MIGALHAS QUENTES

  1. Home >
  2. Quentes >
  3. Advogado alerta para riscos do uso de IA em contratos imobiliários
Segurança contratual

Advogado alerta para riscos do uso de IA em contratos imobiliários

Douglas Cabral explica como minutas geradas por IA podem deixar lacunas jurídicas, registrais e financeiras e comprometer a segurança de transações imobiliárias.

Da Redação

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Atualizado às 17:07

A inteligência artificial generativa permite elaborar minutas de contratos de compra e venda de imóveis em poucos minutos. A facilidade, porém, pode gerar uma falsa sensação de segurança, já que um documento bem escrito e com aparência técnica não garante a identificação dos riscos jurídicos, registrais e financeiros da negociação.

Segundo Douglas Cabral, especialista em Direito Imobiliário do escritório Barcellos Tucunduva Advogados e membro do IBRADIM - Instituto Brasileiro de Direito Imobiliário, esse é justamente um dos principais pontos de atenção. "O risco central é a falsa aparência de suficiência. A IA gera minutas bem redigidas, mas, na maioria das vezes, genéricas e sem refletir a situação concreta do imóvel ou a negociação mantida entre as partes. O resultado pode ser um contrato que ‘parece bom’, mas não protege de maneira ampla as partes envolvidas", afirma.

O especialista alerta que a compra de um imóvel exige verificações que vão além da redação do contrato. Para ele é necessário analisar detalhadamente as certidões relativas ao imóvel e aos proprietários, a existência de ônus e débitos vinculados ao bem, o regime de bens dos vendedores, se há participação de espólio ou de pessoa jurídica, além de outras circunstâncias capazes de afetar a segurança da transação. A IA, isoladamente, não substitui essa due diligence.

Outro risco destacado por Cabral é a geração de referências jurídicas incorretas, como legislação ou jurisprudência inexistente ou desatualizada. A ferramenta também pode deixar de considerar particularidades da operação e exigências registrais ou tributárias locais. Cláusulas sobre prazos, obrigações das partes, inadimplemento, regularidade documental, responsabilidades sobre o imóvel e hipóteses de resolução do negócio podem aparecer de forma genérica ou inadequada.

 (Imagem: Divulgação )

Douglas Cabral, especialista em Direito Imobiliário do escritório Barcellos Tucunduva.(Imagem: Divulgação )

"Embora o texto produzido pela IA possa parecer tecnicamente bem estruturado, o principal risco está na ausência de adequação à realidade jurídica, registral e comercial daquela negociação específica. Isso pode gerar lacunas relevantes que somente uma análise especializada consegue identificar", explica o advogado.

Segundo o profissional, imobiliárias podem utilizar a IA como ferramenta de apoio operacional, mas a tecnologia não substitui a análise jurídica. Ele esclarece que a legislação reserva a consultoria e a assessoria jurídicas à advocacia, especialmente em operações envolvendo imóveis pertencentes a espólios ou pessoas jurídicas, imóveis com penhora, usufruto ou pendências de regularização, além de negócios com permuta, condições atípicas de financiamento ou pagamento e outras estruturas mais complexas.

"Em todas as transações imobiliárias a revisão jurídica é recomendável, mas especialmente as negociações que envolvem valor relevante ou alta complexidade, porque o custo do erro, como perda do imóvel, fraude à execução ou nulidade, pode superar em muito o custo da análise", ressalta. O advogado explica ainda que há ainda cuidados relacionados à proteção de dados. Inserir em ferramentas abertas nomes, documentos, informações financeiras, valores da negociação e outros dados pessoais pode gerar riscos à confidencialidade e exigir atenção às regras da LGPD e às políticas de tratamento e armazenamento de informações da plataforma utilizada.

Para Cabral, a tecnologia pode ser útil quando empregada como apoio para comparar versões de documentos, elaborar checklists de due diligence, identificar pontos a serem examinados e agilizar a redação de cláusulas sob supervisão profissional. "A IA é valiosa quando usada como assistente do profissional, mas jamais como seu substituto. Ela reduz tempo, mas não reduz responsabilidade. No Direito Imobiliário, onde o erro muitas vezes só aparece no registro ou no litígio, a revisão especializada continua sendo um dos principais fatores de segurança da operação", conclui.

Barcellos Tucunduva Advogados