Sábado, 24 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

Artigo - A indignação como religião

O advogado Luiz Eduardo Lopes da Silva

terça-feira, 19 de abril de 2005

Artigo

Todas as quintas-feiras o advogado Luiz Eduardo Lopes da Silva, do escritório Lopes da Silva e Guimarães Advogados Associados, publicará uma coluna de comentários no jornal DCI, editado em SP.

Confira o primeiro artigo publicado no último dia 14.

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A indignação como religião

Luiz Eduardo Lopes da Silva*

Sou daqueles que acreditam nas mudanças como a melhor forma de aprimorar uma sociedade. Aos que, como eu, cultuam o direito, mais que concordar, uma mensagem: é preciso participar. Chega de reclamar da atitude de nossos representantes, que infelizmente têm sistematicamente frustrado as expectativas de criar uma sociedade mais justa e harmoniosa.

Por isso, estou convencido de que devemos fazer da indignação uma religião para acelerar o processo, e fazer com que as mudanças que almejamos realmente ocorram com urgência. Cada um da sua maneira, mas sempre juntos, podemos evitar a injustiça e aperfeiçoar as instituições do País.

No que me cabe, resolvi ir à luta. Quero, neste espaço que se abre generosamente no DCI, atuar de forma permanente e constante, seja produzindo textos e sugestões ao parlamento; seja engajando lideranças e divulgando idéias técnicas, seja dando oportunidade para ventilar idéias minhas ou de terceiros, fazendo desta coluna uma tribuna livre de defesa do aprimoramento do sistema jurídico e partidário brasileiro.

Neste primeiro artigo, deixe-me desabafar. Tenho a sensação – de resto compartilhada com muitos com quem falo – de que não estou mais adequado ao mundo em que vivo. Claro que as notícias da imprensa, a cada manhã, colaboram para a perplexidade. Afinal, como resistir ao contínuo fluxo de mortes, guerras, grupos impondo à força de seus pontos de vista sobre qualquer tema, misérias intelectuais sendo empurradas como manifestações culturais, e tantas outras situações inaceitáveis que se repetem incessantemente?

Paradoxalmente a todo este horror, há no ar uma anestesiação geral. É como se todos e cada um pensassem consigo mesmos: “Não é comigo. Nada tenho com isso. Não me envolva. Não me comprometa”. E com isto vão abrindo espaço para que outros, muitas vezes oportunistas ou incapacitados, imponham suas lamentáveis contribuições.

O que acontece é simples, mas trágico. Perdemos a capacidade de nos indignar. Isso resulta na pasmaceira com que a Humanidade – e o Brasil não está imune – passou a aceitar todo o lixo que lhe é imposto pelas lideranças, pelas celebridades, pelos meros repetidores de chavões tirados de discursos pretensamente baseados em livros não lidos.

Tudo isso é a propósito do quadro político institucional em que se acha mergulhado nosso Brasil. Temos o privilégio de receber em casa, com ampla variedade, o cardápio que nos é servido pelos partidos políticos no uso que lhes foi dado do tempo da mídia falada e televisionada. São programas mais longos ou inserções curtas a repetir incessantemente os mesmos conceitos. As mesmas palavras; como se inexistisse entre as múltiplas agremiações qualquer diferença programática, ideológica ou de propostas para atingir o bem estar social.

O tempo (e a verba...) gasto para tal finalidade, portanto, é perdido. O programa não informa mas, apenas, eleva a imagem dos “caciques” partidários que se dão ao luxo de agredir a verdade, a lógica e a paciência dos ouvintes com os repetidos “no meu tempo era melhor” ou “mostramos que fazemos melhor”. Tudo embalado pelos magos da propaganda em declarações absolutamente desprovidas de qualquer base fática.

Parece claro que esta prática, somada à legislação eleitoral, favorece o engrandecimento pessoal em detrimento da postura partidária. Afinal, o mandato deveria ser do partido, para que fosse sempre exercido em consonância com a mensagem que levou ao voto naquele candidato. Se optar pelos comunistas, não me agrada ver meu deputado filiando-se ao “Partido Severino” no dia seguinte, pois certamente fugirá à ideologia que me levou a escolhê-lo. Vai daí que dá no que deu: fisiologismo explícito, balcão de votos, medidas atrabiliárias e autoritárias, tornando impossível o debate democrático do qual resulte o avanço segundo a vontade média do País, essência da democracia.

É, talvez eu viva em mundo que não compreendo. Mas não estou sozinho. Por isso, aposto em resgatar minha capacidade de indignação para, com um Quixote do micro, levar avante a mensagem e ampliar as fileiras.

É preciso que todos nós, que somos a própria sociedade brasileira, nos indignemos em massa! Participando, vamos certamente promover uma mudança profunda dos hábitos políticos locais.

Nessa tarefa, caro leitor, posso contar com você?

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*Advogado, sócio fundador do escritório Lopes da Silva e Guimarães Advogados Associados, ex-membro da Comissão de Ética da OAB/SP e ex-presidente do Conselho de Ética e Defesa do Consumidor.

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