Sábado, 20 de julho de 2019

ISSN 1983-392X

400 + 50 e uma saudade na velha academia

Walter Ceneviva fala sobre a Turma do Quarto Centenário

segunda-feira, 1º de março de 2004

 
400 + 50 e uma saudade na velha academia*

Walter Ceneviva**

Para um grupo de formados no largo São Francisco, em São Paulo, as atuais comemorações dos 450 anos da cidade terão sabor especial. Integrantes da Turma do Quarto Centenário, eles concluíram o curso em 1954. Neste meio século, desde a formatura, viveram as transformações do planeta Terra. Cada um a seu modo e todos, em conjunto, foram atingidos em velocidade e intensidade que o ser humano jamais havia enfrentado.

Os bacharéis daquele ano se reuniram para o juramento solene no Salão Nobre da Faculdade (o Anhembi era impensável). Certamente não cogitaram das muitas mudanças que enfrentariam até hoje. Nem poderiam admitir, por exemplo, que surgiriam mais faculdades de direito nesta capital do que então havia no Estado e, talvez, no Brasil. Fax, celular e xerox estavam no futuro, assim como o computador individual, o disco compacto, o DVD, os carros de injeção eletrônica. A internet, obviamente, nem no futuro.

E o direito? Aqueles formados viveram, em 1961, o Ato Adicional do regime parlamentar, as Constituições de 67 e de 69, os atos institucionais da ditadura. Hoje, na redemocratização, caminham para 50 emendas na Carta de 1988 e milhões de novas normas legais. Os bacharéis recordam, mas o leitor comum talvez se espante em saber que, em 1954, o marido tinha o direito de anular seu casamento se, na noite de núpcias ou nos dez primeiros dias de matrimônio, descobrisse que a noiva já havia sido deflorada. Na clareza do Código Civil, a mulher casada, então obrigada a adotar o sobrenome do marido, era relativamente incapaz, no mesmo nível dos índios e dos menores de idade. O uso era casar antes e, só depois, viver junto. Aliás, o noivo pedia a mão da noiva formalmente. A mão, veja.

Vocábulos como "craque", "mano", "ficar", "mina" e "piranha" significavam, respectivamente, "bom jogador de bola", "irmão", "permanecer", "escavação para extrair metais" e "peixe de alguns rios". Os acadêmicos iam à aula de paletó e gravata. Só assim entravam nos melhores cinemas.

Da turma de 1954, da qual Cesarino Junior foi paraninfo, os estudantes saíram para destinos variados. Percorrendo o álbum dos formandos, com suas 383 fotografias, constata-se que um número pequeno se dedicou à advocacia. Selecionei seis deles ao passar aleatoriamente pelas páginas do álbum. Mário Sérgio (escritório Duarte Garcia, Caselli Guimarães e Terra Advogados) presidiu o Conselho Federal da OAB. Gregori foi ministro e embaixador. Muitos foram professores, caso de Nair, que ocupou a cadeira de Cesarino e se aposentou como titular da academia. Outros tomaram o rumo da magistratura e do Ministério Público. Houve também poetas, escritores, artistas, como Vida Alves, a primeira atriz a ser beijada na televisão brasileira. E, pai de artista, Fasano presidiu o XI de Agosto; o deputado Wadih Helu presidiu o Corinthians.

Ao se integrarem, mais uma vez, ao aniversário da cidade, os bacharéis de 1954 também terão momentos de silêncio pelos que partiram. Fará falta intensa e atual o colega Benedicto Rosa, que, durante 50 anos, movimentou as reuniões da turma com exemplar sentido de confraternização. Era carinhosamente -e continuou sendo- o Rosinha. Sua missa de sétimo dia foi rezada no último domingo. Nas comemorações de formatura, nós, os companheiros de 1954, nos lembraremos com saudade dele e dos que tiveram a jornada interrompida.

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* Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 21 de fevereiro de 2004.

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** Advogado

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