A disputa global pela IA e o desafio brasileiro
sexta-feira, 31 de julho de 2026
Atualizado em 30 de julho de 2026 13:10
A capacidade de criar e investir em novas tecnologias sempre foi um ponto central para definir quem tem maior poderio econômico e político no planeta. A revolução industrial, por exemplo, redefiniu a economia e produziu novas potências mundiais. A criação da internet gerou gigantes corporativos internacionais inimagináveis até então. Agora, a maior corrida em curso é a da IA, com potencial de mudar mais uma vez a ordem global e consequências ainda imprevisíveis, assim como as da própria capacidade da IA. Até o momento, EUA e China ocupam o centro da disputa, enquanto outros países buscam se posicionar para não ficarem à margem dessa transformação. Entre eles, o Brasil, que parece apostar em uma estratégia de atuação multilateral.
Entretanto, ainda são muitas as oportunidades no horizonte e se faz necessária uma reflexão, aliada à rápida elaboração de políticas públicas, que permitam com que o Brasil aproveite os bilhões de investimentos que estão sendo direcionados para a IA em todo mundo e acesse os benefícios dessa nova tecnologia.
Vale destacar que a disputa pela IA se dá em diferentes esferas ou ainda por meio de três corridas simultâneas: a corrida pelos modelos que serão mais usados (os de empresas norte-americanas como OpenAI, Anthropic, Google ou ainda a de empresas chinesas); a corrida pela infraestrutura necessária para desenvolver IA (como e onde serão produzidos os chips, data centers, energia); e a corrida pela governança da IA (que regulação, padrões internacionais e fóruns serão seguidos).
As empresas norte-americanas saíram na frente no desenvolvimento de modelos de ponta e concentram parte da infraestrutura global de computação em nuvem. Porém, Pequim acelerou investimentos em pesquisa, produção de chips, formação de talentos e na sua própria tecnologia, priorizando modelos de código aberto. Esse contexto mostra que é cedo para identificar vencedores definitivos ou qual a arquitetura tecnológica e regulatória irá prevalecer.
É justamente nesse ambiente de incerteza que outros países também podem encontrar espaço para construir estratégias próprias. O Brasil não disputa a liderança tecnológica com EUA ou China, mas tampouco precisa restringir sua inserção internacional a uma lógica de alinhamento automático.
Como observa o advogado e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, Ronaldo Lemos, em coluna recente na “Folha de S.Paulo”, a IA redefine a ideia de poder e o maior risco para a soberania das potências médias, como pode ser visto o Brasil, é que tornem apenas usuários ou reguladores de tecnologias estrangeiras. Por isso, acredita que cada país precisa mapear suas dependências e riscos, construir capacidades tecnológicas mínimas estratégicas e identificar parceiros.
Essa lógica dialoga com uma característica histórica da política externa brasileira: o multilateralismo. Em diferentes momentos, o país buscou manter canais de diálogo com distintos centros de poder, apostando na diversificação de parceiros e na defesa de instituições internacionais. Na economia da IA, essa tradição pode representar uma vantagem competitiva diante de um cenário em construção.
Neste mês, o Brasil aderiu à World IA Cooperation Organization (WAICO), sediada na China e que vem está sendo chamada de "ONU da IA". Ao mesmo tempo em que apoiou a iniciativa chinesa, mantém interlocução com os EUA e com a União Europeia, cuja regulação para IA tornou-se referência, e continua aprofundando sua atuação em fóruns como o G20 e junto aos BRICs.
Essa postura reflete ainda o reconhecimento de que a governança da IA dificilmente será definida por um único bloco ou por um único modelo tecnológico. Há expectativa de que os próprios rivais e líderes da corrida pela IA, EUA e China, sentem à mesa ainda este ano para conversar sobre a tecnologia. Notícias apontam que ambos estão preocupados sobre como regulamentar tecnologias de IA que poderiam fortalecer capacidades militares, permitir ataques cibernéticos e perturbar os mercados de trabalho.
Além disso, mais do que escolher um lado na disputa entre Washington e Pequim, o desafio brasileiro parece ser outro: transformar sua tradição diplomática em uma estratégia capaz de gerar resultados concretos para a economia e para a inovação. Para isso, é preciso uma agenda doméstica capaz de transformar o Brasil em um ambiente competitivo e atrativo.
Nesse aspecto, o país reúne atributos que poucos conseguem combinar, como um grande potencial energético e mineral, uma matriz energética predominantemente limpa, a presença de polos industriais e centros de pesquisa, e uma posição geográfica que favorece a instalação de infraestrutura digital para atender até outros mercados da América Latina.
A construção de data centers, necessários para o desenvolvimento da IA e cuja operação exige grandes volumes de energia, já está sendo vista no Brasil e há mais potencial. No entanto, a instalação desses empreendimentos passa por outras questões como pela capacidade do sistema elétrico de absorver novas cargas de grande porte ou oferecer maior autonomia energética, pelo licenciamento ambiental, pela disponibilidade de redes de transmissão e, sobretudo, pela criação de um ambiente regulatório que ofereça previsibilidade aos investidores.
Outro desafio diz respeito ao ambiente tributário, já que a competição pela atração de data centers pode envolver o oferecimento de incentivos fiscais e criação de novas regras tributárias.
O debate também não deve ser restringir ao aspecto tecnológico e ao crescimento econômico, já que a IA pode trazer transformações profundas na sociedade. O manifesto assinado por mais de 200 economistas e líderes da indústria de tecnologia - entre eles 15 vencedores do Nobel de Economia - reforça que a discussão vai muito além.
Em carta divulgada neste mês, eles alertam que a IA pode provocar uma transformação econômica comparável à revolução industrial, mas em um intervalo muito menor de tempo, e defendem mecanismos institucionais capazes de distribuir seus benefícios e mitigar riscos, para que ela gere prosperidade não apenas para poucos.
Talvez essa seja a principal lição do momento atual. Ainda é cedo para saber qual será a arquitetura dominante da IA e que modelos e regras vão prevalecer nas próximas décadas. O que já parece evidente, porém, é que a tecnologia deixará marcas profundas na economia, na política, nas relações internacionais e na sociedade.
A postura brasileira de manter diálogo com diferentes atores na corrida da IA pode ser uma forma de preservar flexibilidade em um cenário ainda marcado por rápidas mudanças e incertezas. Mas essa estratégia será tão mais relevante quanto maior for a capacidade do país de fortalecer seu próprio ecossistema de inovação, ampliar sua infraestrutura digital e criar condições para que empresas, universidades e centros de pesquisa participem dessa transformação. É hora de aproveitar oportunidades que ainda estão surgindo e ocupar, de maneira cada vez mais ativa, um espaço próprio na nova ordem que começa a se desenhar.