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Quanto mais digital o mundo fica, mais valiosa se torna a confiança

Tecnologia amplia serviços extrajudiciais, mas segurança jurídica segue dependente da atuação humana. Cartórios unem inovação, confiança e prevenção de fraudes.

10/7/2026
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O Brasil vive uma contradição curiosa. Hoje compramos imóveis, assinamos contratos, abrimos empresas, movimentamos recursos e resolvemos uma série de questões sem sair de casa. A transformação digital mudou a forma como vivemos, consumimos e nos relacionamos. Mas ela trouxe um efeito colateral que talvez poucos tenham previsto. Nunca foi tão fácil fazer negócios. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil aplicar - e ser vítima de - golpes.

Falsificações, roubo de identidade, invasões de contas e fraudes patrimoniais atingem diariamente cidadãos, empresas e órgãos públicos. O crescimento dos golpes digitais mostra que a tecnologia, sozinha, não atende uma demanda primordial: a confiança. Afinal, quem garante que a pessoa do outro lado da tela é realmente quem diz ser? Quem assegura que um documento é autêntico? Quem verifica a legalidade de um negócio? Quem assume responsabilidade quando algo dá errado?

O desafio contemporâneo não está em substituir pessoas por sistemas, mas em construir mecanismos capazes de combinar inovação tecnológica com responsabilidade, confiança e proteção jurídica. Os cartórios extrajudiciais passaram por esse processo de transformação. Incorporaram plataformas eletrônicas, desenvolveram serviços digitais, ampliaram a oferta de atos remotos e acompanharam a modernização da sociedade. Mas fizeram isso preservando seu principal diferencial: a análise humana qualificada, a responsabilidade jurídica e a fé pública.

Essa combinação talvez seja uma das respostas mais relevantes para as questões atuais. A tecnologia está presente, mas acompanhada de validação jurídica, fiscalização institucional e responsabilização civil. Os cartórios não competem com a tecnologia, nem muito menos, tornaram-se obsoletos ou desnecessários. O setor utiliza a tecnologia para ampliar a agilidade e a capilaridade de seu atendimento, sem abrir mão da proteção oferecida ao cidadão.

Os cartórios extrajudiciais brasileiros, especialmente os de Santa Catarina, representam hoje uma das mais importantes estruturas de confiança da sociedade moderna. São instituições que conseguiram realizar algo raro: unir o melhor do mundo digital ao melhor do atendimento humano presencial. Enquanto muitos serviços migraram completamente para plataformas digitais, afastando o cidadão do contato pessoal, os cartórios seguiram outro caminho.

Hoje, um catarinense pode realizar inúmeros atos sem sair de casa. Escrituras, procurações, autenticações eletrônicas, assinaturas digitais qualificadas, atos imobiliários e diversos outros serviços podem ser praticados com segurança por meio das plataformas eletrônicas do sistema notarial e registral. Por outro lado, quando o cidadão precisa de orientação, acolhimento ou atendimento presencial, encontra um cartório próximo. Em praticamente todos os municípios do estado há uma unidade preparada para atender de forma humana, acessível e personalizada.

A tecnologia pode acelerar procedimentos, facilitar o acesso e reduzir distâncias. Mas ela não identifica vulnerabilidades humanas, não orienta juridicamente as partes, não detecta todas as tentativas de fraude e, principalmente, não assume responsabilidade pelos atos praticados. O tabelião e o registrador assumem essa responsabilidade. São profissionais do Direito investidos de fé pública, submetidos à rigorosa fiscalização do Poder Judiciário e responsáveis pela análise jurídica dos atos que impactam a vida, a família, o patrimônio e os negócios dos cidadãos.

Além disso, ao verificar a autenticidade dos atos, identificar riscos, orientar as partes e conferir segurança jurídica aos negócios, os serviços notariais e registrais exercem uma função preventiva que muitas vezes passa despercebida. O sucesso desse trabalho, afinal, costuma ser medido justamente pelos conflitos que não acontecem.

Essa lógica também ajuda a explicar a ampliação das soluções extrajudiciais. Inventários, divórcios consensuais, regularizações imobiliárias, reconhecimento de paternidade, usucapião e diversos outros procedimentos passaram a ser resolvidos fora do Poder Judiciário, com mais agilidade e menor desgaste para os envolvidos.

O avanço da extrajudicialização não representa apenas modernização administrativa, mas também uma mudança na forma como o Estado entrega soluções à população. Em vez de esperar que um conflito chegue aos tribunais, busca-se resolver questões de forma mais rápida, eficiente e, principalmente, segura.

Em qualquer debate sobre serviços públicos, o custo importa. Mas talvez a pergunta mais relevante seja outra: quanto custa não ter segurança jurídica? Em tempos de inteligência artificial, golpes digitais e relações cada vez mais complexas, a combinação entre tecnologia, presença territorial, responsabilidade jurídica e atendimento humano tornou os cartórios ainda mais relevantes. O momento é do extrajudicial. E o maior beneficiado por essa evolução é o cidadão.

Autor

Otávio Guilherme Margarida Tabelião e presidente da Associação dos Notários e Registradores de Santa Catarina (Anoreg/SC).

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