Segunda-feira, 14 de outubro de 2019

ISSN 1983-392X

Apito Legal

por Roberto Benevides

O sono intranquilo dos argentinos

quinta-feira, 10 de julho de 2014

 

E o caneco vai para o melhor time da Copa, que andou se enrolando em alguns jogos até desabrochar de vez e enfiar humilhantes 7 a 1 no Brasil na hora de se garantir na final, ou vai para o melhor jogador do mundo, que anda cansado após uma temporada de frustrações e ainda nos deve uma exibição de gala, mas, antes mesmo de abrir a vantagem na cobrança de pênaltis contra a Holanda, participou de todos os gols que garantem a sua equipe no jogão das 16 horas deste domingo no Maracanã?

Dá Alemanha ou dá a Argentina de Messi na decisão da Copa do Mundo de 2014?

A última vez que a bola teve de se dividir num jogo pra valer entre Romero, Demichelis, Di Maria, Aguero, Mascherano, Maxi Rodriguez, Higuaín e Messi, de um lado, e Neuer, Philipp Lahm, Mertesacker, Boateng, Khedira, Kroos, Schweinsteiger, Ozil, Muller, Podolski e Klose, de outro, foi há pouquinho mais de quatro anos, na África do Sul, pelas quartas de final da Copa do Mundo de 2010.

O vexame argentino naquele 3 de julho foi bem menor do que o brasileiro nesta terça, dia 8, mas não foi pequeno: com dois gols de Klose, um de Muller e um de Friedrich, o único que não veio curtir a praia na Bahia e os gramados de Salvador, Fortaleza, Recife, Porto Alegre, Rio e Belo Horizonte nesta Copa, os alemães de Joachim Low, ainda em processo de formação como grande equipe, golearam a seleção de Diego Maradona por 4 a 0.

O penúltimo Alemanha x Argentina numa Copa se deu em 2006, em Berlim, também pelas quartas de final. Os anfitriões saíram atrás, mas chegaram ao 1 a 1 a 10 minutos do final do jogo, com um gol de Klose, seguraram o empate na prorrogação e venceram a cobrança de pênaltis por 4 a 2. Estavam em campo, além do goleador Klose, os alemães Mertesacker, Lahm, Schweinsteiger e Podolski, e os argentinos Mascherano e Maxi Rodriguez. Low era assistente de Jürgen Klinsmann e José Néstor Pekerman, o homem que agora comandou a Colômbia, era o treinador da Argentina.

Os times que disputarão o título de 2014 no domingo se conhecem, pois, e se há motivo para temores, os argentinos certamente dormirão pior do que os alemães até lá. E não é só pelo retrospecto histórico recente.

A campanha das duas seleções nesta Copa aponta para o indiscutível favoritismo da Alemanha, que goleou Portugal por 4 a 0, empatou com Gana por 2 a 2, maneirou para fazer 1 a 0 nos EUA e, já na fase de mata-mata, venceu duramente a Argélia por 2 a 1 na prorrogação, a França por 1 a 0 e, quando parecia ter perdido o encanto do futebol seguro, envolvente e veloz ensaiado em 2010 e mostrado no Brasil apenas na estreia, revelou-se de vez o grande time que realmente é ao despachar os anfitriões numa semifinal com tintas de mero treino de apronto para o jogo da decisão.

A Argentina fez uma campanha mais insossa até as semifinais, sempre com vitórias por um gol de diferença – 2 a 1 sobre a Bósnia, 1 a 0 sobre o Irã, 3 a 2 sobre a Nigéria, 1 a 0 sobre a Suíça no último minuto da prorrogação, 1 a 0 sobre a Bélgica. Na semifinal, contra a Holanda, nenhum golzinho. A classificação para a final saiu nos pênaltis – 4 a 2.

Foi, no entanto, o melhor jogo dos argentinos na Copa. O time de Alejandro Sabella, organizado como sempre, fechou todos os caminhos na defesa, procurou mais o ataque no primeiro tempo, acelerou o ritmo no segundo, criou uma grande chance desperdiçada por Higuaín, mas acabou cedendo espaço aos holandeses no fim e quase perdeu o jogo no último minuto, quando Mascherano impediu o gol de Robben. Na prorrogação, Aguero poderia ter garantido a vitória, mas, frente a frente com Cillessen, cabeceou fraquinho uma bola que o holandês defendeu sem dificuldade.

O jogo, muito equilibrado e pouco emocionante, foi todo disputado sob enorme rigor tático, o que sugere um domingo de menos facilidade para os alemães do que a terça-feira em que eles apenas desfilaram como novos reis do mundo da bola no gramado do Mineirão. Os argentinos, porém, continuam devendo um futebol de verdadeiros campeões e, obrigados a jogar as semifinais 24 horas depois dos adversários da final, ainda tiveram de dispender no Itaquerão uma dose extra de energia que certamente lhes fará falta no Maracanã.

Castigo merecido

Dois dias depois de Alemanha e Argentina decidirem o título de campeão mundial, se completarão 18 anos da morte do jornalista Guilherme Cunha Pinto, o Jovem Gui que era igualmente craque com as palavras e a bola, tendo até experimentado ligeiramente, entre um e outro emprego no jornalismo, as delícias e as agruras do profissionalismo no futebol belga.

Será impossível não pensar mais uma vez no Jovem Gui neste sábado em que a Seleção vai curtir em clima de velório a ressaca da vexaminosa derrota na semifinal. A disputa pelo terceiro lugar é o mais deprimente jogo da Copa – de qualquer Copa. Os holandeses hão de concordar, mas os brasileiros, desta vez, se sentirão ainda mais deprimidos.

Para nossos jogadores, no entanto, esse espetáculo fúnebre será um merecido castigo, embora não falte quem queira nos convencer de que a vitória no sábado é uma obrigação moral que nos redimirá, ainda parcialmente, do vexame no Mineirão.

É por isso que estou me plagiando e reproduzo, quase na íntegra, o que escrevi em 2006 no site NoMínimo sobre esse triste espetáculo. (Se quiser comparar este desabafo com o original, clique aqui). 

Mais do que enfadar, esse jogo deixava indignado meu amigo Guilherme, que, muito antes de morrer, escreveu à FIFA sugerindo que os três primeiros colocados numa Copa se classificassem automaticamente para a seguinte. Não passava pela cabeça dele enxugar as Eliminatórias, queria apenas dar dignidade ao frustrante espetáculo que antecede a briga pela taça de campeão do mundo.

Não houve resposta à ideia do Jovem Gui, mas, um ano depois de sua morte, entrevistei Joseph Blatter, então candidato à presidência da FIFA, e lhe perguntei o que achava da proposta. Estávamos em Paris, durante o Torneio da França que serviu de preparação para a Copa de 1998, e, ainda secretário-geral da FIFA, Blatter me convidou a ir a Zurique conferir, sobre a mesa dele, o relatório final de uma comissão que adotava não apenas a ideia do meu amigo, mas garantia também a presença na Copa de todos os campeões continentais e até dos vices da Europa e da América

- Será a contribuição da FIFA para enxugar o calendário mundial – disse-me o candidato Blatter.

Eleito presidente, Blatter acabou tirando até do campeão de uma Copa a classificação garantida para a outra.

É o retrato de como é convenientemente administrado o futebol em escala planetária, tanto quanto a vergonha do Mineirão acaba por retratar a indigência da cartolagem brasileira no gerenciamento de um esporte cada vez mais profissional.

O jogo que a FIFA viu

Observadores técnicos e estatísticos da FIFA viram assim o jogo Brasil 1 x 7 Alemanha:

Chances de gol - Brasil 55 x 34 Alemanha

Finalizações - Brasil 18 x 14 Alemanha

Passes dentro da área - Brasil 19 x 11 Alemanha

Posse de bola - Brasil 52% x 48% Alemanha

Chutes certos - Brasil 13 x 12 Alemanha

Se você desconfia da transcrição, pode conferir os números no site da entidade.

E o mais curioso é que, segundo as estatísticas da entidade, o jogo teve 56min9 de bola corrida. Ou seja: a cada 38 segundos, um dos dois times criava uma chance de gol.

Jovem é a Alemanha, Felipão!

Aparentemente sereno na entrevista coletiva após o vexame brasileiro da terça-feira, Luiz Felipe Scolari invocou o tempo de trabalho e a continuidade como exemplos para o sucesso da seleção alemã na Copa e acenou com um futuro igualmente luminoso para o Brasil, afirmando que "teremos 12, 13 ou 14 jogadores deste grupo preparados para a Copa de 2018".

Na verdade, dos 23 jogadores de Felipão, somente Neymar, Oscar e Bernard terão menos de 30 anos na Copa que será disputada na Rússia. Farão 30 anos em 2018 o lateral Marcelo, o volante Paulinho e o meia Willian. O zagueiro David Luiz, destaque de 2014 apesar da atuação atabalhoada contra a Alemanha e candidato a líder da nova geração, e os volantes Luiz Gustavo e Ramires já terão feito 31 anos.

Renovação é com a Alemanha.

Não terão ainda 30 anos na Copa de 2018 os titulares Boateng, Hummels, Ozil, Muller, Kroos. Quase sempre titular agora, Goetze terá 26 anos. Hoewedes, se for à Rússia, lá desembarcará com 30 anos. Khedira terá feito 31 dois meses antes da abertura. Reservas que foram utilizados por Joachim Low no Brasil, o zagueiro Shkodran Mustafi terá 26 anos, o volante Christoph Kramer terá 27 e o meia Julian Draxler ainda não terá completado 25. O goleiro Ron-Robert Zieler chegará à Copa com 29 anos, mas muito dificilmente tomará o lugar do excepcional Neuer, que terá então 32 anos e três meses – ou seja, dois anos e meio a menos do que tem hoje o nosso Júlio César.

Toni Kroos, o meia de 24 anos que foi o grande destaque dos 7 a 1, completou contra o Brasil seu décimo jogo numa Copa do Mundo – quatro e m 2010, seis agora em 2014. Thomas Muller, que vai fazer 25 anos em setembro, já tem 12 jogos em Copas – seis na última seis nesta. Mesut Ozil tem 13 – os sete de 2010 e os seis de 2014.

Neymar, Oscar e Bernard, somados, participaram de 14 partidas da Copa.

Outros números

# Deram-se mal os campeões do mundo nas três últimas edições da Copa em que foram anfitriões: a Itália foi derrubada pela Argentina em 1990 e derrubou em 2006 a Alemanha, que agora destroçou o Brasil.

# Se não levar nenhum gol contra a Holanda na disputa do terceiro lugar, a Seleção Brasileira terminará empatada com a Suíça como a pior defesa de um anfitrião em todas as Copas – cada qual, com 11 gols contra. Na média, a Suíça é pior – levou 11 em apenas quatro jogos.

# Quando começou esta Copa, o placar histórico indicava 210 gols do Brasil contra 206 da Alemanha. Quando começou o jogo das semifinais, a diferença era a mesma: 220 a 216. Quando o mexicano Marco Rodríguez encerrou o jogo, as posições se inverteram: Alemanha 223 x 221 Brasil.

# Desde 1950, o Brasil liderava a artilharia na história das Copas.

Fim de papo

"Se alguém tivesse dito que ganharíamos por 7 a 1, eu não teria acreditado, mas achei que fomos incríveis, é tudo o que posso dizer. Viemos aqui para ser campeões, estamos felizes e aliviados por seguir adiante, mas ainda falta um jogo. Ninguém ganhou a Copa do Mundo numa semifinal". Toni Kroos, protagonista da Alemanha que impôs à Seleção Brasileira o maior vexame em um século de história

Roberto Benevides

Roberto Benevides, jornalista, foi por muitos anos colunista e o editor do caderno de esportes de O Estado de S. Paulo, trabalhou também no JB, na Folha de S.Paulo, nas revistas Veja, Exame, Quatro Rodas, Placar e Época. Nos últimos dois anos, fez a coordenação editorial de uma coleção de 15 livros sobre esportes olímpicos publicada pelo editora do Sesi.