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A sangria (the blooding): Quando o DNA entra na história do erro judiciário

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Atualizado às 07:56

1. Black Pad: quando a ciência ainda sabia muito pouco

Na noite de 21 de novembro de 1983, Lynda Mann, de 15 anos, saiu de casa em Narborough, um pequeno vilarejo de Leicestershire no centro da Inglaterra, e não mais voltou. Familiares e vizinhos passaram a noite procurando por ela e, na manhã seguinte, seu corpo foi encontrado numa trilha conhecida localmente como Black Pad, nas proximidades do hospital psiquiátrico Carlton Hayes. Lynda havia sido violentada e estrangulada.1

A polícia fez tudo aquilo que o conhecimento disponível em 1983 autorizava fazer. Do sêmen recuperado, os peritos conseguiram extrair um perfil serológico: o agressor pertencia ao grupo sanguíneo A e apresentava uma característica enzimática que, combinada com aquele grupo, era encontrada em aproximadamente 10% da população masculina.2

Dez por cento, à primeira vista, parece uma boa redução, sobretudo quando há outros elementos de prova que possam delimitar a autoria. Todavia, quando o universo a ser considerado é composto por milhares de homens, a informação continua sendo insuficiente para individualizar quem quer que seja. Em outras palavras, a ciência conseguia dizer quem (muito provavelmente) não era o autor, mas ainda estava muito longe de confirmar quem era.

O caso permaneceu aberto, mas a hipótese sobre a autoria continuou sem um nome.

2. O novo método que (ainda) não procurava criminosos

A poucos quilômetros dali, na Universidade de Leicester, Alec Jeffreys investigava um problema inteiramente diferente. Seu interesse estava nas variações genéticas entre indivíduos e na forma como essas variações eram transmitidas dentro das famílias.

Precisamente às 9h05 de 10 de setembro de 1984, ao examinar uma radiografia resultante de um experimento com minissatélites — trechos do DNA formados por pequenas sequências que se repetem e variam bastante de uma pessoa para outra —, Jeffreys percebeu algo que mudaria sua própria vida e, pouco depois, a história do erro judiciário: as amostras formavam conjuntos de bandas semelhantes a códigos de barras, o padrão de cada pessoa era individual e os filhos compartilhavam bandas herdadas da mãe e do pai. Ele e sua equipe perceberam imediatamente que aquilo poderia ser empregado na identificação humana e na determinação de vínculos familiares.1

A técnica recebeu o nome de DNA fingerprinting — impressão digital genética — e sua primeira aplicação forense se deu em processo de natureza administrativa, mais precisamente em um caso de imigração envolvendo uma família de origem ganesa, demonstrando a relação biológica que permitiu impedir a deportação de um jovem.3

Aliás, antes mesmo de o DNA ingressar numa investigação criminal concreta, Jeffreys, Peter Gill e David Werrett já haviam demonstrado experimentalmente que material genético poderia ser recuperado de manchas antigas de sangue e de sêmen, publicando na revista Nature, em dezembro de 1985, o artigo Forensic application of DNA “fingerprints”.4

3. Ten Pound Lane: a segunda morte (e uma nova hipótese)

Em 31 de julho de 1986, Dawn Ashworth, também com 15 anos, desapareceu quando caminhava entre Enderby e Narborough. Seu corpo seria encontrado dois dias depois, num trecho de vegetação próximo à trilha de Ten Pound Lane.

As semelhanças com o caso Lynda Mann eram difíceis de ignorar: o gênero e a idade das vítimas, a proximidade geográfica, a violência sexual, o modo de morte e, sobretudo, as características serológicas do material biológico. Os investigadores passaram então a trabalhar fortemente com a hipótese de um mesmo agressor.

As investigações logo se concentraram em Richard Buckland, um jovem de 17 anos, com dificuldades de aprendizagem e ligação profissional com o hospital Carlton Hayes. Durante os interrogatórios, Buckland teria revelado conhecimento de detalhes não divulgados sobre a cena envolvendo Dawn e chegou a admitir o crime, mas seguia firme em negar qualquer participação na morte de Lynda.

Imperioso reconhecer que uma confissão ainda pode ser vista como a prova com maior vocação persuasiva; afinal, por que alguém admitiria a autoria de um crime grave se não o tivesse efetivamente praticado? Mas o problema está justamente em transformar essa pergunta — intuitivamente poderosa — numa máxima da experiência imune à refutação. A história das falsas confissões viria depois demonstrar que há muitas explicações plausíveis.

Para a polícia, havia ainda uma dificuldade adicional: se as duas mortes estavam ligadas ao mesmo agressor e Buckland admitia apenas uma delas, alguma coisa precisava ser explicada. O detetive David Baker, responsável pela investigação, recordou-se então de uma reportagem no Leicester Mercury sobre um cientista da universidade local que conseguia distinguir pessoas pelo DNA. Décadas depois, a própria Universidade de Leicester registraria que foi aquele artigo que levou Baker a Jeffreys.5

A pergunta dirigida ao laboratório era compreensível: seria possível usar aquela nova técnica para verificar se Buckland era o autor também do primeiro crime?

4. Quando a melhor prova refuta a hipótese investigativa

Jeffreys aceitou o desafio, mas fez uma ressalva técnica importante: não utilizaria exatamente o DNA fingerprinting multilocus que descobrira em 1984, já que referida técnica era pouco sensível para esse tipo de vestígio. Empregaria uma tecnologia derivada, baseada em sondas de locus único, que ele chamava de DNA profiling.6

Foram analisadas amostras preservadas dos casos Lynda e Dawn e uma amostra de Richard Buckland. O resultado produziu duas informações de extraordinária importância.

A primeira: o material seminal recuperado das duas vítimas apresentava o mesmo perfil genético. Agora, sim, havia uma razão científica muito forte para admitir uma origem masculina comum. A segunda: esse perfil não correspondia ao de Richard Buckland.

O DNA demonstrava que o material biológico relevante recuperado das amostras encontradas nas duas vítimas provinha do mesmo homem e que esse homem não era Buckland.

Os resultados foram repetidos e submetidos a verificação independente pelo Forensic Science Service, órgão britânico da perícia criminal. Buckland foi excluído: em novembro de 1986, deixou a prisão, tornando-se o primeiro acusado criminal a ser retirado do centro de uma investigação graças ao DNA, ou, na fórmula consagrada pela literatura, a primeira pessoa “exonerada” pela nova tecnologia.

5. A sangria de 1987

Buckland estava fora, mas o homem cujo material biológico aparecia nos dois casos continuava livre. A polícia, então, tomou uma decisão sem precedente: procurar o perfil genético não entre suspeitos previamente individualizados, mas na própria população masculina da região.

A partir de 1987, homens da faixa etária considerada relevante que viviam ou trabalhavam em Narborough, Enderby e Littlethorpe foram “convidados” a fornecer sangue ou saliva. A participação era formalmente voluntária, embora seja evidente que, numa operação daquela natureza, a recusa pudesse adquirir significado investigativo.

Cerca de cinco mil amostras foram coletadas, contudo, como o DNA profiling era lento e caro, realizou-se primeiro uma triagem serológica e apenas as amostras que compartilhavam as características convencionais do agressor — algo em torno de 10% — eram encaminhadas ao exame genético.7

Foi a primeira triagem genética em massa da história. Joseph Wambaugh, ex-policial e escritor americano, eternizaria a operação no livro The Blooding, “a sangria”.8 Durante meses, homens se apresentaram, foram identificados e forneceram amostras, mas no fim nenhum perfil coincidiu.

6. A fraude no fornecimento do material e o auxílio do acaso

Colin Pitchfork, 27 anos, padeiro, casado, pai de família e morador de Littlethorpe, decidiu não fornecer a própria amostra. Persuadiu um colega de trabalho, Ian Kelly, a comparecer ao posto de coleta, passando-se por ele, usando documento adulterado, o que efetivamente foi feito.

Esse talvez seja o segundo grande ensinamento do caso. Não existe prova científica que dispense a investigação sobre as condições de sua produção. Uma técnica pode ter enorme capacidade discriminatória e, mesmo assim, gerar uma falsa tranquilidade quando a cadeia que liga pessoa, amostra e resultado é defeituosa.

Por algum tempo, o expediente fraudulento funcionou, mas meses depois, numa conversa entre funcionários da padaria em um pub de Leicester, Ian Kelly contou que havia fornecido a amostra no lugar de Pitchfork. Uma mulher que ouviu a história levou a informação à polícia.

Em 19 de setembro de 1987, Colin Pitchfork foi preso. Desta vez, a amostra vinculada ao seu nome provinha efetivamente dele. O DNA profiling produziu a coincidência com o material recuperado das duas vítimas e Pitchfork confessou os crimes.

A sequência é importante: a triagem genética não “descobriu”, sozinha, Pitchfork. A fraude fez com que ele passasse incólume pelo exame populacional. Foi uma informação obtida fora do laboratório que revelou o problema e permitiu que a genética cumprisse a sua função identificadora.

7. Leicester Crown Court — 22 de janeiro de 1988

Em 22 de janeiro de 1988, no Leicester Crown Court, Colin Pitchfork declarou-se culpado pelos estupros e assassinatos de Lynda Mann e Dawn Ashworth, além de outros delitos e foi condenado à prisão perpétua. O regime então vigente levou, posteriormente, à fixação administrativa de um período mínimo de 30 anos antes da possibilidade de liberação; em 2009, a Court of Appeal reduziu esse mínimo para 28 anos.9

Pitchfork é corretamente lembrado como o primeiro homicida identificado e condenado com papel decisivo do DNA profiling e como o primeiro autor localizado no contexto de uma triagem genética em massa. Não foi, porém, a primeira condenação criminal a envolver DNA: antes de sua sentença, em novembro de 1987, já haviam ocorrido condenações por estupro associadas à tecnologia, como as de Robert Melias, na Inglaterra, e Tommie Lee Andrews, na Flórida.

O pioneirismo de Leicestershire é, em rigor, ainda mais interessante: foi ali que o DNA entrou numa investigação criminal real, primeiro para evitar a condenação de um inocente-que-havia-confessado e, depois, para confirmar a identidade do verdadeiro culpado.

8. O que o DNA provava — e o que jamais poderia provar sozinho

Anos depois, Jeffreys insistiria numa ideia que deveria acompanhar o entusiasmo com a prova científica: o DNA responde, em essência, se uma determinada amostra (provavelmente) originou-se de determinada pessoa, sem reconstruir sozinho o crime, sem explicar como o vestígio chegou ali, sem definir a relevância jurídica de sua presença e, certamente, sem substituir o restante da investigação.

Pode-se dizer, por isso, que a história de Leicestershire é menos uma narrativa sobre a infalibilidade da ciência e mais uma narrativa sobre controle do erro. O mesmo instrumento técnico desempenhou funções distintas: falseou uma suspeita altamente persuasiva; conectou duas fontes biológicas; permitiu uma triagem populacional; falhou aparentemente quando uma amostra foi fraudulentamente atribuída a outra pessoa; e, por fim, corroborou a identificação do verdadeiro autor.

Não há contradição nisso. Ao contrário, o episódio deixa nítido que a qualidade do conhecimento judicial depende tanto da força epistêmica de cada elemento quanto da completude e da integridade do conjunto no qual ele se insere.

Parece certo, ademais, que o caso oferece uma advertência atual. Quanto mais poderosa é uma tecnologia probatória, maior pode ser a tentação de convertê-la numa espécie de atalho cognitivo: “o DNA disse, portanto aconteceu”. Foi justamente o primeiro grande caso criminal do DNA que mostrou o contrário. A ciência é capaz de reduzir extraordinariamente o risco de erro; não elimina, porém, a necessidade de raciocinar sobre a prova.

Epílogo

Alec Jeffreys seria feito cavaleiro em 1994 e passaria a ser conhecido como Sir Alec Jeffreys. A técnica descoberta naquela manhã de setembro de 1984 se difundiu pelo mundo, deu origem a bancos de perfis genéticos, reabriu casos antigos e permitiu tanto identificar autores quanto excluir suspeitos e desfazer condenações injustas.

Em março de 2020, a Universidade de Leicester reuniu, num evento pelos 35 anos da publicação da descoberta, pessoas ligadas às primeiras aplicações da tecnologia, entre elas familiares de Lynda Mann e Dawn Ashworth, David Baker, Jenny Foxon e o próprio Jeffreys.10

Pitchfork chegou a ser libertado sob licença em 1º de setembro de 2021, mas foi recolhido novamente à prisão menos de três meses depois, porque violou as condições impostas. Em outubro de 2025, o Parole Board voltou a recusar sua liberação e não recomendou sequer transferência para regime aberto.11

Quase quatro décadas depois, talvez o aspecto mais extraordinário daquela história continue sendo o primeiro. Diante de uma confissão e de detalhes incriminadores, uma nova técnica científica produziu uma resposta simples e que provavelmente desagradou a opinião pública – não é ele – e, antes de ajudar a condenar um homicida, impediu que se condenasse um inocente.

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1 UNIVERSITY OF LEICESTER. The history of genetic fingerprinting; Hotspots and minisatellites. Registros institucionais do “eureka moment” de Alec Jeffreys às 9h05 de 10 set. 1984 e do desenvolvimento posterior do genetic profiling. Disponível aqui.

2 BRIGHT, J.-A. et al. The interpretation of forensic DNA profiles: an historical perspective. Journal of the Royal Society of New Zealand, 2020; e literatura histórica sobre o caso. As análises serológicas do caso Mann indicavam grupo A e perfil enzimático PGM presente em cerca de 10% dos homens.

3 JEFFREYS, A. J.; BROOKFIELD, J. F. Y.; SEMEONOFF, R. Positive identification of an immigration test-case using human DNA fingerprints. Nature, v. 317, 1985. Universidade de Leicester, First practical applications.

4 GILL, Peter; JEFFREYS, Alec J.; WERRETT, David J. Forensic application of DNA “fingerprints”. Nature, v. 318, p. 577–579, 1985. DOI: 10.1038/318577a0.

5 UNIVERSITY OF LEICESTER. 35 years since we changed the world. 11 mar. 2020. O relato institucional registra que David Baker chegou a Jeffreys depois de ler artigo no Leicester Mercury.

6 GITSCHIER, Jane. The Eureka Moment: An Interview with Sir Alec Jeffreys. PLoS Genetics, 2009. Jeffreys explica que, no caso criminal, utilizou uma tecnologia derivada, o DNA profiling, por considerar o fingerprinting original pouco sensível para material forense.

7 JOBLING, Mark A.; GILL, Peter. Encoded evidence: DNA in forensic analysis. Nature Reviews Genetics, 2004; e literatura de revisão histórica sobre o caso. Mais de cinco mil espécimes foram coletados; apenas os compatíveis na triagem serológica seguiram para profiling.

8 WAMBAUGH, Joseph. The Blooding. New York: Bantam, 1989. Livro-reportagem clássico sobre os homicídios, a triagem genética e a descoberta da fraude.

9 R v Pitchfork [2009] EWCA Crim 963, Court of Appeal (Criminal Division), 14 maio 2009. O acórdão registra a declaração de culpa em 22 jan. 1988, a prisão perpétua, a fixação posterior do tariff em 30 anos e sua redução para 28 anos.

10 UNIVERSITY OF LEICESTER. 35 years since we changed the world. 11 mar. 2020; Unique event with special guests celebrates 35th anniversary of DNA fingerprinting, 7 fev. 2020.

11 PAROLE BOARD (UK). Redacted decision in the case of Colin Pitchfork. Decisão de 27 out. 2025, publicada em 13 nov. 2025: recusada a liberação e não recomendada transferência para condições abertas.