Domingo, 18 de agosto de 2019

ISSN 1983-392X

A esperança subsiste

Verônica Rezek

O país tem tudo para se levantar das cinzas da corrupção que nos assolou nesses anos. A página mais sombria de nossa história foi virada, e dá para esperar, quem sabe, que um novo mundo surja diante de nossos olhos.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

tA eleição do atual presidente da República foi um reflexo do clamor da maior parte do eleitorado brasileiro por mudanças. Em sua essência, a escolha do novo Chefe de Estado não representa, apenas, uma corrente antipetista. Não foi o Partido dos Trabalhadores o único objeto do repúdio da população. O que ocorre é que o brasileiro médio cansou-se de ver o culto frenético de temas alternativos como sendo prioritários, em detrimento daquilo que é na verdade importante, como a saúde, a educação, a segurança pública.

O principal problema do Brasil nas últimas décadas foi a corrupção. Não foi a misoginia, não foi a homofobia, não foi nenhuma forma de preconceito – apesar de quão reprovável é tudo isso. As pessoas perderam, há alguns anos, a noção do cerne do problema. O que sucedeu no Brasil foi o maior fenômeno de corrupção da história da humanidade, somado à falta de vocação de quase todos os corruptos e corruptores para o arrependimento e o consequente pedido de desculpas ao povo brasileiro, mais que à Justiça.

Vivemos um tempo de incontinência verbal generalizada, e muita gente pública, incluído o presidente Bolsonaro, tem dito impropriedades colossais. Ele mais que ninguém neste momento. Mas nesse festival de tolices nada se compara ao crime organizado que foi a marca do regime anterior. Nada que se assemelhe ao caos político instaurado nos últimos anos, que assoberbou a agenda do Supremo ___ com inúmeras solicitações vindas das duas casas do Congresso Nacional, de diversas instituições governamentais, e também do Ministério Público ___ de tal maneira que o tribunal perdeu muito de sua capacidade e energia para julgar outras questões, constitucionais mas não políticas, que estão em sua mesa há anos à espera de desfecho. O Supremo tem sido, além disso, chamado a resolver problemas que os demais poderes não resolvem por conta própria, como deveriam. E quando ele o faz, nunca ex-officio, acusam-no de usurpação.

Numa tentativa nefanda de desabonar a operação Lava Jato, opositores do governo chegaram ao ponto de promover uma sórdida invasão de correspondência privada. Pior: a mídia tem divulgado mensagens hackeadas como fontes seguras para desestabilizar o governo e torpedear a ação do Ministério Público e da Justiça. Esquecem que a Lava Jato é a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro da história do planeta. Num esforço bem estruturado e louvável da Polícia Federal e do Ministério Público, a operação revelou um esquema criminoso de desvio de verbas e corrupção de proporções jamais vistas. Mas a justiça e a verdade prevalecerão. Há dois dias a Procuradora-Geral da República prorrogou o mandato da força-tarefa da operação Lava Jato no Paraná por mais um ano, decisão sujeita à aprovação do Conselho Superior do Ministério Público.

Apesar de muitas e colossais trapalhadas, naquilo que realmente importa, a segurança pública, a saúde, a economia, o governo e o Congresso encaminham bem as coisas. As novas normas de segurança e saúde do trabalho, sancionadas no dia 30 de julho pelo presidente, vão significar uma economia de bilhões de reais nos próximos anos, além de gerar empregos. A incontornável reforma da Previdência deve ser aprovada nas próximas semanas. Os acordos comerciais com a União Europeia alavancam nosso crescimento no âmbito internacional. O Brasil caminha, a passos firmes, em direção a um cenário diferente do que víamos nos últimos tempos. O país tem tudo para se levantar das cinzas da corrupção que nos assolou nesses anos. A página mais sombria de nossa história foi virada, e dá para esperar, quem sabe, que um novo mundo surja diante de nossos olhos.

_____________

t*Verônica Rezek é advogada militante, sócia do escritório Francisco Rezek Sociedade de Advogados e especialista em direito internacional pela Academia de Haia.

t