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Clarice Lispector em Paris e a cultura brasileira nos grandes palcos do mundo

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Atualizado em 7 de janeiro de 2026 13:45

O Brasil vive um dos momentos mais interessantes de projeção internacional da sua cultura e voltar a ser reconhecido como capaz de produzir arte de alta qualidade só tem a contribuir para a disseminação de conhecimento sobre o país e para incentivar a nossa indústria cultural. Além da produção cinematográfica ter ganhado destaque recentemente, com filmes como "Ainda Estou Aqui" e "Agente Secreto" - ambos indicados e ganhadores de uma série de prêmios internacionais - a literatura brasileira volta aos holofotes em um dos palcos mais simbólicos do mundo, o lendário Théâtre du Soleil, em Paris, onde estreia a peça "Ballade au-dessus de l'abîme", inspirada em textos da escritora Clarice Lispector.

Protagonizado pela atriz Maria Fernanda Cândido, o espetáculo é um monólogo sensível construído a partir de trechos da obra de Clarice. O texto de Catarina Brandão revela aspectos marcantes da obra e vida da escritora, e conta ainda com a trilha tocada ao vivo pela pianista Sonia Rubinsky, importante especialista da obra do compositor Heitor Villa-Lobos. Além de obras de Villa-Lobos, ela toca peças de outro brasileiro, Alberto Nepomuceno, e do russo Sergei Rachmaninov.

O nome do espetáculo tem origem no poema "Visão de Clarice Lispector", de Carlos Drummond de Andrade, publicado no Jornal do Brasil, em 1977, um dia após a morte da escritora e seu aniversário. Mais um traço da poesia e cultura brasileira em projeção na peça.

O projeto de levar a obra de Clarice para a França se iniciou já com Maria Fernanda Cândido há cerca de cinco anos, em apresentação realizada na Embaixada do Brasil, no país, em homenagem ao centenário da autora. Após a apresentação, o texto foi transformado em peça e ganhou temporadas em Paris em outro teatro, além de passar pelo Brasil, sendo encenada em português pela primeira vez.

Em entrevistas, a atriz, que mora em Paris, tem afirmado perceber um movimento de descoberta da obra de Clarice na França, sobretudo entre jovens adultos, que ficam muito curiosos e querem saber de quem são esses textos. Não se trata apenas de exportar obras, mas de ver ideias, linguagens e sensibilidades brasileiras serem acolhidas por novas gerações no exterior. Estar em um teatro como Théâtre du Solei agora não é apenas uma conquista de agenda: é um selo de relevância cultural. Trata-se de uma afirmação potente de permanência e atualidade.

Lispector nasceu na Ucrânia, mas foi brasileira por escolha e por escrita, e sua obra nunca se acomodou em identidades fixas. Leitores, críticos e encenadores estrangeiros percebem nela algo que ressoa fortemente com inquietações contemporâneas: a investigação radical da consciência, o estranhamento diante do cotidiano, a recusa de respostas fáceis. Em um mundo saturado de discursos rápidos, Clarice convida à pausa e ao mergulho em si mesmo.

Cândido já tinha tido contato com a obra da escritora no filme "Paixão Segundo G.H.", de Luiz Fernando Carvalho, e baseado em livro de mesmo nome. Coincidentemente, a atriz empresta seu talento também para "Agente Secreto", dirigido por Kleber Mendonça Filho. A produção ganhou, no último domingo, 4/1, o prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Critics Choice Awards 2026, abrindo a temporada de premiações e com expectativas também de indicações ao Oscar, incluindo para o ator e protagonista Wagner Moura.

Vale destacar que nos últimos anos, o cinema, a literatura e as artes cênicas do Brasil têm conquistado circuitos internacionais com obras que recusam simplificações e reafirmam nossa identidade, resgatando ainda nossa história.

É de se ressaltar ainda o crescente esforço coletivo de profissionais do meio, como atores, diretores, produtoras e demais empresas envolvidas em divulgar as obras, com campanhas de sucesso no exterior, como já lembrado nessa coluna em outubro do ano passado1.

Entretanto, o reconhecimento externo não substitui a necessidade de investimento constante em políticas culturais sólidas no país, mas realimenta a produção local e funciona como espelho: revela o valor do que muitas vezes é subestimado internamente.

Como bem lembra Clarice Lispector e o título do espetáculo, é preciso coragem para encarar os abismos e produzir arte no Brasil é um exercício de equilíbrio: entre crise e invenção, entre memória e futuro. Por isso, a peça que estreia em Paris transcende o palco: atesta o resultado do trabalho dos nossos profissionais e o interesse pela produção cultural brasileira, além de mostrar o valor de ser original e não ter respostas prontas em um tempo dominado por cliques, algoritmos e interpretações rasas dos acontecimentos.

Como incentivador da nossa arte e admirador de Maria Fernanda, irei prestigiar o espetáculo, que estará em cartaz de 21 de janeiro a 1º de fevereiro, e convido a todos que estiverem em Paris (mais informações de ingressos).

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1 Disponível aqui.