quinta-feira, 6 de maio de 2021

MIGALHAS DE PESO

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Os desafios e as conquistas da mulher jovem advogada

Ainda é preciso conciliar as adversidades intrínsecas ao início de carreira com o sentimento de insegurança proveniente de empregadores, clientes e do próprio mercado, muito em razão da idade e da fragilidade atrelada - de forma muito equivocada - à figura feminina.

sábado, 20 de junho de 2020

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Com o fenômeno da globalização e o avanço tecnológico desenfreado, a advocacia tem passado por inúmeras transformações, exigindo cada vez mais do profissional a multidisciplinariedade. O mercado não se satisfaz apenas com o conhecimento técnico e intelectual, é necessário entregar outros valores, que perpassam desde o atendimento ao cliente até estratégias de atuação para se aproveitar das oportunidades de mercado que vão muito além das alternativas da advocacia tida como tradicional. O jovem advogado - de uma maneira geral - não pode se furtar do aperfeiçoamento contínuo como forma de superar as adversidades do início de carreira, um processo complexo e que exige dedicação intensiva e muito comprometimento.

A advocacia que é, historicamente, uma profissão machista, revela-se uma atividade extremamente desafiadora, com muitos obstáculos e peculiaridades, sobretudo para a jovem advogada. A estratificação social reserva aos profissionais do sexo masculino um status privilegiado e os espaços de poder e decisão. Mulheres com posturas mais firmes e que ocupam papeis de destaque ainda são vistas sob os olhares de estranheza e desconfiança, muito em razão da visão deturpada, imposta pela sociedade, de que a mulher é figura frágil e, muitas vezes, incapaz de assumir posições de liderança.

Os avanços sociais tem sido constantes desde o século XX, com a revolução feminina, mas é preciso sempre ter em mente à luta pela equidade para que possamos continuar progredindo e ocupando o espaço que é nosso por direito. A ascensão feminina nas carreiras jurídicas é uma realidade. Estamos quebrando barreiras, superando o preconceito, os impasses e desafios e comprovando a capacidade e o vigor da mulher com altivez e coragem.

Na posição de jovens advogadas, ainda é preciso conciliar as adversidades intrínsecas ao início de carreira com o sentimento de insegurança proveniente de empregadores, clientes e do próprio mercado profissional, muito em razão da idade e da fragilidade atrelada - de forma muito equivocada - à figura feminina. É necessário que comprovemos através da demonstração de conhecimento, atitude, comprometimento, segurança e seriedade que a capacidade profissional não tem gênero ou critério etário.

Outro fator que merece ser evidenciado é o da sub-remuneração, um dos principais e mais desoladores desafios da jovem e mulher advogada. Muito embora desenvolvamos o mesmo trabalho, com qualidade técnica igual ou superior, as nossas remunerações ainda são inferiores ao de um profissional do gênero masculino.

Os cargos de liderança são ocupados, em sua maioria, por homens. A sobrecarga das multitarefas e o preconceito arraigado em nossa sociedade acabam por desencorajar às mulheres e jovens a buscarem posições de poder. Neste sentido, a Ordem dos Advogados do Brasil tem atuado de forma preponderante para incentivar a participação feminina na política de classe e conscientizar à advocacia sobre a importância de a mulher ocupar espaços e alcançar uma maior representatividade. 

Nesse contexto, após análise sobre a atual realidade que a Jovem Advogada enfrenta ao buscar sua inserção e atuação na advocacia, se faz necessário destacar os seus avanços e conquistas, pois, como já dito, a jovem mulher advogada carrega o estereótipo em relação a sua capacidade, como se não pudesse galgar espaços e posições de lideranças, cabendo a nós desconstruirmos tal ideia.

Dentro do campo institucional, algumas advogadas jovens vêm ocupando lugar de destaque e atuando em pautas relevantes não só para advocacia, como para a sociedade em geral. Na OAB Seccional do Amazonas, a Presidente da Comissão dos Direitos de Refugiados e Imigrantes, Raquely Portela, de 23 anos, Jovem Advogada, imbuída por grande senso de responsabilidade e consciente da função social inerente à advocacia, atribuída por nossa Carta Magna, dedicou-se em acolher e integrar, por meio de ações para garantir os direitos básicos, os refugiados e imigrantes que chegaram em Manaus sob condições precárias e desumanas. Pela atuação de destaque foi agraciada como a primeira brasileira a ganhar o prêmio de Delegada Destaque na Youth Assembly, maior assembleia de jovens da ONU.

É importante mencionar, ainda, a atuação de jovens advogadas na busca por uma advocacia inclusiva, plural e com auto representação, resultou na mitigação de um dos maiores obstáculos à participação efetiva da jovem advocacia nas decisões da Ordem dos Advogados do Brasil: a cláusula de barreira. Após debates antológicos e ações efetivas, no dia 20 de setembro de 2019 foi sancionada a Lei nº 13.875, que altera os prazos de exercício da profissão para participação nas eleições dos membros dos órgãos da OAB. Com a alteração legislativa, a advocacia jovem com pelo menos três anos de exercício profissional poderá concorrer ao cargo de Conselheiro Seccional e Subseccional, quando houver. Uma grande conquista e um grande avanço para a advocacia brasileira, sobretudo a jovem advocacia, que escreveu, ainda no ano passado, um capítulo importante na história da Ordem dos Advogados do Brasil, com a nomeação no assento dos respectivos Conselhos, das advogadas Gabriella Lorrine Siqueira, da Seccional do Distrito Federal, e Larissa Teixeira Rodrigues Fernandes, da Seccional de Rondônia, primeira presidente egressa do Colégio Nacional de Presidentes Jovens a ocupar a função institucional.

A mulher jovem advogada vem ganhando notoriedade em todo o país - não só nos ambientes reservados à OAB. Para seguirmos ocupando os espaços de liderança, fazendo com que as nossas vozes ecoem cada vez mais forte, é preciso encarar os desafios e vencê-los, demonstrar toda a competência, paixão, determinação e talento da juventude, sobretudo fazendo com que as características femininas sejam vistas como qualidades que agregam novos valores, e continuar a lutar e atuar como agentes de conscientização do protagonismo e empoderamento feminino.

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*Ana Laura Rêgo é advogada, assessora consultiva da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Norte e presidente da OAB Jovem RN.

*Larissa T. Rodrigues Fernandes é advogada. Conselheira Seccional da OAB Rondônia. Conselheira Estadual da Comissão dos Direitos das Mulheres do estado de Rondônia. Membro da Comissão Nacional da Jovem Advocacia do Conselho Federal da OAB. Vice-presidente da Comissão da Mulher Advogada da Seccional Rondônia.

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Atualizado em: 20/6/2020 11:00

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