Chamar de “modernização” a tentativa de eliminar a bula impressa dos medicamentos é, no mínimo, um exercício de ironia. Por trás do discurso ambiental e da suposta digitalização eficiente, o que se revela é uma lógica simples: redução de custos para a indústria, ainda que isso signifique aumentar riscos para a população.
Ao retirar a bula física das caixas, corta-se gasto com papel, impressão, armazenamento e transporte. Menos volume significa fretes mais baratos; menos itens, menos controle logístico. É uma equação financeira direta. Mas essa economia não é neutra: ela desloca o custo - e o risco - para o consumidor.
E há um ponto que precisa ser dito com todas as letras: essa redução de custos dificilmente chega ao bolso da população. Fica concentrada na indústria. O histórico mostra isso. Basta olhar para o setor aeronáutico: prometeram que a redução de serviços e custos operacionais resultaria em passagens mais baratas. Aconteceu? Claro que não. As tarifas só aumentaram. Com medicamentos, a lógica tende a ser a mesma - menos custo para quem produz, nenhum benefício concreto para quem precisa comprar.
A quem interessa um modelo em que o acesso à informação depende exclusivamente de internet, aplicativos ou QR codes? Certamente não aos milhões de brasileiros que ainda enfrentam limitações de conectividade, nem aos idosos, nem à população mais vulnerável. A bula impressa é, muitas vezes, o único canal imediato, acessível e confiável de orientação sobre uso, contraindicações e efeitos colaterais.
A narrativa de sustentabilidade também não se sustenta por completo. Substituir papel por mais plástico, simplificar embalagens ou até incentivar vendas diretas sem mediação adequada pode fragilizar a rastreabilidade, o descarte correto e até o papel do farmacêutico como orientador. Corre-se o risco, portanto, de ser desmontada uma cadeia que envolve segurança sanitária, informação qualificada e responsabilidade compartilhada.
Há ainda um ponto sensível: a tentativa de desqualificar o debate, atribuindo a defesa da bula impressa a interesses secundários, ignora o essencial. Não se trata de proteger gráficas. Trata-se de proteger o direito básico à informação clara e imediata, um pilar da saúde pública.
No fim, a pergunta que permanece é direta: estamos diante de inovação real ou de uma redução de custos travestida de avanço? Porque quando o lucro se sobrepõe à informação, e a informação à saúde, o resultado não é progresso! É risco! E, diante disso, é legítimo dizer: é uma vergonha!
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Escrito em co-autoria com Alexandre de Morais, advogado especializado em Defesa do Consumidor e coordenador do Movimento Exija Bula.