Migalhas

Terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

ISSN 1983-392X

A vaca da mulher do síndico

José Geraldo da Fonseca

quinta-feira, 1 de março de 2012

José Geraldo da Fonseca

A vaca da mulher do síndico

O art.2º da convenção do condomínio era de simplicidade franciscana: "É expressamente proibida a presença de animais vivos nos apartamentos". Não sei de quem foi a ideia de incluir a expressão "vivos", logo após "animais". Desconfia-se que foi do dono da cantina pra evitar que algum engraçadinho questionasse aquele monte de gatos defuntados que ele mantinha no freezer e vendia aos pinguços do prédio como "espetinhos de coelho". No começo, a cláusula trouxe um complicador, pois alguns condôminos questionaram a "natureza humana" de uns três adolescentes do bloco III, que tocavam a maior bacanal no prédio, fumavam maconha no corredor, mijavam nas lixeiras e ouviam Nina Haagen num volume tão alto que o prédio chegava a tremer. A ideia desses condôminos era invocar a cláusula para expulsar esses filhos da mãe, digo, esses "jovens" do prédio, sob o argumento de que eram uns animais, e ainda por cima vivos, o que esbarrava na proibição da cláusula.

O plano não vingou por causa dos direitos humanos, do PT, da Santa Madre Igreja Católica, essas coisas. Os merdas estão lá até hoje. Um deles virou viado. Dizem que a gostosona do 402 perguntara se "planta pode", prova de que não sabia distinguir entre uma picanha-mal-passada e um comigo-ninguém-pode. Um sujeito do bloco I, destaque da Unidos da Tijuca, desenhou pra ela uma samambaia-renda-portuguesa e um tiranossaurus rex, mostrando as diferenças. A moça achou tudo "muito parecido", mas entendeu as filigranas e deu o caso por encerrado. Por mais que essa cláusula pareça esquisita, na convenção do meu prédio está escrito que é expressamente proibido jogar pela lixeira "cachos de banana verde", o que me autoriza a jogar pela indigitada lixeira cachos de banana madura, ou jacas, melancias, abóboras caipiras, sofás, pneus de bicicleta, geladeiras e restos de isopor daqueles que a gente tira quando descasca televisão de plasma comprada no Ponto Frio ou na Casa & Vídeo.

A harmonia daquele puteiro ia de vento em popa, parecendo cessar-fogo entre o Hamas e o Hesbolah, até que a mulher do síndico resolveu levar para o prédio uma vaca holandesa que o irmão ganhara numa rifa. Era uma ruminante bem-apessoada, convenhamos. Gorda, toda branca, com lindas manchas pretas que iam da cabeça à beira do cu. Os botafoguenses amaram a bicha de prima, deram-lhe o nome de batismo "Loca Abreu" e a adotaram como mascote da corporação.

A chegada da vaca causou um tal furdunço no prédio que parecia final de copa. A criançada correu pro play achando que era Papai Noel e os pinguços desceram voados pela escada supondo que ia rolar um "churrasco comunitário". A mulher do síndico não deu qualquer explicação a ninguém. Deixou a "Loca Abreu" pastando serenamente a grama e as babosas dos jardins e ficou ali fazendo Sodoku num banquinho, uma espécie de palavra cruzada, embora tenha esse nome assim, digamos, meio pornô.

Era um domingo, se bem me lembro.

Quando deu meio-dia, a mulher do síndico subiu pra temperar o macarrão do marido. A mamífera ficou ali pastando e cagando em tudo. De vez em quando, saudosa da primeira-dama do prédio, fazia múúúúúúúúúúúú!, e soltava mais um monte de bosta. No fim da tarde, depois de encher o rabo de grama, quebra-pedra, tiririca, sacos plásticos, babosa, bituca de cigarro, modess, bouganvilles e telefones celulares que o pessoal jogava pela janela, foi banhar-se na piscina. Ficou por ali mugindo e cagando um bom par de horas, até que aquilo lhe encheu o saco e se esparramou sobre o tatame de tae-kwon-do.

O quadrúpede foi o assunto do dia, mas logo aquele inesquecível domingo trouxe a noite e, com ele, as preocupações do amanhã. O povo esqueceu-se da coitada. No outro dia, alguém lembrou-se da tal cláusula condominial e sugeriu a convocação de uma assembleia geral extraordinária pra decidir tão problemoso assunto. A tal assembleia foi convocada e se instalou numa quarta-feira à noite, se não me engano, e em grande estilo, como manda o judicioso ritual dessas reuniões. Providenciaram duas garrafas térmicas de café, uma com açúcar e outra sem, e alguns pacotinhos de clube social. O síndico abriu a sessão com voz forte e cerimoniosa, lembrou a todos da importância de apreciar questão tão relevante para a vida comunheira e exortou os presentes a, de mãos dadas, fazerem uma oração para que o Supremo Arquiteto do Universo iluminasse aquelas cabeças na tormentosa decisão. Não me recordo se alguém se lembrou de segurar a pata da vaca na hora da exortação ecumênica, mas embora o síndico tenha convidado a todos a se darem as mãos, e todos incluía o mamífero, um condômino advogado disse que isso, isoladamente, não era causa de anulação de assembleia porque, "segundo a Constituição, o Estado brasileiro é laico", e a vaca deixada fora da reza não interferiria no mérito da reunião. Pois bem. Feita a oração, como mandam as Sagradas Escrituras, o síndico pediu a todos "um minuto de silêncio" pelo passamento da dona Henriqueta, mulher do coronel Adamastor. A vaca não respeitou aquele momento de dor e foi discretamente advertida com um psssiiiiii! pela gostosona do 402. Constrangida, a mamífera cagou mais uns dois quilos de bosta e, com o rabo, esparramou a bostice na parede do salão de festas. Ato contínuo, o síndico convidou a gostosa pra secretariar os trabalhos e deu inicio à efeméride. Alguém levantou uma questão de ordem. Queria saber se a vaca, presente aos acontecidos, teria direito a voto. O síndico disse que a convenção falava em "condôminos residentes, em dia com as prestações condominiais", e não constava que a vaca, embora recém-residente, tivesse pago a sua quota. Não tendo havido objeção, comunicou-se formalmente ao bovino que seu voto não seria consignado, ao que a ruminante aquiesceu com um alongado múúúúúúúú, seguido de nova cagada que se espatifou no chão.

A questão era de simplicidade franciscana , ponderou o síndico: saber se a vaca podia ou não podia continuar no prédio.

Iniciados os debates, todos querendo falar ao mesmo tempo com aquela costumeira "educação condominial", a dona do bovino pediu uma questão de ordem. Concedida, disse:

― Se vocês decidirem que a vaca deve sair, eu saio junto!

E sentou-se, convicta de que tinha causado na patuleia impacto tão grande quanto a sua bunda se esparramando na cadeira. Novo alvoroço, novas marteladas do síndico na mesa, pedindo silêncio.

― Senhores! Senhores! ― a gostosona chamava a todos aos limites da urbanidade ― Não se trata de decidir se a mulher do síndico deve ficar ou sair, dependendo da ficação ou da saição da vaca, mas se a vaca fica ou sai. Este é o busilis da questão!

Um advogado pinguço levantou a mão, obteve a palavra e rematou:

― Data venia, colegas, "busilis" é expressão latina que significa, data venia, "ponto fulcral", data venia, "âmago cognoscível", data venia, "núcleo determinante do argumento essencial e incontornável, data venia".

― Numa palavra ― remendou de lá um daqueles maconheiros do bloco III ―: "o bagulho que interessa!"

E com essa explicação providencial todos finalmente alcançaram a beleza do busilis da gostosona, que, por sinal, era muito cobiçado pela massa comunheira masculina. Chamando o feito à ordem, o síndico convidou os presentes a decidirem se a proibição de permanência de animais vivos nos apartamentos incluía a impossibilidade de se manter a vaca nas áreas comuns. Passou-se à votação. Um a um os condôminos foram depositando os votos numa urna feita de papelão das Casas Sendas, lacrada na presença de todos. Votavam, assinavam a lista e voltavam a sentar-se, aguardando o final do escrutínio. Parecia votação de sindicato. Terminado o depósito dos votos e respondida com aceno de cabeça à pergunta da gostosona se "todo mundo já votou?", o síndico abriu a urna, contou os votos, confrontou com o número de assinaturas dos presentes e informou que, com exceção da vaca, todos haviam votado. Ele não votara porque, como síndico, e segundo o art. 8º da convenção, tinha "voto de Minerva", isto é, só votava em caso de empate. O advogado cachaceiro pediu a palavra pra explicar quem foi "Minerva", mas alguém gritou de lá "cala a boca, pinguço!", e o sujeito fechou a matraca. Em seguida, o síndico pediu à gostosona do 402 que recontasse os votos, o que a beldade fez com fina simpatia e muito veludo na voz. Achou exatos. Tudo foi rigorosamente lançado em Ata pra que depois neguinho não viesse de trololó.

Deu empate!

Era o que se temia!

Sessenta e três condôminos acharam "normal" a vaca ficar cagando pelo prédio e 63 acharam que a vaca devia se escafeder dali ou virasse churrasco comunitário. Como a questão inicialmente colocada pela mulher do síndico foi a de que ela sairia do prédio se a vaca saísse, o síndico propôs outra questão de ordem:

― Que tal se decidíssemos entre a permanência da vaca ou a da minha patroa?

Toparam!

Feito novo escrutínio, o quadrúpede ganhou por 126 votos a zero. Até a mulher do síndico votou a favor da vaca pois não entendera a profundidade da propositura.

Alívio geral.

No dia seguinte, a mulher do síndico saiu bem cedinho levando uma malinha de cacarecos, dois carnês do Baú da Felicidade e uma muda de roupa.

Nunca mais foi vista. O condomínio deu a questão por encerrada.

O síndico, todo dia, às seis da tarde, recolhia a quadrúpede com carinho pelo elevador social e a acomodava ternamente no quarto do casal, depois de lhe dar uma apetitosa bacia de alfafa argentina, granola com açaí e paçoca de aipim.

De madrugada, ninguém mais conseguiu dormir com tantos múúúú, múúú, múúú da pobre vaquinha e alguns gemidos muito suspeitosos do síndico. O pessoal concluiu que o animal simplesmente estava estressado pelo estranhamento da nova posição de primeira-dama, digo, do novo ambiente, ou o síndico voltara a sofrer de prisão de ventre.

Tempos depois dessa inesquecível assembleia geral, "Loca Abreu" deu a luz a um lindo bezerrinho, todo pimpãozinho, alegrinho, cheinho de pintinhas pretinhas que iam da cabecinha até o cuzinho.

Uma gracinha de garrotinho!

As más línguas começaram a insinuar que, visto assim, meio de soslaio, o bezerrinho era a cara do síndico. Mas isso era pura maldade de quem não tinha o que fazer. Esses fofoqueiros deviam pagar o condomínio em dia e se preocupar mais com suas próprias vidas e não com a vida dos outros. Nesse ponto, dou razão à gostosona do 402:

― Ué. Não tem gente que gosta de hamster, anaconda, calopsita? Ceis não viram no Jornal Nacional? O Supremo autorizou a casar homem com homem, cachorro com gato, poste com fio de alta tensão. Quê que tem o cara gostar de vaca? Gente escrota!

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* José Geraldo da Fonseca é desembargador, presidente da 2ª turma do TRT-RJ

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