COLUNAS

  1. Home >
  2. Colunas >
  3. Migalha do Saber >
  4. Sucessão em escritórios familiares: Como aliar tradição a uma boa gestão para garantir longevidade

Sucessão em escritórios familiares: Como aliar tradição a uma boa gestão para garantir longevidade

sexta-feira, 20 de março de 2026

Atualizado em 19 de março de 2026 11:29

A discussão sobre sucessão em escritórios de advocacia ganhou força nos últimos anos. A profissionalização da gestão, com a substituição de lideranças fundadoras por diretores não familiares e a criação de mais regras para a sucessão, como a aposentadoria compulsória, por exemplo, estão cada vez mais frequentes, e tem sido vistas como forma de manter um crescimento sustentável e a perenidade das bancas.

Neste contexto, é possível que o modelo familiar tenha sido visto por alguns como ultrapassado, associado a estruturas menos profissionais ou excessivamente personalistas. Essa leitura, contudo, ignora que governança e vínculo familiar não são conceitos antagônicos. Ao contrário, quando adequadamente estruturado, o modelo familiar pode combinar continuidade estratégica, cultura organizacional sólida e visão de longo prazo - elementos centrais para a longevidade de qualquer escritório.

Há muitos exemplos que mostram que é possível conduzir uma boa gestão e realizar uma sucessão bem estruturada dentro da própria família. Se bem planejado, esse modelo pode ainda se tornar um diferencial competitivo. A questão não está no sobrenome dos sócios, mas na qualidade dos advogados, na clareza da comunicação e na capacidade de preparar as próximas gerações, que podem ser um ativo e não um passivo para o futuro da banca.

Porém, a sucessão, em qualquer organização, exige método e é preciso separar afeto de governança. A presença de familiares não pode se sobrepor à meritocracia. Ao contrário, deve elevá-la. Quem recebe um legado carrega responsabilidade adicional de desempenho, resultados e exemplo. Precisa preservar a reputação, sem deixar de adaptar a instituição às transformações do mercado jurídico.

A presença de familiares no escritório também não deve afastar a busca e retenção por novos talentos no mercado, com a formação de uma equipe competente, profissional e diversa. Essa presença, pelo contrário, deve e pode até facilitar a criação de um ambiente de confiança, no qual os demais advogados possam crescer, se desenvolver e trocar conhecimentos com os mais experientes, também se tornando parte dos planos da família e do crescimento do escritório.

No Wald Advogados, Alexandre Wald compartilhou, em conversa sobre o tema, que acredita que escritório é familiar não porque nele convivem três gerações atualmente, "mas porque cada um dos colaboradores se sente pertencendo a uma só família". Essa percepção amplia o conceito de empresa familiar. Não se trata apenas de laços de sangue, mas de cultura compartilhada, propósito comum e relações de longo prazo.

Rogéria Fagundes Dotti, do Dotti Advogados, por sua vez, afirmou que "a presença dos filhos e netos assegura o respeito aos princípios originários, sem abrir mão das ideias e tendências que iluminam as novas gerações". "É justamente essa fusão de constância e mudança que permite a aposta na perenidade", disse ainda, mostrando que tradição e mudança não são forças opostas, mas complementares.

Do ponto de vista financeiro, a gestão e sucessão de um escritório familiar traz outros aspectos, já que se trata de um bem da família, que tem interesse direto em mantê-lo lucrativo e preservar seu nome. Isso pode estimular decisões mais prudentes, com foco em perenidade e não apenas em resultados imediatos. Em momentos de aumento de custos ou de redução de receitas, a lógica de divisão de riscos também pode ser mais equilibrada, especialmente quando os sócios possuem condições financeiras distintas. A visão de longo prazo favorece a resiliência.

A prudência e a continuidade da família, no entanto, não dispensam a necessidade de investir constantemente em tecnologia, governança, compliance, políticas de remuneração transparentes e práticas de diversidade e inclusão.

Cada vez mais, os escritórios de advocacia em geral, embora sejam negócios que detenham particularidades, são chamados a dialogar com o mercado global e a incorporar práticas adotadas em outros setores: uso de ferramentas digitais, inteligência artificial, eficiência financeira e adequada estrutura de capital de giro, com reservas para enfrentar eventuais turbulências econômicas.

Essas iniciativas, sendo a empresa familiar ou não, precisam ser acompanhadas da consciência de que é possível se antecipar e planejar a sucessão, já que é melhor para a manutenção do crescimento que a transição não seja um evento abrupto, mas um processo contínuo. No caso da sucessão familiar, isso inclui preparar herdeiros com formação, experiências externas, avaliação por pares e exposição gradual à liderança.

Escritórios familiares não são resquícios de um passado romântico da advocacia, podem ser estruturas sofisticadas, altamente técnicas e lucrativas. Quando combinam valores sólidos, gestão profissional e abertura à mudança, tornam-se especialmente aptos a atravessar gerações. É a visão de longo prazo, mantendo os princípios, a identificação e a pessoalidade, que garantem a verdadeira perenidade.

Como bem me lembrou Alexandre Wald, em uma passagem divertida contada por ele sobre o início do escritório, a longevidade não ocorre sozinha ou sem muito trabalho de herdeiros comprometidos. Alexandre e seu irmão Arnoldo costumavam sair juntos do escritório já altas horas da noite, os últimos a sair, o que um dia rendeu comentários inusitados de um vizinho de andar que encontrou com eles no corredor e disse: "Meninos, vocês precisam de um advogado". Curiosos, eles perguntaram por quê. O colega vizinho afirmou sem dúvidas: "Vocês estão sendo explorados pelo seu pai". Todos deram risada e pegaram o elevador...