magistrado aplicou o Protocolo do CNJ para Atuação e Julgamento com Perspectiva Antidiscriminatória, Interseccional e Inclusiva, que orienta a atribuição de peso diferenciado à palavra da vítima em situações de violência sexual no trabalho.
Abordagem no quarto
Segundo o trabalhador, o episódio ocorreu em agosto de 2025, enquanto organizava seu carrinho de limpeza.
Um hóspede pediu ajuda para localizar os sacos utilizados para a lavanderia e, ao ser acompanhado até o quarto, fez uma abordagem sexual e tocou suas partes íntimas.
O camareiro contou que conseguiu sair do local e comunicou o ocorrido a um colega e, depois, à superiora. Após o episódio, foi afastado das atividades e entrou em férias por 15 dias.
Quando retornou, foi dispensado sem justa causa, cerca de oito meses depois da contratação.
Palavra da vítima
O juiz destacou que situações de assédio costumam ocorrer sem testemunhas, o que dificulta a produção de provas. Por isso, a avaliação deve considerar as particularidades da violência e a vulnerabilidade de quem a sofreu.
No caso, o magistrado entendeu que o relato era coerente e não havia elementos que comprometessem sua credibilidade.
Também observou que, segundo os elementos analisados, a abordagem teria partido de uma presunção do hóspede sobre a orientação sexual do empregado.
A sentença mencionou a Convenção 190 da OIT e os protocolos judiciais voltados à igualdade e à não discriminação como referências para a análise.
Ausência de acolhimento
Em depoimento, o trabalhador afirmou que o hotel prometeu atendimento psicológico, mas não disponibilizou o serviço. A representante das empresas confirmou que o estabelecimento soube do episódio, questionou o hóspede, que negou os fatos, e não ofereceu assistência psicológica ao empregado.
Para o magistrado, as empresas deixaram de adotar providências adequadas de prevenção, proteção e cuidado com a vítima.
A decisão também se fundamentou nos arts. 932, IV, e 933 do Código Civil, que tratam da responsabilidade dos estabelecimentos pelos danos causados por hóspedes, independentemente de culpa, além do dever patronal de assegurar um ambiente de trabalho seguro.
Considerando a ofensa grave e as circunstâncias do episódio, o juiz fixou a reparação em R$ 30 mil, a ser paga solidariamente pelas duas empresas.
Insalubridade
A sentença ainda condenou uma das empresas a pagar adicional de insalubridade em grau máximo, de 40%, durante o período contratual.
O reconhecimento decorreu da limpeza de acomodações e banheiros com circulação superior a 25 pessoas por dia.
Informações: TRT da 11ª região.