terça-feira, 13 de abril de 2021

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Românticos

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

 

"O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente,

que chega a fingir que é dor

a dor que deveras sente."


(Fernando Pessoa)

O Francepiro vive a reclamar que as editoras não se interessam pela publicação de livros de novos autores, logo ele que deu a um de seus livros um nome invejável: "Do amor e outras fraudes". Um achado! Pois tenho uma notícia alvissareira para dar-lhe meu caro Francisco, para oficializar a oportuna palavra que ouvi dias destes, híbrido que me não parece de má origem. Coisa que o nosso colega Guimarães Rosa certamente avalizaria.


Conheci numa dessas feiras de livros, que eu e você costumamos freqüentar, a simpática proprietária de uma editora sediada no Rio de Janeiro. Num casamento de egípcio e latim, escolheu ela o nome da novel empresa, que você encontrará na Internet, com uma relação de livros de poesia editados por eles. Sim, meu caro Fran: poesia! O site nos informa que Íbis era a ave cuja cabeça encimava o corpo do deus Thot, criador do alfabeto e padroeiro da literatura. Nosso padroeiro, portanto.

Como o site não indica o endereço eletrônico do departamento de distribuição dos livros, sou informado pela direção que eles apenas editam o livro. Distribuição serão outros mil e quinhentos. Isso, porém, não constituirá obstáculo capaz de desanimá-lo, se eu bem o conheço.

Tive uma tia que vendia Yakult. Ela saía pelas ruas de seu bairro, com um carrinho de feira, carregando aqueles frasconetes de lactobacilos, que é como aquilo se qualificava, se não me falha a já falível memória. Tocava a campainha da casa e repetia o mesmo refrão, dias e dias. "Vende muito disso, tia?" Ela, com seu sotaque italianado, dizia alguma coisa que eu mal compreendia, talvez palavrão, e continuava a cantarolar alguma música do Carlo Gardel, como ela pronunciava, talvez fosse ele algum cantor italiano, e não o francês Charles Gardès. O produto era fabricado pelos japoneses, segundo ela me explicava, e tinha tais e quais efeitos, que eu, menino ainda, não entendia muito bem. O que sei é que os japoneses, com essa mania de imitar os norte-americanos, acabaram acabando com o ganha-pão da minha tia Nena, pois em lugar de o seu produto ser vendido um a um de casa em casa, passou a ser exposto, em pacotes de dúzia, nas geladeiras dos supermercados. ¡Siglo veinte, cambalache problemático y febril!

Sou também do tempo do "Ding, dong. Avon chama!" Lembra? Pergunte à tua mãe. Era um Yakult preocupado com a parte de fora do corpo. O rádio e a televisão incipiente nos pediam que fôssemos atenciosos para com a "moça do Avon". Se ela apertar a campainha de tua casa, mande a moça entrar, sirva um copo d'água, um cafezinho e, se possível, compre o produto que ela está vendendo. Era o reverso da história: os norte-americanos agora a adotar o sistema nipônico de vender de porta em porta. Imagino isso hoje, quando os porteiros do prédio são orientados a conferir as individuais datiloscópicas de quem nos procura, se haveria como servir água ou cafezinho à tal moça. Vá a gente saber se aquilo não é coisa do PCC.

Outra invenção dos norte-americanos era a venda de umas panelas de plástico, se posso dizer assim, também oferecidas de casa em casa. Criava-se no bairro uma espécie de irmandade do bem e as senhoras, geralmente tão desocupadas enquanto os maridos davam duro no chamado trabalho e enquanto a televisão não se tornasse a coisa insuportável que se tornou, passariam a fazer algo de útil, que lhes proporcionaria algum trocado para o batom ou o rouge, se é que a senhorita que me lê sabe do que estou falando. Havia um curso preparatório que deveria ser uma autêntica lavagem cerebral, tal era a modificação operada nas que o freqüentavam. Você ia a uma missa de sétimo dia e lá estava uma amiga pronta a conversar sobre o tal produto, falando, baixinho é claro, das maravilhas da tal quinquilharia. Se você se encontrasse com ela na feira, ou na padaria, ou na quitanda, era tiro e queda: a tal vendedora parecia esses moços neo-convertidos que, de Bíblia na mão, vêm nos teus calcanhares com o refrão "convertei-vos!". Pois os vendedores das tais panelas de plástico tinham esse mesmo tipo de comportamento. Descobri que o chefe deles utilizava do mesmo sistema de avaliação e incentivo utilizado pela turma do A.A.: à medida que você atingisse um número de vendas por mês, recebia um bottom de outra cor. E todos eles se cruzando com seus invejáveis bottons coloridos na lapela, como se vender panelas de plástico fosse tão meritório como livrar-se do álcool.

Pois hoje não mais nos propõem vendermos lactobacilos, meu caro Francepiro, nem panelas de plástico, nem creme anti-rugas. O que a modernidade nos propõe é que saiamos por aí, a empurrar carrinho de feira pelas calçadas arrebentadas que temos em nossa infeliz cidade, desviando-nos dos cocôs de vários tamanhos e formas que os cachorrinhos de madames e cavalheiros se encarregam de espalhar por todo canto dia e noite, a oferecermos, de porta em porta, nossos livros de poesia.

Sonhador que sou, vejo meu prezado amigo a oferecer o produto falando naquele bocal que nos aguarda na parede das casas. Tenho aqui um "lânguidas lágrimas de serena face/ que jorrais suaves por meu rosto gasto..." Ou então tenho um mais alegre: "cômodos lazeres/ placidez ebúrnea/ cômodos prazeres/ sensatez ausente ..."

Aliás, ia me esquecendo, o site da mesma editora nos recorda que Íbis era um dos muitos falsos nomes de que se valia o nosso tímido colega Fernando Pessoa, este sendo o apelido quando enviava cartas de amor à sua amada Ofélia Queiroz. Lembrança mais do que oportuna, pois o nosso Fernando António Nogueira Pessoa, que se escondia sob vários disfarces, como Alberto Caieiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares, o do Livro do Desassossego, também tinham lá seus problemas para distribuir seus poéticos livros.

Consta que nossa colega Cecília Meireles, tendo ido a Portugal, para proferir conferências na Universidade de Coimbra, desejou conhecer o poeta de quem tinha se tornado admiradora e que talvez precisasse de uma mãozinha brasileira. Marcou um encontro com os heterônomos todos, que se daria ao meio-dia na praça onde hoje lá está ele sentado, mesmos óculos, mesmo chapéu, mesma gravata e mesmo terno, agora tudo isso brônzeo. Ela esperou até as duas da tarde, tempo mais do que suficiente para que o Fernando reunisse todos eles e lá fossem todos. Cansada de esperar, Cecília voltou ao hotel e ali encontrou um exemplar do livro Mensagem e um recado do poeta: não havia comparecido porque, consultando os astros, soubera que os signos dela não combinavam com o de nenhum dos seus heterônomos. E os astros tinham toda razão: não houve mais encontro algum, mesmo porque no ano seguinte o Fernando Pessoa faleceu.

E, se isso te consola, meu caro Francisco César, só em 1982 foi publicada a edição definitiva do Livro do Desassossego, que o nosso colega lusitano havia escrito durante a vida, é claro, que se findou, como sabeis, em 1935, quando nascias.

Atualizado em: 11/10/2006 16:42

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