quinta-feira, 1 de outubro de 2020

COLUNAS

Olhai os espinhos do mundo

Aqui não tenho a pretensão de fazer projeções e nem previsões sobre o cenário

Quem der uma passada de olhos no mundo constatará preocupantes e oscilantes indicadores econômicos e a firme tendência de inquietação política e social. Vê-se que o acentuado declínio da taxa de investimento nas economias centrais, ao longo das duas últimas décadas, se soma a incrível onda de avanços tecnológicos. Nesse contexto, há evidente incerteza sobre os efeitos desse complexo e aparentemente contraditório processo em relação à produtividade das economias.

O acúmulo de "conhecimento tecnológico e produtivo" não tem se universalizado de forma homogênea. Ao contrário, tem provocado severas exclusões, não propriamente pelo desconhecimento do que ocorre - há excesso de usuários -, mas pela lacuna não preenchida do domínio dos novos processos e conteúdos tecnológicos. Com efeito: os padrões de vida entre os países têm se diferenciado acentuadamente e, internamente, as sociedades têm constatado o aumento da desigualdade social que não é apenas de renda, mas de "funcionalidade" vez que a força de trabalho tem se tornado inepta perante os novos padrões de produção e consumo. Para se ter uma noção dos efeitos entre áreas geoeconômicas, a Europa e a América do Norte tem 47,5% do PIB afetados positivamente pelas pesquisas e desenvolvimentos tecnológicos ("P&D"), a Ásia do Leste e o Pacífico, 38,6%, enquanto a África subsaariana apresenta um sofrível 0,8% e a América Latina e Caribe, 3,6%. Os dados são da UNESCO.

Dou um exemplo do efeito interno aos países da desigualdade tecnológica: não é anedótico e ocasional o fato de que as empresas empregam pessoas cada vez mais velhas para não perder o "conhecimento produtivo". As empresas têm apostado em quem já está com as raízes mudancistas da tecnologia. Melhor ter de saída um patamar mais elevado para superá-lo logo à frente. Imensa multidão de desempregados, sobretudo os mais jovens, perderam a funcionalidade concreta de participar no processo de desenvolvimento econômico.

Esse cenário, estreitamente posto, recomendaria que fosse aumentada a colaboração e a integração das políticas econômicas, culturais e de desenvolvimento entre os países. Do contrário, num mundo de 7,7 bilhões de pessoas, essa desigualdade provocará, de forma crescente, instabilidades internas nos países e entre estes, com efeitos altamente perturbadores. Pesquisa de 2009 do PNUD, órgão das Nações Unidas para o desenvolvimento, indicou que 3% dos habitantes do mundo moravam fora dos países em que nasceram. Estima-se que dez anos depois esse número seja de 5%, podendo dobrar nos próximos dez anos. Em breve, mais de 20% da população dos EUA será de estrangeiros. Efeito da desigualdade entre as nações.

A observação não-ideológica da realidade indica, lamentavelmente, que o andamento das iniciativas da política internacional está marcado por aquilo que Hans Morgenthau, o grande teórico das relações internacionais, classificou como "proposições abstratas para preceitos de ação". Ou seja, há larga linguagem vulgar sobre "globalismo", "nacionalismo" e "manutenção da cultura" que divide e desintegra. A política internacional é o reino do caos desorganizado, com riscos por todos os lados. Dos curdos abandonados em meio à guerra da Síria ao Brexit, o repertório é completo e os atores são cômicos. Basta observar como são "tratados" os Tratados.

Internamente, os países registram verdadeiros apagões políticos que, se ainda não são altamente destrutivos, tornaram as instituições políticas mitigadas para exercer ações vigorosas para o enfrentamento dos desafios. No momento em que escrevo esse artigo, registram-se instabilidades inquietantes com diferentes escalas sísmicas: Hong Kong contesta o ordenamento jurídico chinês, o Canadá acaba de passar por um processo eleitoral que engrandeceu o populismo, os EUA litigam um processo de impeachment presidencial, a União Europeia não consegue lidar com o Brexit, o Oriente Médio está generalizadamente incrementando as tensões particulares entre os países, o governo do México está distratando arbitrariamente com o setor privado, o Equador está com a capital "transferida" por conta dos distúrbios políticos, o Chile, porto seguro dos liberais latinos, está sob estado de sítio, a Argentina vive eleições plebiscitárias, a Bolívia tem eleições populares contestadas e assim por diante.

Já na economia já não há mais incertezas sobre o cenário. Em verdade o cenário é a própria incerteza. Leitura acurada e desinibida dos relatórios das instituições multilaterais (e.g. FMI, Banco Mundial, BIS), bem como, dos bancos centrais das principais economias nos informam que o risco de deflação é bem maior que o de inflação e que a atividade econômica está sob risco de cair na recessão. A reação é a baixa ordenada dos juros reais (negativos) o que se sabe não produzirá efeitos nem sobre a demanda de consumo e, muito menos sobre o investimento. A hora recomenda estímulos tipicamente fiscais, o aumento dos gastos públicos. Ocorre que isso depende de parlamentos que pecam pela desorganização política vez que estão saturados pelo populismo, pelo regionalismo, pelo debate excludente sobre temas de costumes, pela irrelevância orgânica dos partidos políticos e pela ausência de diálogo com os movimentos sociais.

Há, a despeito, desse quadro de sistemática disfuncionalidade política quem acredita que fatos isolados serão capazes de desviar dos obstáculos estruturais. Cito um exemplo: o acordo preliminar da China e dos EUA em relação à denominada "guerra comercial" é incompatível com o fato de que o país asiático é "na margem" mais competitivo que os norte-americanos. Logo, ou os EUA "freiam" os chineses via políticas alfandegárias e tributárias ativas ou sofrerão os efeitos de sua menor capacidade de competir abertamente. Isso tudo considerado o fato de que as multinacionais americanas hoje investem mais na China que nos EUA. A "guerra comercial", concretamente, está apenas começando.

Enquanto isso, os mercados financeiros e de capital desfilam nas telas de computador, operando sob modelos racionalizados (algoritmos) e com a participação cada vez mais ativa de pessoas físicas em busca do caminho do ouro: a volatilidade não é mais um indicador - é a característica permanente que reflete riscos que viciam os fundamentos econômicos e das empresas. O valor das empresas e ativos é uma espécie de fetiche que obscurece as possibilidades efetivas de crescimento orgânico das corporações. Obviamente, há oportunidades para todos: a racionalidade de cada agente econômico pode levar ao sucesso individual. Ocorre que também pode integrar a irracionalidade coletiva que leva ao desastre.

Se o leitor teve a paciência de me ler até aqui, pode estar pensando que o relato acima é a representação do pessimismo exagerado. Registro que aqui não tenho a pretensão de fazer projeções e nem previsões sobre o cenário. Parece-me impossível construir modelos preditivos diante de variáveis políticas, sociais e econômicas que não podem ser combinadas para reduzir riscos e aumentar retornos e/ou melhorar as expectativas. Afora o fato de que, em princípio, a realidade recomendaria muita cautela e conservadorismo, da ação individual à política. Ocorre que essa é a hora mais sublime da civilização humana para que os detentores do poder possam ser mais ousados e construtivos.

Atualizado em: 24/10/2019 09:08

COORDENAÇÃO
Francisco Petros

Francisco Petros, é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).