Circus

Toc

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13/4/2007

“Essas recordações me matam!”

(Roberto e Erasmo Carlos)

Há cerca de 20 anos encontrei um colega, cujo aspecto não deixava margem a dúvida: estava numa crise de depressão. Com a liberdade que nossa amizade me permitia, perguntei-lhe se andava chorando sem motivo aparente. Ele ficou sério. Se tinha medo de suicídio. Ele arregalou os olhos: "quem lhe contou?" De depressão eu conheço mais do que você imagina, respondi. Falei de minhas crises e ele, a partir daí, foi cuidar da saúde psíquica dele, tanto quanto eu já cuidava da minha. Agora, ele, já desembargador, apenas me toca no braço e, com alguma dificuldade, deixa escapar: "Você me salvou a vida".

Leio numa dessas revistas que quase não têm matéria para ser lida que o cantor Roberto Carlos declarou publicamente que está bem melhor do TOC, doença da qual ainda não está curado de todo, embora esteja em tratamento há mais de dois anos. TOC? A senhora não entendeu? Eu explico.

Viu aquele filme do Jack Nicholson, Melhor é Impossível? Pois é. Aquilo é, evidentemente, um exagero, próprio de uma comédia, se é que aquilo é uma comédia. O personagem escolhe os ladrilhos em que pisar pela cor deles, coisa que muitos de nós certamente fazíamos quando éramos crianças; conta as barras das grades dos jardins das casas, quem de nós não fez isso?; repete uma série de atos aparentemente absurdos, como se aquilo dependesse da vontade dele. Ocorre que não depende.

O Transtorno Obsessivo e Compulsivo caracteriza-se exatamente pelo fato de o padecente realizar atos aparentemente sem motivo algum, seja por sua natureza, seja por sua reiteração e demora na sua realização. Todos nós trancamos a porta de casa antes de nos deitarmos, mas há pessoas que se levantam no meio da noite para ir conferir, pela décima vez, se, de fato, trancou a porta. No filme, ele não apenas se preocupa com isso, como coloca várias trancas na porta, num evidente exagero. Quantas pessoas há que se reconheceram naquele personagem?

Eu conheci um juiz que não devolvia os autos do processo à secretaria, acumulando pilhas e pilhas, todas com os votos prontos. "Ainda preciso dar uma última revisão nisso" era sua explicação. Para todos os efeitos, era um juiz vagabundo.

Uma jovem artista de televisão teve, tempos atrás, o desassombro de confessar que tinha necessidade compulsiva de tomar banho. Eram banhos que duravam horas, disse ela. Imagine o mal que isso lhe fazia à pele. Não sei como andará isso, mas a reportagem dava conta de que ela também havia tomado consciência de que aquela preocupação nada tinha com o dever de higienizar-se. Também contou que costumava ficar junto a janela de casa e dali não se afastar enquanto não passasse um automóvel de tal marca e tal cor. Com a padronização das cores de automóvel hoje em dia, pois ou são pretos ou cinza, imagine quanto tempo ela ficaria ali, escrava de seu TOC.

Longe de mim querer diagnosticar a conduta de certos jogadores de futebol que não podem deixar de persignar-se quando fazem ou quando perdem um gol. Ou questionar sua religiosidade, mesmo porque esse tema é delicado. Todos vimos o presidente José Sarney entrar de novo na casa de onde havia saído porque a porta pela qual saíra não era a mesma pela qual entrara. E a TV Globo ali, registrando aquilo que, oficialmente, se chama superstição. Uma senhora só faltou me bater quando tive o atrevimento de, após uma visita feita a ela, abrir eu mesmo a porta da casa. "Isso dá azar!" berrou ela. O que quero dizer é que seria interessante saber se essas pessoas conseguem ou não conseguem ficar sem aquelas "bengalas". Certamente, não conseguem.

Esses rituais estão, de fato, acima do entendimento e da vontade de quem os pratica. Dizer que são mera superstição não resolve o problema da compulsividade. Qual a raiz do ritual supersticioso?

Diga sinceramente: qual será sua conduta ao verificar que o pão está sobre a mesa com os fundos para cima? Ou um par de sapatos está com as solas voltadas para o teto? O fato de eles estarem "de cabeça para baixo" e, portanto, deverem ser virados, não explica a providência que a senhora um dia tomou diante daquela "anormalidade", mesmo porque nem o pão nem o sapato têm cabeça. Concorda? Há na rapidez e inevitabilidade com que muitas pessoas se apressam a "corrigir" aquela postura, eu suponho que também seja a sua, algo que foge à racionalidade. Tente explicar. Provoque seus conhecidos, virando o pão que está sobre a mesa e veja a reação deles.

Conheço pessoas que não conseguem ir para casa antes de arrumar todos os objetos que estão sobre a mesa no escritório. Reconheço que a ordem é importante para eu saber onde está isto e aquilo. Facilita o meu trabalho. Mas o que aqui se registra não é a escolha da ordem, mas a imposição feita pela ordem. A rigor, não sou eu que mando nela, é a ordem que manda em mim. O que é um rematado absurdo. E eu não posso deixar de fazer o que ela quer, eis o que a pessoa diria, se tentasse explicar essa compulsividade.

Não sei se a senhora conhece a série Monk, exibida na televisão. Não vi os primeiros episódios nem acompanho com fidelidade os diversos capítulos daquele drama, vencedor de muitos prêmios, desconhecendo, por exemplo, por que motivo o personagem se chama Monge. O fato é que ele era um policial excelente, que entra em crise quando a mulher morre numa emboscada. A partir daí, tornou-se vítima do TOC. Imagine um policial com a mania de limpar o local do crime, apagando eventuais pistas datiloscópicas, para concluir que, como ocorreu no filme, ele acaba sendo aposentado por invalidez. Mas, como era muito eficiente, é chamado pelos colegas para cuidar de casos difíceis. Que ele resolve precisamente por ser obsessivo, eis a ironia do filme.

Tenho também minhas pequenas manias, mas o que quase me levou a uma aposentadoria precoce foi a síndrome do pânico, um distúrbio tão escravizante quanto aquele. Curioso é que os comarcanos ficaram sabendo disso – e o que os comarcanos não sabem a respeito da vida do juiz? - e tome visita de solidariedade, que eu recebia na certeza de que eles iam à minha casa menos para saber de minha saúde e mais para verificar se eu já estava babando na minha excelentíssima gravata. Desculpe, mas tenho essa mania de desconfiar das pessoas.

Um desses gentis visitantes era um modesto comerciante que havia entrado em uma crise profunda de depressão depois que sua empresa havia sido autuada, com aplicação de uma multa astronômica que o levaria à falência, segundo ele. Eu nunca vim a saber exatamente qual o valor da tal multa. Conto apenas o que ele me contou.

Outro visitante era um padre, com aspecto saudável, corado, que conversava normalmente. Ele estava naquela cidade gozando de "férias forçadas", depois que, como ecônomo de sua congregação, algo que os mortais comuns chamamos de tesoureiro, havia caído num conto do vigário, olha a ironia, e causado um prejuízo enorme à tal congregação, que ele pretendera ajudar quando contratara o bem falante economista, especializado, veio ele a saber depois, em mutretas e coisas afins. E ali estava ele, já que, depois daquele rombo, se recusava a sair da cama. Quando me ouviu falar dos meus sintomas, ele não se agüentou e, a batina que me perdoe, soltou um desabafo inesquecível: "pois eu passo por tudo isso e aqueles filhos da pátria dos meus colegas dizem que não tenho nada!"

Sugeri a ambos que fizessem o que eu estava fazendo para superar a depressão: viagem de trem até a capital uma vez por semana, sessão de psicoterapia por uma hora e nova viagem de trem de volta à minha comarca, pois, dirigir automóvel?, nem pensar. Espero que o tenham feito.

Posso afirmar, meu caro leitor, que pelo menos cinco por cento dos que estão lendo esta crônica padecem de depressão. E olhe que estou sendo otimista. Dando de barato que o Migalhas chegue a 100.000 lares diariamente, isso significa que neste momento dirijo-me a 5.000 depressivos, dando também de barato.

E posso apostar também que mais de cinqüenta por cento dos familiares desses depressivos não dão a menor importância a isso. "Isso no meu tempo se chamava frescura" é como grande parte dos amigos e parentes se referem a uma das doenças mais insidiosas que existe.

Eu vivo cruzando com depressivos e posso dizer que já ajudei a alguns a procurar tratamento. "Você, com esse espírito brincalhão, vem me dizer que é sujeito a depressão? Não acredito!" E quando eu passo a descrever os sintomas todos, a resistência deles baixa, como ocorreu com aquele colega, cuja vida minha orientação teria salvo.

A última pessoa com quem cruzei e que se encaixa nisso é a mais recente faxineira que tivemos em casa. Educadíssima, fala mansa, mas não aceita "imposições". Imposição? É, a senhora me mandou arrumar a sala mas eu só arrumo quando tenho vontade. No fim do ano, sintomaticamente, não compareceu ao serviço porque passou na cama, "sem a menor vontade de ver ninguém". Daí à tentativa de suicídio é um pulo, como sabe quem já teve alguém depressivo na família. Um dia ela resolveu que não viria mais e não veio mesmo.

Por que falo disso tudo? Para dizer que o Roberto Carlos, que tem uma belíssima música, pouco conhecida mas que inspirou o nome de um jogador de futebol, até com passagem pela seleção brasileira, talvez não tenha consciência do bem que fez a tanta gente falando de algo que as pessoas preferem silenciar.

A tal música chama-se O Divã, o que produziu o nome do jogador Odivan. Teriam os pais do jogador conhecido a letra daquela música? Ali já se poderiam notar as tendências à depressão naquele admirável compositor, ao recordar o acidente que o aleijou, como narrado numa sessão de psicoterapia. Veja se não é:

“Relembro a casa com varanda,
muitas flores na janela,
minha mãe, lá dentro dela,
me dizia num sorriso,
mas na lágrima um aviso,
pra que eu tivesse cuidado
na partida pro futuro
eu ainda era puro
mas num beijo disse adeus.

Minha casa era modesta
mas eu estava seguro,
não tinha medo de nada,
não tinha medo de escuro,
não temia trovoada.
Meus irmãos à minha volta
e meu pai sempre de volta
trazia o suor no rosto
nenhum dinheiro no bolso
mas trazia a esperança.

Essas recordações me matam,
por isso eu venho aqui.

Relembro bem a festa, o apito
e na multidão um grito
o sangue no linho branco
a paz de quem carregava
em seus braços quem chorava
e pro céu ainda olhava
e encontrava esperança
de um dia tão distante
pelo menos por instantes
encontrar a paz sonhada.

Essas recordações me matam,
por isso eu venho aqui.

Eu venho aqui me deito e falo
pra você que só escuta
não entende a minha luta
afinal, de que me queixo?
são problemas superados,
mas o meu passado vive
em tudo que eu faço agora
ele está no meu presente
eu apenas desabafo
confusões da minha mente.

Essas recordações me matam,
por isso eu venho aqui.”

 

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Colunista

Adauto Suannes foi desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, membro fundador do IBCCRIM - Instituto Brasileiro de Ciências Criminais, da Associação Juízes para a Democracia e do Instituto Interdisciplinar de Direito de Família.