Sábado, 21 de setembro de 2019

ISSN 1983-392X

Operação Santa Tereza

segunda-feira, 28 de abril de 2008


Santa Tereza

O advogado Ricardo Tosto, preso na última quinta-feira pela Operação Santa Tereza da PF, foi liberado pela Justiça Federal na manhã de sábado, 26/4. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, Tosto diz que o que fizeram com ele "foi uma violência". De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, o advogado - que pediu afastamento do conselho do BNDES - disse estar "emocionalmente destruído".

  • Confira abaixo as duas matérias na íntegra.

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O Estado de S. Paulo

'O que fizeram comigo foi uma violência'

Ricardo Tosto de Oliveira Carvalho, advogado que a Operação Santa Tereza aponta como beneficiário de suposto desvio de recursos públicos, assinou ontem, às 15h25, carta ao presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, pedindo seu afastamento do cargo de conselheiro da instituição. Ele requereu, ainda, abertura de auditoria interna sobre concessão de empréstimos para as prefeituras de Praia Grande e do Guarujá e para as Lojas Marisa - contratos que estão sob suspeita da Polícia Federal.


Ricardo Tosto, advogado preso pela PF pede afastamento do conselho do BNDES e quer auditoria sobre os empréstimos sob suspeita

Peço minha saída em caráter temporário até que sejam apurados os fatos em questão, diante das acusações de que exerci tráfico de influência junto ao BNDES para a liberação desses empréstimos”, escreveu Tosto, que ficou 56 horas detido na Custódia da PF, por decisão judicial. “Eu quero que investiguem logo. Depois, vou avaliar. Quero colaborar. O BNDES é um banco muito sério, sua estrutura é séria e seu presidente (Coutinho) é um profissional transparente.”

Sob efeito de comprimidos Valium e em meio a constantes crises de choro ao lado da mulher e dos três filhos pequenos, um de 7 anos, dois de 4, Tosto invoca a história do irmão mais velho do presidente Lula, Genival Ignácio da Silva, o Vavá, que a Operação Xeque-Mate pegou no grampo, em 2007. “Já que ele (Lula) falou de mim, eu lembro que o Vavá, irmão dele, foi pego dizendo que o Lula ia ajudar nisso e naquilo. As pessoas usam seu nome. Só que o Lula não foi preso”, comparou.

Em sua casa, no Morumbi, em companhia de 500 cartas, telegramas e e-mails que imprimiu - solidariedade e apoio de colegas, magistrados e políticos - o advogado, de 45 anos, falou sobre a Santa Tereza.

A PF diz que o sr. usava o celular de uma secretária para evitar o grampo porque a investigação secreta foi vazada.

Não teve vazamento nenhum, eu não sabia de nada. É loucura. Advogo para empresas importantes e para políticos também. Acompanhamos compra de empresas, casos de grande valor econômico. Vivemos na grampolândia, o Brasil é o reino dos grampos. Em respeito a questões estratégicas e sensíveis relacionadas a nossos clientes, temos que evitar espionagem.

O grampo federal pega o sr. falando com um suspeito (Marcos Mantovani) sobre determinado inquérito policial.

Mas eu não estava falando com ele sobre o inquérito BNDES. Conheço o Mantovani há 15 anos, advogo para ele há mais de 10. Era meu amigo, era, eu achava que era meu amigo. Conversei com ele ao telefone sobre um inquérito de seu interesse. É um inquérito problemático para ele, não tem nada a ver com BNDES. O segredo profissional é decisivo. Até com advogados e com jornalistas, muitas vezes, eu uso outro aparelho de telefone. A gente vive do sigilo.

Por que a Santa Tereza o pegou ?

Porque Mantovani e João Pedro falaram o meu nome nas ligações. Acho que fui preso pelo que eu sou, não pelo que eu fiz. Uma vingança invisível, não sei ainda. Ora, se eu tenho sucesso como profissional da advocacia, um escritório com mais de 300 colaboradores e uma carteira de clientes importantes, por que iria participar de organização para atacar os cofres públicos ? Com tudo isso que construí na minha carreira eu vou me meter numa idiotice, um primarismo desses ?

Seu nome pode ter sido usado ?

Estou começando a ter certeza. Quando você tem algum sucesso, algum prestígio, usar seu nome é muito fácil. O Vavá usou o nome do Lula, mas o Lula não foi preso. O que fizeram comigo foi uma violência, as algemas. Foi com intuito de me desmoralizar, humilhar. O Brasil está à beira de um Estado policialesco, de terror. O que fizeram comigo é um recado para todos os profissionais liberais e os empresários bem sucedidos e corajosos, gente que tem na sua honra um ativo precioso. Cuidado, amanhã você pode ser um novo Tosto. A prisão temporária é uma tortura. Fui preso sem saber o motivo.

A PF o liga à partilha de dinheiro desviado do BNDES.

É um absurdo, que provem. O expediente relativo a empréstimos não passa pelas minhas mãos. Conselheiro não tem competência para autorizar liberação de dinheiro. Não era diretor, não tinha poder.

O que o sr. fazia no BNDES ?

Você não tem poder decisório nenhum, são discussões macroeconômicas. O conselho de administração não tem autoridade para liberar dinheiro, define as linhas que o banco vai seguir. Como eu iria liberar ? Não vão encontrar uma única assinatura minha autorizando. Os contratos não passavam pelas minhas mãos, isso é competência exclusiva de um corpo técnico. Nem sabia por onde davam entrada os protocolos de projetos. Pela experiência que tive no banco posso dizer que é quase impossível ter alguém que seja atendido lá sem condição de receber empréstimo.

Abre mão do sigilo bancário ?

Já entreguei meus extratos, os últimos três meses de movimentação.

Por que foi para o BNDES ?

Quando a Força Sindical me convidou achei que ia ser uma forma de entender o Brasil. Sempre achei o BNDES a central de inteligência do País. Pensei que poderia aprender bastante sobre quanto o Brasil vai crescer, em que setores, como funciona um banco de desenvolvimento. Entrei em agosto, pretendia ficar dois anos.

É amigo do lobista João Pedro ?

Eu conheço, mas não sou amigo. Eu o substituí no BNDES. Ele estava lá fazia muitos anos. Foi para o gabinete do Paulinho da Força.

A PF sugere que Paulinho foi beneficiário de partilha.

Eu não posso avaliar, não vou ser leviano. As pessoas são inocentes até que provem o contrário. Infelizmente, hoje você é culpado até que provem sua inocência. Acho que tem que apurar. Nunca interferi em qualquer pedido ao BNDES. Não sabia de financiamentos e não conheço os beneficiários, Lojas Marisa nem o prefeito de Praia Grande (Alberto Mourão). O do Guarujá (Farid Madi) vi num evento do PDT. Não sou filiado ao PDT, a partido nenhum.

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Folha de S.Paulo

Advogado alvo da PF decide se afastar de conselho do BNDES

O advogado Ricardo Tosto de Oliveira Carvalho, 45, investigado pela Operação Santa Tereza, da Polícia Federal, pedirá hoje o afastamento do cargo de conselheiro de administração do BNDES, além de sugerir uma auditoria nos contratos de empréstimo que são alvo do inquérito na PF. O pedido será feito por fax ao presidente do banco estatal, Luciano Coutinho.

O advogado, que ocupa o cargo no BNDES desde agosto de 2007 por indicação da Força Sindical, foi libertado no último sábado pela PF de São Paulo, onde estava preso desde a quinta-feira. A polícia informou à Justiça Federal que a prisão de Tosto não era mais necessária para o andamento da investigação. Ele foi indiciado pela PF por supostamente ter exercido influência política na liberação de empréstimos que depois teriam sido desviados num esquema que envolveria empresas de fachada.

A PF investiga principalmente empréstimos para a Prefeitura de Praia Grande (SP) e para as Lojas Marisa.

Em entrevista concedida ontem à Folha, por telefone, Tosto disse estar "emocionalmente destruído". "É uma tortura emocional. Primeiro te prendem, daí a pessoa fica presa lá, sem ser ouvida, para a pessoa sofrer lá embaixo [na cela]. Depois te chamam. Depois dessa tortura psicológica, aí você vai depor psicologicamente destruído", disse Tosto.

O advogado afirmou que as suspeitas da PF são "improcedentes" e considerou "absurdo, uma violência" o fato de ter sido algemado e exposto a câmeras da imprensa, logo após a prisão. Disse que nunca interferiu nos empréstimos citados na investigação e que eles não passaram pelo Conselho de Administração do banco. "Não passaram. Você não tem poder de interferência. Você ali discute a estratégia macro do banco. Nunca conversei com ninguém sobre isso. Não assinei, não aprovei, não falei com ninguém. E fiquei preso e estou destruído."

O advogado afirmou que o banco tem um "quadro técnico excelente". "Não consigo nem imaginar essa corrupção. Não tem, hoje em dia, um esquema no BNDES. É impossível haver", disse o advogado.

Tosto afirmou que só tomou conhecimento do inquérito que o investigava quando foi preso, na quinta-feira. Interceptações telefônicas feitas pela PF sugerem que ele tenha tido acesso privilegiado a informações sobre a investigação e que as teria vazado para outro investigado. "Isso foi uma confusão da PF. O cara da Progus, Mantovani, é cliente do escritório. Tem um inquérito contra ele, e eu estava falando no telefone sobre esse inquérito. O inquérito existe, vai ser comprovado, mas não posso falar sobre ele por sigilo profissional", disse o advogado.

O conselheiro do BNDES afirmou que nunca conversou com garotas de programa sobre empréstimos ou recursos no exterior e que a existência do diálogo lhe foi desmentida pelo delegado encarregado da investigação. "O próprio delegado disse que isso não existiu."

Segundo Tosto, as citações a seu nome em conversas de outras pessoas sob investigação na operação da PF, se ocorreram (ele disse que não leu as degravações das interceptações), foram um uso indevido de seu nome. "Vou dar um exemplo. O Vavá falava de Lula. O Lula foi preso ?", disse o advogado, referindo-se a diálogos captados no ano passado pela PF na Operação Xeque-Mate.

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Leia mais

25/4/08 - Operação Santa Tereza da Polícia Federal apreende cerca de R$ 1 milhão - clique aqui.

24/4/08 - Operação da PF prende nove em SP. Advogado é suspeito de desvio de recursos do BNDES - clique aqui.

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Fontes: O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo
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