No mês em que as reflexões sobre os direitos das mulheres se intensificam, é fundamental olharmos para a advocacia não apenas como uma profissão, mas como um espaço de disputa: de acesso, de permanência e, acima de tudo, de poder.
A presença feminina no Direito brasileiro cresceu de forma expressiva nas últimas décadas. Dados do Censo da Educação Superior (INEP, 2022) mostram que as mulheres já correspondem a mais de 55% das matrículas nos cursos de Direito do país. Contudo, esse avanço numérico não se traduz, automaticamente, em igualdade estrutural.
A desigualdade não está apenas no acesso, ela se revela, com ainda mais força, na permanência e na ascensão profissional.
Um levantamento do CNJ, no relatório "Justiça em Números" de 2023, aponta que, embora as mulheres sejam maioria na magistratura de primeiro grau, ainda são minoria nos tribunais superiores. No STF, por exemplo, a presença feminina jamais ultrapassou três ministras simultaneamente. A realidade nos escritórios de advocacia não é diferente: um estudo do CESA - Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (2021) revela que, apesar de serem maioria entre os advogados associados em início de carreira, as mulheres ocupam menos de 30% das posições de sócias.
Essa discrepância expõe um fenômeno já conhecido: o "teto de vidro".
Contudo, há um fator ainda menos visível e talvez mais determinante que antecede essa barreira: a evasão de mulheres durante a formação acadêmica. A dificuldade de permanência no ensino superior, especialmente para mulheres com filhos, está diretamente ligada à ausência de políticas públicas de cuidado.
Segundo a PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (IBGE, 2022), as mulheres dedicam, em média, 21,4 horas semanais a tarefas domésticas e de cuidado, enquanto os homens dedicam cerca de 11 horas. Essa diferença impacta diretamente a capacidade de estudar, trabalhar e se qualificar. A falta de creches em universidades, a rigidez das grades curriculares e a ausência de políticas de permanência forçam muitas mulheres a abandonar seus cursos ou, sequer, a iniciá-los.
Não se trata de uma escolha individual. Trata-se de um problema estrutural.
Falo também a partir da minha experiência. Fiz boa parte da faculdade de Direito grávida e no puerpério. Conciliar estudos, maternidade e trabalho não foi apenas um desafio pessoal, mas um exercício constante de resistência. Permanecer na universidade, naquele contexto, foi um ato político.
É importante reconhecer que essa trajetória só foi possível porque, ao meu lado, caminharam pessoas que compreenderam que a igualdade não se constrói de forma solitária. Homens, colegas, professores, meu marido, que não andaram à frente, nem atrás, mas ao lado, compartilhando responsabilidades e construindo, na prática, uma parceria real.
Essa dimensão coletiva é central. A luta das mulheres não é isolada; ela exige uma transformação social profunda.
Nos últimos anos, alguns movimentos institucionais apontaram caminhos importantes. Um exemplo emblemático foi a atuação da ministra Cármen Lúcia que, ao compor listas exclusivamente femininas para determinados espaços de indicação, tensionou uma lógica histórica de exclusão e evidenciou algo essencial: não faltam mulheres qualificadas, falta oportunidade.
A ocupação de espaços de poder por mulheres não é uma concessão. É uma correção histórica.
Ainda assim, persistem desigualdades profundas. Conforme as Estatísticas de Gênero do IBGE (2023), as mulheres no Brasil recebem, em média, 78% do rendimento dos homens, mesmo com níveis de escolaridade frequentemente superiores. No campo jurídico, essa disparidade também se manifesta, ainda que de forma menos sistematizada em dados oficiais.
Além disso, é impossível ignorar os recortes interseccionais. Mulheres negras, mães solo e mulheres de comunidades periféricas enfrentam obstáculos ainda mais intensos para acessar e permanecer na advocacia e nos espaços institucionais.
Nesse contexto, defender os direitos das mulheres não é uma pauta acessória, mas uma exigência democrática. É falar sobre: igualdade salarial; creches em universidades e fóruns; políticas de permanência acadêmica; divisão justa do trabalho doméstico; combate à violência de gênero; acesso real e não apenas formal às profissões jurídicas.
A advocacia, especialmente quando comprometida com os direitos humanos, ocupa um papel central nesse processo, pois o Direito não é neutro. Ele pode tanto reproduzir desigualdades quanto enfrentá-las.
Entre a beca e o colo, entre a técnica e o cuidado, muitas mulheres seguem construindo suas trajetórias em meio a desafios que já não deveriam existir.
Houve avanços, sem dúvida. Mas ainda há muito a ser feito. E talvez o maior compromisso da nossa geração seja este: garantir que as próximas mulheres não precisem resistir tanto para, simplesmente, permanecer.