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Infanticídio ou fatalidade?

Maria, a empregada de Franz Kraus, sobre a qual “pairava a lubricidade dos olhares excitados e cobiçosos do promotor de Justiça” (clique aqui), não é em “Canaã”, de Graça Aranha, uma personagem secundária. Sua história é capaz de comover o leitor, fazê-lo indignar-se e, sobretudo, pensar sobre o significado do Direito.

Da Redação

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Atualizado em 20 de outubro de 2009 16:30


Infanticídio ou fatalidade?

Um país sem justiça não é um país habitável, é uma aglomeração de bárbaros




Maria, a empregada de Franz Kraus, sobre a qual "pairava a lubricidade dos olhares excitados e cobiçosos do promotor de Justiça" (clique aqui), não é em "Canaã", de Graça Aranha, uma personagem secundária. Sua história é capaz de comover o leitor, fazê-lo indignar-se e, sobretudo, pensar sobre o significado do Direito.

Vamos ao caso e faça o leitor seu julgamento.

Maria Perutz era filha de imigrantes alemães.

Já não tinha pai, nem mãe ou qualquer pessoa próxima quando engravidou do filho do patrão.

Como a família do jovem não o queria casado com Maria, uma miserável, mandaram-na embora da casa aos brados de "parte, peste...Carrega teus trapos, suja...Vai-te daqui...".

Maria viu-se expulsa da casa em que crescera, expulsa das suas lembranças de infância, da velha casa que lhe fora o lar, o jardim do mundo !

Mas obedeceu a ordem dada.

Depois de experimentar o abandono e a repulsa das gentes do lugar foi acolhida por Mikau, também imigrante alemão, que dela se compadeceu.

O homem levou a moça para uma colônia onde a deixou sob o cuidado de amigos, que aceitaram empregá-la por consideração a Mikau. Com certa medida de desprezo, apenas suportavam-na.

O tempo foi passando e, no meio do cafezal onde trabalhava, Maria começou a sentir as dores do parto, cada vez mais agudas.

Tomada de medo, a moça afastou-se o mais possível da casa, deixou o cafezal e aventurou-se para o lado do rio, onde era mais deserto.

No terreno bravio, Maria sentou-se debaixo de uma das árvores. Seus olhos não viam mais nada, apenas ouvia o fungar de porcos em volta. Maria queria afugentá-los, mas lhe faltava forças :

"Subitamente ela caiu extenuada, largando a árvore... Um vagido de criança misturou-se aos roncos dos animais... A mulher fez um cansado gesto para apanhar o filho, mas exangue, débil, o braço morreu-lhe sobre o corpo (...)

Um novo gemido saiu do peito de Maria, despertando-a, em sobressalto. Os porcos afastaram-se espantados, e ela, meio consciente, contorceu-se, mirou atônita a criança, que vagia estrangulada. Depois, quando um grande vácuo se lhe fez de todo nas entranhas, a dor cessou, e Maria mergulhou afundada em outra vertigem. Os porcos, sentindo-a sossegada, precipitaram-se sobre os resíduos sangrentos, espalhados no chão. Devoraram tudo, sôfregos, tremendos; sorveram o sangue e na excitação da voracidade arremessaram-se à criança, que às primeiras dentadas soltou um grito forte, despertando a mãe... Quando esta abriu os olhos, deu um salto brusco e pondo-se de pé, lívida, hirta, alucinada, viu o filho aos trambolhões, partilhado pelos porcos, que fugiam pelo campo afora..."

A filha dos patrões, em busca de Maria, chega nesse exato momento e sem nada perguntar retrocede à casa gritando que Maria matou o filho !

Toda a comunidade ficou horrorizada e inquieta pedia vingança, a punição. Um dos colonos chegou mesmo a se dirigir ao juiz de Direito pedindo, em nome da dignidade dos alemães, uma lição severa para a moça : justiça !

A jovem foi presa sem ser julgada. Depois, no decorrer das audiências "as testemunhas depunham contestes contra Maria. A trama estava bem tecida e fatalmente a acusada não poderia rompê-la".

Mikau acompanhava todas as audiências, certo da inocência de Maria.

Paulo Maciel, o juiz que tratava do caso e que sempre o observava presente, passou a arrastar Mikau diariamente a sua casa após as sessões e em longas e nobres palestras ia formando uma amizade profícua com Mikau. Em um desses dias, desabafou ao amigo :

- "Não vejo meio de evitar um mau desenlace ao processo".

- "Mas as testemunhas – cortou Mikau – vêm insinuadas, foram industriadas para essa desgraçada conclusão".

O desfecho do assunto veio pela boca do juiz :

"É sempre assim entre nós: não há um processo em que se possa fazer justiça. Digo-lhe isto eu, que sou juiz. Que exprimem as minhas sentenças sobre a verdade dos fatos? Nada... Não pense que não desejaria reagir. Mas é inútil; quando recebo uns autos, há neles tal tecido de mentiras que tenho de capitular. É de desesperar, não é?"

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