sábado, 26 de setembro de 2020

MIGALHAS QUENTES

Há 82 anos o Supremo Tribunal Federal reduziu a pena do assassino de Clarisse Lage Índio do Brasil


Baú migalheiro

Há 82 anos, no dia 11 de agosto de 1926, o Supremo Tribunal Federal, em grau de revisão criminal, reduziu para 10 anos e 6 meses de prisão celular, a pena imposta pelo Tribunal do Júri, do Distrito Federal, a Mario de Abreu Teixeira Coelho, que assassinara a D. Clarisse Lage de Índio do Brasil, esposa do senador Índio do Brasil.

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Clarisse Lage de Índio do Brasil

Nasceu em 4 de abril de 1864, no Rio de Janeiro, filha de Ana Rita de Matos Costa Pereira de Faro e do Comendador Antônio Martins Lage. Em 1893, casou-se com Artur Índio do Brasil a contragosto da família e abdicando do seu dote, pois ele era um homem mestiço que não possuía um sobrenome reconhecido. Segundo sua neta, Clarisse de Oliveira, os dois se apaixonaram verdadeiramente e viveram o seu romance como os personagens Ceci e Peri, do livro "O Guarani" de José de Alencar. Só que no caso deles, conseguiram morar juntos e viraram uma referência cultural do Rio de Janeiro da Belle Époque.

Por este ato de liberdade, Clarisse Índio do Brasil conquistou a possibilidade de ser uma mulher diferente, que tinha bichos exóticos em casa e desfilava pela rua com o seu macaco Nero, vestido com roupas imperiais. Na sua casa aconteciam festas muito badaladas, com a presença dos principais artistas, como era um costume da época. Ao invés do bar, espaço tipicamente masculino, as mulheres preparavam ceias regadas a poesia e canto, onde podiam discutir livremente os seus pensamentos.

A monumentalização de Clarisse Índio do Brasil se deve a um fato muito especial: o tiro a queima-roupa que recebeu na Av. Rio Branco no dia 6 de outubro de 1919, que levou-a à morte na tarde do dia seguinte. Foi nessa tarde, que diante do pedido de misericórdia da esposa do assassino, Clarisse sussurrou ao marido: "Perdoa, coração!". O seu assassinato foi cometido sem nenhum motivo aparente. Seguindo sua rotina, ela foi de limusine buscar o marido no trabalho e enquanto esperava-o, na esquina da avenida Rio Branco com Ouvidor, levou um tiro no peito. Segundo sua neta, o chofer acreditou ser um pneu do carro estourando e quando foi abrir a porta para a senhora sair, a viu com a mão no peito a apontar um desconhecido na multidão. O assassino, Mário Coelho, era taquígrafo do Senado e em uma declaração pública fez o papel de vítima: "Sou um tarado. As circunstâncias da vida de mim fizeram um tarado degenerado".

Clarisse era vista como uma figura "de inigualável sobranceria, ressaltava na turba com a aristocrática beleza de uma fidalga dama de outras eras. Tinha a formosura, a graça, a inteligência, a fortuna e possuía, acima de tudo, esse raro condão de simpatia que é o supremo apanágio das grandes almas: a bondade." Era também famosa por suas doações às instituições de caridade, principalmente de Botafogo, bairro em que morava. No busto, onde estava inscrito em letras de bronze - "A Clarisse Indio do Brazil, os pobres de Botafogo - 1923"; esta imagem foi cristalizada.

À imagem pública de caridade se deveu a sua capacidade de perdoar. Foi o perdão, como única possibilidade de remediar a irreversibilidade do ato que poria fim a sua vida, que marcou definitivamente a mulher Clarisse Índio do Brasil no Rio de Janeiro na época. Falo da cidade como um todo, porque a expressão "Perdoa coração!" foi elogiada em verso e prosa, não somente por alguns dos mais famosos homens de literatura, como por pessoas comuns que não a conheciam.

Em cada um destes testemunhos, a fatalidade parece ter sido o caminho para a eternidade. De uma esposa "amantíssima", dedicada ao lar e à religião, e o que nos parece é que Clarisse não era bem assim - era uma mulher originalíssima - surge a mulher de bronze, símbolo de sua época. O seu busto se encontra no Largo dos Leões - Botafogo/ Rio de Janeiro, e foi o primeiro monumento a uma mulher real, erguido simbolicamente para apaziguar e superar a morte. Esculpido por Honório Cunha Melo, apresenta duas características: o rosto voltado para baixo, como se ela estivesse nos olhando, com superioridade e altivez e ao mesmo tempo com um olhar piedoso e compreensivo. A segunda, os anjos que ornam a sua roupa. Anjos, que segundo sua neta Clarisse de Oliveira, estavam presentes em todos os seus móveis, objetos pessoais e que fariam a transição delicada da vida mundana de Clarisse para o céu.

Curiosamente, a exemplaridade de Clarisse foi caracterizada de maneira distinta no busto à da escultura de mármore que adorna o seu túmulo no cemitério São João Baptista. Neste, ela aparece de corpo inteiro, vestida de modo aristocrático, com o seu colar de pérolas preferido, que hoje está guardado por sua neta Clarisse. Aos seus pés estão ajoelhados um casal e uma criança, como se recebessem da ilustre senhora uma benção ou uma esmola. A cena foi inteiramente construída por seu marido para exaltar a posição de Clarisse na sociedade de sua época. Este fato nos faz desconfiar que se não fosse a tragédia de sua morte, a sua originalidade e ousadia jamais seriam reconhecidas entre os seus pares. No espaço horizontal e hierárquico do cemitério, a Clarisse de mármore foi representada para destacar-se dos seus iguais. Os iguais aqui não são os necessitados, mas aqueles que pertenciam a sua classe social. A Clarisse de bronze, ofertada à cidade pelos "pobres", não pertence mais a nenhum grupo social, ela é uma imagem de mulher destinada a todos.

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Por: Redação do Migalhas

Atualizado em: 1/1/1900 12:00