quinta-feira, 1 de outubro de 2020

COLUNAS

Não é uma gripezinha

Não é difícil concluir sobre qual é a pretensão aberta do presidente.

A surpresa que a covid-19 trouxe à humanidade não foi somente a sua existência e capacidade de se expandir por todos os rincões. De fato, países ricos e pobres viram-se interdependentes, e, sobretudo, semelhantes, frágeis diante de algo inusitado e com danosos efeitos econômicos e sociais.

O Brasil, obediente à sua tradição de ser a terra da jabuticaba, vive o espanto daquilo que é como é. Estar boquiaberto por tudo que se assiste no país é algo que ganha ares de naturalidade. Há de se alertar que essa adaptação não tem nada de virtuosa - em verdade pode ser sinal de que o espanto poderá ser ainda maior.

A recuperação econômica do Brasil, pós-pandemia, não será em "V" como informou o ministro da Economia Paulo Guedes. Não propriamente porque isso não seja possível, mesmo que difícil. Ocorre que a política no país está em frangalhos. O presidente da República resolveu alimentar a crise institucional com manobras que têm a ousadia que somente os ignorantes podem propiciar.

As manifestações e aglomerações antidemocráticas que estamos a assistir tem duas características marcantes, dentre tantas poderíamos destacar: são planejadas com a certeza de que o presidente delas participará e tem uma estrutura de ideias inconsistentes entre si, mas organizadas em um receituário feito para confundir.

Existe uma investigação, conduzida pela Política Federal e jurisdicionada pelo STF, para saber quem organiza tais passeatas reacionárias e antidemocráticas. Em que pese a necessidade de se chegar aos "autores do crime" em função do devido processo legal, do ponto de vista conceitual já se sabe quem é o autor intelectual dessas tertúlias reacionárias: o líder supremo do Executivo. Para se chegar a essa conclusão não se faz necessária o rigor da observação hipocrática no intento de se saber sobre a doença. Não houvesse a participação do Presidente da República nos eventos, haveria pouco conteúdo informacional e "ideológico" a ser reportado. Aqueles homens e mulheres de verde e amarelo seriam como as torcidas organizadas que parecem torcer para determinado clube de futebol, mas, de fato, são apenas criminosos, no caso, travestidos de patriotas.

No que diz respeito àquilo que se propaga nesses "encontros" está claro que as ideias não têm relação com o "Brasil acima de tudo" e, muito menos, "Deus acima de todos". Como ensinou o ensaísta, escritor e pensador inglês Samuel Johnson (1709-1784), o patriotismo é o último refúgio do canalha.

O que se verifica nessas marchas nazistas é a difusão de ideias que são avaliadas pelos seus emissores como "definitivas", "suficientes", "necessárias", para que a redenção carregada pelo seu maior líder prospere. Tais ideias não podem, com efeito, suportar a existência do Poder Judiciário que "limita" o poder presidencial, muito menos do Poder Legislativo, que fiscaliza e propõe o que não necessariamente tem identidade com o que propalam esses "camisas verde-amarelos".

Não é difícil concluir sobre qual é a pretensão aberta do presidente. O "messias" ou "mito" pretende o diálogo direto com a turba, sem intermediários ou juízes. A democracia para estes não é a construção civilizatória, sedimentada ao longo de séculos, mas "algo" produzido pelos atores do momento, milicianos da "nova sabedoria" reverberada a partir do oráculo da Virgínia (EUA).

Impressiona que se tenha acreditado que um reacionário pregador na Câmara dos Deputados pudesse ser o democrata-presidente.

A demissão do ex-juiz Sergio Moro foi sinal mais evidente do que evidente já estava. Ambos disputavam o mesmo espaço eleitoral. Por ora, vingou aquele que tinha a caneta na mão para assinar a demissão.

Há, contudo, um dado interessante, registrado após o encontro de Brasília no último dia 3 de maio. A nota do Ministério da Defesa deixou cristalino que o primeiro mandatário não tem o apoio das tropas na ativa. Embora a "administração" do messias conte com dezenas e dezenas de militares da reserva, as peripécias reacionárias e anticonstitucionais do Supremo Líder não têm respaldo fardado. Excelente sinal.

Em meio aos mortos da covid-19, teremos de cuidar da democracia brasileira. No contexto atual, faz todo sentido que seja considerado o impeachment presidencial como um fato de probabilidade concreta e relevante. Ou será que o que estamos a assistir não é grave atentado contra a Ordem Institucional?

O cenário é perturbador e tende a ser acrescido com mais inquietações vindas da área econômica. A se continuar o infindável debate sobre como deve ser a política econômica para superar o grave momento nacional, é provável que mergulhemos em uma recessão desproporcional ao tamanho dos efeitos que o coronavírus trouxe para o Brasil e o mundo. De um lado vemos a sanha devastadora contra a ordem das contas públicas, o populismo fiscal. De outro, a pregação de uma ordem ideológica de que não há muito a ser feito da parte do Estado. De fato, nem uma coisa, nem outra: o Brasil tem de ter um plano de recuperação econômica mais consensual, baseado no aumento relevante do dispêndio público, limitado no tempo, mas grandioso na intensidade. É preciso suprir a demanda perdida nos últimos meses e garantir a demanda no futuro. Não é preciso ser liberal ou socialista para perceber que o problema do desemprego e da queda de renda é gravíssimo.

A vida de uma pessoa ou de um país não é linear. Todavia, o que estamos a assistir no Brasil é a crise continuada como cenário usual e corriqueiro. Assim não dá. Temos de dar um basta a isso. Isso não é uma gripezinha.

Atualizado em: 7/5/2020 10:06

COORDENAÇÃO
Francisco Petros

Francisco Petros, é advogado, sócio responsável pela área societária, compliance e de governança corporativa do escritório Fernandes, Figueiredo, Françoso e Petros Advogados. Economista e pós-graduado em finanças. Trabalhou por mais de 25 anos no mercado de capital, em instituições financeiras brasileiras e estrangeiras. Foi presidente da APIMEC - Associação Brasileira dos Analistas e Profissionais de Investimentos do Mercado de Capitais (2000-2002).