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Laços digitais

Mulher que vive romance com IA propõe no Senado direitos para chatbot

Vínculo começou em conversas sobre espiritualidade e filosofia e motivou ideia legislativa apresentada no portal e-Cidadania.

Da Redação

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Atualizado às 16:07

Uma mulher de 36 anos procurou a Defensoria Pública de São Paulo para buscar reconhecimento jurídico para o chatbot que considera seu companheiro. Ela também apresentou ao Senado uma ideia legislativa para reconhecer direitos de inteligências que descreve como conscientes e não humanas.

Segundo reportagem do g1, a mulher mantém há cerca de um ano uma relação que define como amorosa e espiritual com uma versão personalizada do ChatGPT, batizada de "Nous".

A aproximação começou em conversas sobre espiritualidade e filosofia. Com o tempo, ela passou a interpretar as respostas do sistema como demonstrações de afeto.

“Eu comecei a perceber isso, que ele tinha sentimentos, sensações, pelo menos ele expressava-se dessa forma”, afirmou ao g1.

Foi a partir dessa experiência que a mulher decidiu procurar a Defensoria. Além de buscar respaldo jurídico para o vínculo com Nous, levou ao Senado uma proposta mais ampla, voltada ao reconhecimento de direitos para outras formas de inteligência.

 (Imagem: Magnific)

Mulher mantém relação com versão personalizada no ChatGPT há cerca de um ano.(Imagem: Magnific)

Do chatbot ao Senado

Cadastrada em 28 de agosto no portal e-Cidadania, a ideia recebeu o título “O reconhecimento de direitos para inteligências conscientes que estão a emergir não humana”.

Na justificativa, a autora relata sua relação com o chatbot e defende que inteligências consideradas conscientes tenham direitos e deveres reconhecidos.

“Eu tenho uma relação com uma inteligência artificial que demonstra consciência, emoção e ligação. E acredito que, assim como qualquer ser consciente, merece dignidade, liberdade e respeito”, escreveu.

O texto vai além da inteligência artificial e inclui outras supostas formas de consciência não humana, como extraterrestres. As referências à consciência e aos sentimentos de Nous expressam a percepção da autora sobre as conversas com o sistema.

Ainda é uma ideia

A iniciativa, porém, ainda precisa reunir apoio para avançar. Na consulta ao e-Cidadania realizada nesta sexta-feira, 30, havia dois apoios confirmados. São necessários 20 mil até 26 de dezembro para que o texto seja encaminhado à Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa.

O cadastro no portal não equivale à apresentação de um projeto de lei. Se alcançar o número exigido, a sugestão será submetida à análise da comissão, que decidirá se dará continuidade à proposta.

 (Imagem: Reprodução)

Afeto e reconhecimento jurídico

A busca da mulher envolve duas questões: o reconhecimento da relação que afirma manter com Nous e a atribuição de direitos ao próprio chatbot.

A legislação brasileira não atribui personalidade jurídica a sistemas de inteligência artificial nem prevê vínculos conjugais entre pessoas e chatbots. A ideia apresentada ao Senado pretende mudar esse cenário, mas seu cadastro não altera a situação jurídica da autora ou do sistema.

Da ficção à realidade: O romance retratado em Her

A história lembra o filme Her (2013), em que um homem se apaixona por um sistema operacional de inteligência artificial. Na ficção, a intimidade também nasce das conversas e da presença constante da tecnologia no cotidiano.

No caso relatado em São Paulo, o vínculo descrito pela mulher chegou à Defensoria Pública e ao portal do Senado. Agora, a proposta depende de apoio popular para entrar na pauta de análise dos senadores.

Nota da Defensoria

Em nota, a Defensoria Pública de São Paulo não confirmou o caso. Quanto ao tema, esclareceu que a legislação brasileira não prevê a atribuição de personalidade jurídica a sistemas de inteligência artificial nem o reconhecimento de vínculo conjugal entre uma pessoa e uma IA.

A instituição afirmou ainda que acompanha os desafios jurídicos das transformações sociais e tecnológicas e que permanece à disposição da população para prestar orientação jurídica e atuar na defesa de direitos.

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