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Primeira vez que chorei (A)

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Atualizado em 17 de fevereiro de 2011 14:10

 

Estávamos, eu e a Maria Helena, na casa de freiras, em Campos do Jordão. Na verdade, trata-se do Mosteiro das Monjas Beneditinas que fica no começo da subida que leva ao Palácio da Boa Vista, sede hibernal do governo estadual e museu aberto aos interessados.

As monjas desenvolvem um trabalho social magnífico e, para custeá-lo, têm várias atividades remuneradas, uma das quais a hospedagem de casais, geralmente de meia idade. Se você topar ouvir o sino chamar para a meditação das cinco horas da manhã, é com você mesmo. De quebra você ainda as ouvirá cantando, na capela de São João Batista, aquelas magníficas músicas gregorianas que, geralmente, são cantados apenas por homens (clique aqui).

Isso, aliás, pode ser feito também às 18 horas.

Pois lá estávamos hospedados e, ao entrarmos no refeitório, minha mulher levou um susto. Dentre as mulheres, havia uma que lhe chamou a atenção. Bem mais velha do que nós dois, ela era uma senhora como qualquer outra, ao menos para mim. Fosse pela voz, fosse pelo sotaque, fosse pelo perfume, a Maria Helena sussurrou-me que conhecia aquela senhora. Fomos até ela e minha mulher indagou-lhe se ela era maranhense. Reposta afirmativa. Morou em São Caetano do Sul? Sim, aliás ainda reside lá. Perplexidade geral. "Lembro-me da senhora, que era casada e tinha uma irmã que estava para ingressar no convento." A senhora apontou uma das monjas presentes, tão velha quanto ela, que era sua irmã e iniciara a vida religiosa quando a Maria Helena ainda era criança, como verificamos pelo cotejo de datas. "Pois eu me lembro do seu marido carregando-me no colo" disse a Maria Helena, para espanto geral.

Fatos como esse me impressionam sobremaneira porque, muito ao reverso, tenho pouquíssimas recordações da minha infância, algumas das quais provocadas por fotografias, tiradas num baile de carnaval ou numa festa de aniversário.

Não preciso informar os mais jovens que essa epidemia de câmeras fotográficas que hoje se escondem até em telefones celulares não havia naquele tempo. As máquinas eram uns caixotes pretos, de foco fixo, e o fotógrafo deveria observar a distância necessária, em relação ao objeto a ser fotografado, para que a imagem não ficasse borrada. Os filmes que se colocavam naquele caixote permitiam que se tirassem até 12 fotografias, que seriam reveladas e copiadas em laboratórios especializados. Os bons fotógrafos tinham a sabedoria de jogar fora todas as fotografias desfocadas para não ouvir os comentários dos chatos que sempre têm um deselogio esperando oportunidade para ser despejado. Aliás, isso de selecionar as melhores fotografias eu aprendi, já moço, com um conceituado fotógrafo profissional, que me garantiu que as fotografias que ele exibia e que lhe traziam tantos elogios representavam bem menos de dez por cento das que ele havia tirado. "Às vezes, depois de revelar um filme, atiro o filme na lata de lixo, sem copiar nenhuma."

Pois algumas pessoas têm essa capacidade de ir buscar num canto da memória alguma lembrança que remonta ao início da vida. "Sou capaz de acreditar que você se recorda da primeira vez que chorou" provoco a Maria Helena, que não me diz nem sim nem não.

Quem lembraria?

Estatisticamente, a quase totalidade das pessoas chora assim que descobre que saiu do Paraíso (deitado o dia inteiro numa água morninha, comendo, bebendo e sendo transportado sem precisar fazer o menor esforço, chorar por que?), talvez antevendo o que as aguarda aqui fora. Disse-me uma amiga obstetra que, quando o recém-nascido não chora espontaneamente, ela lhe dá umas palmadas para incentivá-lo, pois o choro teria fins terapêuticos.

Ari Barroso tratou do tema (clique aqui), valendo notar que o rosto que aparece no YouTube não é do Sílvio Caldas, mas do Orlando Silva. Para conferir, clique aqui.

Pois a lembrança que tenho do meu primeiro choro já me pega com alguns anos de idade e considero-a uma lição de vida. Por motivos que desconheço, eu me pusera a atazanar minha mãe, apelando para aquele chorinho irritante de que se valem muitas crianças. "Se não parar de chorar sem motivo vai acabar chorando com motivo" era uma das frases prediletas de minha mãe, que me pegou pela orelha e me colocou num canto da sala, onde eu continuei com aquela ladainha. O choro era tão falso que, enquanto me lamuriava, eu esquadrinhava a sala, reparando em muitos enfeites a que eu não havia dado muita atenção até então. Foi quando tive um estalo: "Isso não vai levar a nada!" Levantei-me, passei por minha mãe (em silêncio, é claro) e fui para o quintal aprontar alguma travessura.

Aprendi com aquele episódio a tentar dimensionar adequadamente o problema que a vida me apresenta, para poder estabelecer a estratégia adequada à sua solução, equilibrando emoção e razão. Quando uma de minhas filhas, ainda menina, foi atacada por um cão policial, que lhe rasgou uma das pernas e o couro cabeludo, descobri em mim uma coragem que eu ignorava: peguei o cachorro pelo cangote e o atirei longe. Levei em seguida a menina ao hospital (carro dirigido por um amigo, pois eu deveria acalmar minha filha, que me indagava se iria morrer em virtude dos ferimentos), onde foi operada por mais de 3 horas, enquanto eu consolava a dona do cachorro, nossa amiga, que estava naturalmente inconsolável com o sucedido.

Meu pai morreu repentinamente, após ter dado uma conferência na academia de letras de uma cidade mineira. O corpo foi trasladado, como se costuma dizer, para São Paulo, cabendo ao filho mais velho todos os procedimentos necessários ao sepultamento. Cadê tempo para chorar? Esse choro, então contido, só veio à tona alguns meses depois, quando nos capacitamos de que ele não voltaria daquela viagem.