A inteligência artificial já automatiza as tarefas mais repetitivas da advocacia brasileira e coloca o advogado em funções que nenhum sistema substitui. Análise de risco, decisão estratégica e interpretação de dados passam a ser o novo núcleo da profissão, e os escritórios que entenderem isso primeiro levam vantagem competitiva no mercado.
É o que mostra o Panorama de Tendências 2026, da Preâmbulo Tech, elaborado a partir de pesquisa com mais de 40 escritórios e departamentos jurídicos brasileiros, que revela o tamanho do avanço no setor, 65,9% dos escritórios utilizam IA para elaboração de peças processuais e 59,1% para revisão e organização de documentos. As tarefas de maior volume e menor exigência de julgamento humano já encontraram seu substituto tecnológico, liberando o profissional para o que realmente importa.
Com apenas 2,3% dos escritórios utilizando inteligência artificial para análise preditiva e insights estratégicos, há um vasto território de valor ainda inexplorado. Os dados disponíveis na pesquisa mostram que a tecnologia não está substituindo o trabalho do advogado, mas redefinindo o papel desse profissional. Esse processo pode ser vantagem competitiva para os escritórios nos próximos anos.
O novo papel que a profissão ganha
A transformação em curso não retira do advogado sua centralidade. Ao contrário, eleva o padrão do que se espera dele. O profissional passa a atuar como curador dos resultados gerados pela IA, analista dos dados que os sistemas organizam e responsável pelas decisões que nenhum algoritmo está autorizado a tomar.
"A inteligência artificial não substitui o advogado. Ela amplia a capacidade de análise, velocidade e acerto, mas o julgamento e a responsabilidade continuam sendo humanos", explica Kazan Costa, CEO da Preâmbulo Tech.
O volume de processos no Brasil ajuda a dimensionar esse desafio. Em 2025, foram distribuídos mais de 39 milhões de novos processos, com aproximadamente 75 milhões de processos em tramitação, de acordo com dados do CNJ. Esse cenário torna inviável qualquer tentativa de gestão baseada exclusivamente em controle humano individual ou acompanhamento manual de informações.
O profissional que souber aproveitar esse momento sairá na frente. As competências que ganham protagonismo no novo mercado jurídico vão além do domínio técnico tradicional. Pensamento crítico, inteligência emocional, visão interdisciplinar e capacidade de leitura de dados são os diferenciais reais de quem vai se destacar. E o dado da pesquisa confirma essa percepção.
Para 86,4% dos profissionais ouvidos, o principal benefício da IA é o aumento de produtividade. Outros 65,9% destacam a eliminação de erros operacionais e 61,4% valorizam a possibilidade de ganhar escala sem aumentar a equipe. Metade dos entrevistados já enxerga na tecnologia uma alavanca para tomada de decisão mais estratégica e para ganho de competitividade no mercado. O retrato é de uma profissão que começou a adotar a IA pela eficiência e está, progressivamente, descobrindo seu potencial mais sofisticado.
Um novo modelo de negócio em construção
A migração do trabalho jurídico para funções de maior valor agregado transforma também a estrutura econômica da profissão. À medida que tarefas operacionais deixam de consumir a maior parte da jornada, abrem-se as condições para modelos de honorários baseados em valor, previsibilidade e resultado, em substituição à lógica de horas faturáveis que ainda domina grande parte dos escritórios.
Relatórios da Thomson Reuters Brasil citados no Panorama projetam economia de até 12 horas semanais por profissional com o uso consistente de IA generativa até 2029. Para Costa, esse tempo representa muito mais do que eficiência. "À medida que tarefas operacionais deixam de consumir a jornada, abre-se espaço para modelos de honorários baseados em valor e previsibilidade", completa.