quarta-feira, 3 de junho de 2020

ISSN 1983-392X

O papel do presidente

Eduardo Muylaert

A liderança, mais até do que pelo cargo, se exerce pelo exemplo e pela palavra.

quinta-feira, 19 de março de 2020

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Grandes crises muitas vezes produzem importantes líderes. Foi o caso de Roosevelt, que enfrentou a grande depressão americana, e de Churchill, ao conduzir a Inglaterra à vitória na segunda guerra mundial. Mais expressivo ainda é o caso do general De Gaulle que, após a resistência e a vitória contra os nazistas, governou a França por muitos anos e lhe deu a feição que tem hoje.

A liderança, mais do que pelo cargo, se exerce pelo exemplo e pela palavra. De Gaulle era um mestre do verbo, com o qual exercia mais autoridade do que com seu exército. Desmoralizou rapidamente o Putsch de Argel, em 1961, ao reduzí-lo a um punhado (un quarteron) de generais aposentados. Da mesma forma, desenterrou a palavra chienlit (bagunça, carnaval) para por uma pá de cal sobre a revolta maio de 1968. Já quando Nicolas Sarkozy voltou a usar o termo em 2015, acabou sendo motivo de chacota.

Agora foi a vez de Emmanuel Macron, presidente da França, usar de uma alocução na televisão (odeio a palavra pronunciamento, que na América Latina pode ser sinônimo de golpe) para bater de frente com a crise do Coronavirus. Elegante, de terno escuro e gravata, olhar sério e solidário, durante 21 minutos deu nesta segunda (16 de março) um recado duro e ao mesmo tempo humanitário aos franceses. Foi um enorme recorde de audiência, atingindo mais de 35 milhões de espectadores, 86% do público.

Estamos em guerra contra um inimigo invisível, insidioso, uma guerra sanitária, disse ele. Nunca o País teve de tomar medidas tão extremas em tempo de paz. Temos que acreditar na ciência para sobreviver. Antes de adiar o segundo turno das eleições municipais, Macron consultou seus antecessores Nicolas Sarkozy e François Hollande, além dos presidentes da Câmara e do Senado. Seu primeiro ministro Edouard Philippe levou previamente as medidas aos líderes de todos os partidos.

A primeira mensagem foi de solidariedade, aos doentes, aos trabalhadores da saúde, aos bombeiros, às pequenas empresas e às pessoas em dificuldade. Anunciou até o adiamento de contas de luz, gás, impostos, e mesmo aluguéis. Ao mesmo tempo, suspendeu todas as reformas em curso, inclusive a polêmica reforma da previdência, procurando evitar divisões na sociedade.

Macron puxou fortemente a orelha dos desobedientes: "não só vocês não se protegem - e a evolução recente mostrou que ninguém é invulnerável, nem os mais jovens - mas vocês não protegem os outros". Mesmo sem sintomas, continua, vocês podem transmitir o vírus, contaminar seus amigos, pais, avós... É preciso respeitar as barreiras sanitárias, único meio de proteger as pessoas vulneráveis e reduzir a pressão sobre os serviços de saúde, para que possam acolher e cuidar melhor dos doentes.

Entre as medidas enérgicas anunciadas, o confinamento por ao menos 15 dias, e o fechamento das fronteiras. Macron, sabiamente, evitou o uso da palavra "confinamento", embora fosse essa a mais importante das medidas. Já na Idade Média, a quarentena era o principal método para combater as pestes, mas ninguém imaginava que 500 anos depois tivéssemos que recorrer ela para tentar nos salvar.

É claro que houve críticas da oposição, de que as medidas demoraram, que o governo foi lento, etc. Mas o que assistimos foi o exercício da autoridade de um presidente, usando da palavra para propor uma grande união nacional no enfrentamento destemido da crise que nos assombra a todos. O exemplo não poderia ser melhor.

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t*Eduardo Muylaert é advogado no escritório Muylaert, Livingston e Kok Advogados.

 

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