terça-feira, 4 de agosto de 2020

ISSN 1983-392X

PT: O sepulcro caiado

Ronnie Preuss Duarte

E a moçoila era pura e casta, de aspecto virginal. Pudica, católica de missa diária, mostrava os joelhos calejados, resultado da reiterada genuflexão devocional. Aos 25 anos, era referência moral naquela comunidade. Sempre vigilante, deixava as demais jovens da vila em estado de alerta, suspense provocado pelo insuportável receio, verdadeiro pânico de ver contra si dirigidas as encolerizadas invectivas da puritana. Uma garota, após ser flagrada parcialmente desnuda em um beco na companhia do namorado, fora expulsa da cidade após uma campanha deflagrada pela recatada donzela.

segunda-feira, 22 de agosto de 2005


PT: O Sepulcro Caiado


Ronnie Preuss Duarte*


E a moçoila era pura e casta, de aspecto virginal. Pudica católica de missa diária, mostrava os joelhos calejados,resultado da reiterada genuflexão devocional. Aos 25 anos, era referência moral naquela comunidade. Sempre vigilante, deixava as demais jovens da vila em estado de alerta, suspense provocado pelo insuportável receio, verdadeiro pânico de ver contra si dirigidas as encolerizadas invectivas da puritana. Uma garota, após ser flagrada parcialmente desnuda em um beco na companhia do namorado, fora expulsa da cidade após uma campanha deflagrada pela recatada donzela.


Eis que um dia, a localidade desperta assombrada: aquela moça de hábitos tão regrados fora pega em plena ménage à trois, uma orgia com homens casados e mediante paga. Soube-se então que a figura era versada nas práticas menos ortodoxas da mais escancarada libidinagem, adestrada em todas as versões do Kama Sutra. A virgem era, na verdade, uma experimentada meretriz.


De uma constrangida perplexidade, os habitantes daquele pacato lugarejo tiveram vergonha de confessar a respectiva naturalidade. Por outro lado, era perceptível a todos os munícipes o sorriso de canto de boca de algumas adolescentes da cidade, fruto do regozijo advindo da desforra conquistada.

Outrora alvo da admoestação da jovem moralista – sempre atenta a qualquer deslize do tipo beijinho no banco da praça ou abraço mais apertado no namorado –, lavava-se a alma daquelas moças. As marcas que a pudica orgulhosamente trazia nos joelhos, descobriu-se, eram fruto de uma melhor acomodação para as práticas da mais lídima sacanagem.


A mocinha de um quartel de século é o nosso Partido dos Trabalhadores, ainda rubro, só que agora de vergonha. O passado austero fica hoje indelevelmente manchado pelos recentes episódios, postos às escancaras pelo détraqué do Roberto Jefferson. As defecções dos “bons companheiros” de partido já são uma realidade. Fica a impressão de que o epíteto tão ao gosto do presidente Lula fora verdadeiramente inspirado no filme homônimo de Scorsese, cujo enredo se assentava na narrativa das estripulias de uma confraria mafiosa.


Os partidos situados mais à direita – assim como as moças censuradas pela virgem-meretriz por algum pecadilho moral – revelam uma felicidade incontida, deleitando-se com o sabor açucarado da desforra. Dentre todos, destaca-se a figura homóloga à donzela expulsa, de sobrenome Collor de Melo, hoje tomado por inefável contentamento. Passados quase treze anos desde a cassação, comprova-se que o companheiro Delúbio era de uma desenvoltura delitiva que dá ao PC Farias o estatuto de mero aprendiz.


Da análise do lastimável e aterrador episódio que enodoa a história política do país, confirma-se a recomendação bíblica: os padrões utilizados para julgamento alheio, também haverá de ser aplicado aos próprios juízes. Hoje o Partido dos Trabalhadores é julgado segundo os padrões por ele professados. Extraindo a analogia do Evangelho, pode-se dizer que o PT era um sepulcro caiado: por fora parecia formoso, mas por dentro “estava cheio de toda espécie de podridão” (Mt 23, 27).


Hoje a bandeira escarlate drapeja a meio pau. A enlutada família petista chora a morte de um ideal que talvez nunca tenha existido. A outrora reluzente estrela, hoje cadente, finda sombreada pelo escândalo. No funeral de Estado, as salvas de tiros têm o som abafado pelo clamor do Povo revoltado que, em uníssono, grita: “pega ladrão!”

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*Advogado






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