MIGALHAS DE PESO

  1. Home >
  2. De Peso >
  3. Ditacléptica: A bomba atômica que destruiu o Brasil

Ditacléptica: A bomba atômica que destruiu o Brasil

Com base legais, o texto propõe reflexão crítica e convoca o senso comum para reagir a esse processo de autodestruição da sociedade brasileira.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Atualizado às 11:12

Introdução

"(...) Enquanto os homens exercem seus podres poderes

Morrer e matar de fome, de raiva e de sede. São tantas vezes

Gestos naturais(...)"

Podres Poderes (Caetano Veloso)

Estes estudos refletem, com fidelidade e respeito, o pleno exercício da liberdade de expressão, alicerçados tanto na legislação interna quanto nos tratados internacionais. Fundamentam-se no art. 5º, inciso IV, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em harmonia com o art. 13 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos - o Pacto de San José da Costa Rica - ratificado pelo Brasil por meio do decreto 678, de 1992. Soma-se a isso a perfeita consonância com a 1ª emenda à Constituição dos Estados Unidos da América, promulgada em 15/12/1791, como parte da célebre Carta de Direitos.

Tudo se dá sob o manto inviolável da imunidade de cátedra, assegurando ao pensamento crítico, à ciência e à docência a liberdade necessária para iluminar consciências e transformar sociedades.

Destarte, o presente artigo analisa os impactos devastadores da polarização afetiva no Brasil, fruto de um romantismo arrebatador, digno de final de filme lírico, um amor dilacerante, explosivo, tudo isso impulsionado por dois polos ideológicos radicais: um extremismo patológico em fase terminal, respirando por aparelhos; nesse sentido, de um lado um sentimento hemorrágico marcado por desvios de conduta; de outro, uma tirania aloprada mesclada com boçalidade à moda 1968, um misto de deboche e autoritarismo. Todos lutando por uma só finalidade. Assunção do poder de mando e aquisição de um chapabranquismo sem fronteiras e abjeto. Isso é denominado de movimento da Cleptadura ou Ditacléptica.

A análise aponta como essa dicotomia emocional e política tem minado as bases da democracia, corroído as instituições, deteriorado os serviços públicos essenciais e promovido a injustiça social. Com base em fundamentos constitucionais e legais, o texto propõe uma reflexão crítica e convoca o senso comum para reagir a esse processo de autodestruição da sociedade brasileira.

De início, é possível afirmar que vivemos tempos de profunda instabilidade no Brasil. A polarização afetiva, de romantismo exuberante e paixão patológica se instalou como uma epidemia silenciosa e corrosiva, divisória, perniciosa, provocada pelo vírus da vaidade, da disputa pelo poder e pela destilação da fábrica do ódio, conduzindo grande parte da sociedade a uma cegueira ideológica brutal.

Em nome de paixões políticas irracionais, multidões marcham rumo ao abismo institucional, alimentando um ciclo vicioso de ódio, vingança e destruição. É preciso romper esse transe coletivo e buscar um ponto de equilíbrio para resgatar o país desse colapso iminente.

O Brasil encontra-se à beira de um colapso moral e estrutural. O sistema de saúde está sucateado, a educação pública agoniza, a segurança é uma ilusão distante, nas mãos de gente cabotina e narcisistas potencializados, e a Justiça se tornou ferramenta de interesses obscuros. Em nome do poder, dois extremos se enfrentam como facções, uma agressiva e outra mafiosa, disputando território e influência, enquanto o povo brasileiro sangra na linha de frente. Este artigo pretende lançar luz sobre essa tragédia nacional.

A cegueira da polarização afetiva

A polarização afetiva é um fenômeno psicológico e político no qual os indivíduos deixam de apenas discordar das ideias alheias e passam a odiar visceralmente aqueles que pensam diferente. No Brasil, esse fenômeno ganhou contornos alarmantes. A dicotomia entre extremistas radicais transformou-se em um campo de batalha emocional, onde a razão foi substituída pelo fanatismo.

Famílias se desmancham, amizades se rompem, a empatia desaparece. Cada lado idolatra seus líderes como se fossem entidades sagradas e demoniza o outro como se fosse o próprio mal encarnado. A racionalidade foi banida do debate público e substituída por paixões irracionais, memes ofensivos e teorias conspiratórias.

Enquanto isso, os problemas reais da população são deixados de lado. O desemprego, a miséria, a violência, a falta de saneamento básico, tudo isso é ignorado em nome da guerra simbólica entre "vermelhos" e "verde-amarelos". A polarização afetiva não apenas distorce o debate político, mas impede a construção de soluções verdadeiras para o país.

Análise crítica

O fenômeno que convencionamos chama-se Cleptadura ou Ditacléptica representa a fusão neológica tóxica de dois extremos que, embora formalmente adversários, se alimentam mutuamente para manter o país refém de seus próprios fantasmas. Trata-se de uma simbiose perversa: quanto mais o poder dominante se avança, mais o antagonista se inflama - e vice-versa.

Ambos vendem falsas promessas de salvação, mas na prática têm contribuído para o desmonte das instituições, a corrosão da ética pública, o enfraquecimento da democracia e o empobrecimento do povo.

O movimento da Cleptadura ou Ditacléptica, sob a máscara do combate à corrupção, estimulou o negacionismo, o autoritarismo e o desmonte de políticas públicas essenciais. Noutro sentido, sob o pretexto de inclusão social, promoveu esquemas sistêmicos de corrupção que alimentaram o cinismo institucional.

As instituições democráticas foram cooptadas, o Estado de Direito foi relativizado, e o sistema de Justiça, em muitos casos, tornou-se instrumento de perseguição política.

A Constituição Federal de 1988, especialmente em seus arts. 1º (fundamentos do Estado Democrático de Direito), 3º (objetivos fundamentais da República) e 5º (direitos e garantias individuais), tem sido constantemente vilipendiada por interesses eleitoreiros de ambos os lados. A legalidade, a impessoalidade, a moralidade, a publicidade e a eficiência (art. 37 da CF) foram lançadas ao esquecimento, substituídas por narrativas manipuladoras e autoritarismo velado.

A população, acuada e desinformada, tornou-se massa de manobra nesse jogo de horror. O país afunda enquanto seus "salvadores" disputam os espólios de um Estado em ruínas.

Conclusão

O exercício do poder é como um jardim em plena primavera: seu néctar seduz os beija-flores da lealdade, da honra e do compromisso público. Mas, ao mesmo tempo, atrai inevitavelmente os insetos vorazes, que se alimentam da corrupção, da inveja e da vaidade. Assim é o poder - sublime para os justos, tóxico para os mesquinhos - espelho onde se revelam as virtudes e se desmascaram as sombras da alma humana.

É inegável: esse movimento tóxico e contagiante lançou uma bomba atômica sobre o Brasil. Não se trata de exagero retórico, mas de uma metáfora precisa para descrever os efeitos devastadores da polarização afetiva que dominou o país.

Essa bomba destruiu pontes de diálogo, explodiu as bases da racionalidade, dilacerou a confiança nas instituições e transformou cidadãos em soldados de guerra ideológica.

O Brasil virou campo minado de ódio e desinformação, e a sociedade caminha entorpecida entre os escombros de sua própria ignorância política.

Chegou a hora de desarmar essa bomba com coragem, inteligência e espírito democrático. O povo precisa acordar, romper com o fanatismo e reerguer o país sobre os pilares da razão, da Justiça e da empatia.

Ou faremos isso agora, ou seremos para sempre os sobreviventes mutilados de uma guerra insana entre dois monstros que, no fundo, são faces da mesma moeda da destruição, onde a sujeira abjeta aponta o dedo para a imundície.

Impõe-se ressaltar que o movimento Cleptadura ou Ditacléptica se revela como uma enfermidade social de natureza gravíssima; sem vacina que a previna e sem tratamento que a cure, alastrou-se por todos os órgãos da administração pública, corrompendo-lhes a essência, e estendeu sua metástase à totalidade da sociedade brasileira.

Gerou cegueira política irreversível, produziu feridas profundas e incuráveis no tecido social, e deixou rastros de divisão, separando famílias, contaminando amizades e fomentando a violência em múltiplos setores da vida coletiva.

É uma patologia incrustada nas veias mais vitais do Estado: penetrou a segurança pública, minando sua legitimidade; contaminou o sistema de Justiça, comprometendo sua imparcialidade; corroeu a educação, desviando-a de sua missão libertadora; adoeceu a saúde, transformando o direito à vida em moeda de barganha; e espalhou-se como praga em todos os órgãos da sociedade, tornando-se um parasita institucional que se alimenta do suor e da esperança do povo.

Trata-se de uma doença moral e política cuja causa primária é única e inescapável: a corrupção endêmica, fruto de desvios de conduta e da compulsão doentia pela apropriação indevida do patrimônio público.

Eis, portanto, o retrato de um país alquebrado por um câncer que se disfarça de ideologia, mas que nada mais é do que a degradação da ética, a aniquilação do caráter e a dessacralização do bem comum.

Mas a história ensina que nenhuma tirania moral é eterna, nenhum vírus da corrupção resiste à força regeneradora de um povo que desperta.

É chegada a hora de a sociedade brasileira erguer-se como titã contra essa doença, restaurar a sanidade política, reerguer os pilares da Justiça e resgatar a dignidade de uma Nação que se recusa a morrer. Pois se o movimento da Cleptadura ou Ditacléptica é a enfermidade que corrói, a consciência cidadã é o remédio supremo que salva.

Por derradeiro, eis que o Brasil clama, não por heróis de farda ou toga, mas por almas justas, de mãos calejadas e corações limpos. O tempo das vaidades há de cessar, porque nenhuma ideologia, por mais adornada de sofismas, pode justificar o sofrimento de um povo. A verdadeira revolução não nasce do grito raivoso dos palanques, mas do silêncio digno dos que constroem o país todos os dias, sob o sol inclemente e a esperança teimosa.

É hora de depor as armas da ambição, de sepultar os discursos odientos e resgatar a essência do que é ser brasileiro: o amor ao próximo, o respeito à vida, a fé na Justiça e o compromisso com o bem comum. Que cada governante se lembre que o poder é serviço, e não trono; é sacrifício, e não privilégio.

Porque quando o poder se corrompe, o povo sangra. Mas quando o povo desperta, o poder treme. Que o Brasil, este gigante ferido, reencontre sua alma generosa, seu rumo de paz e sua bandeira de dignidade. Pois o verdadeiro patriotismo é fazer o bem - e deixar o povo viver em paz.

Portanto, o fanatismo ideológico é a mais cruel das prisões: sequestra a consciência e aprisiona o pensamento em grilhões invisíveis. Sob seu domínio, instala-se a cegueira social - um eclipse da razão - em que multidões marcham, cegas e fervorosas, cada qual devota a um ídolo ou a um partido, sacrificando no altar da paixão o sagrado direito ao discernimento.

Na arena das disputas políticas, quem não se curva diante de peculatários ou ditadores é tachado de covarde ou rotulado de isento, como se a lucidez fosse pecado e a moderação, crime.

Enquanto isso, o povo, refém desse teatro de sombras, sangra silenciosamente. Adoece no corpo e na alma, corroído pela torpeza dos que, sem pudor e sem pátria moral, manejam o poder com mãos despalmadas - frias, vazias de ética e repletas de ambição.

Por derradeiro, a Cleptadura, também denominada Ditacléptica, é um neologismo cunhado pelo professor Jeferson Botelho, expressão que traduz a essência trágica de um sistema social corrompido em sua alma e em sua forma. Representa um conjunto de regras culturais e comportamentais degeneradas, instituídas sob o império da dominação e da manipulação coletiva - uma verdadeira engenharia da servidão moderna.

De um lado, erguem-se saltimbancos do poder, saqueadores do erário, predadores do suor e do sonho popular; de outro, aloprados tirânicos, cegos pela ideologia, marionetes de um teatro grotesco, todos irmanados sob a égide de uma cegueira social pandêmica, dando forma à monstruosa criatura simbólica da tiraclopse - o monstro de um só olho, que tudo vê e nada enxerga.

A Cleptadura ergue-se como um regime autoritário sustentado pela corrupção e pelo desvio, nutrido por sinecuras, plebendas e privilégios ignóbeis. É o império da aparência, o governo das máscaras, a liturgia do engano institucionalizado.

Em seu âmago, habita o colapso ético e a morte simbólica da República, pois o povo, enredado por discursos hipnóticos, passa a sustentar com seu próprio suor o edifício de sua servidão. Assim, a Ditacléptica não apenas rouba os cofres - rouba consciências, usurpa o pensamento crítico e transforma a cidadania em subserviência.

É o retrato contemporâneo da degradação civilizatória, onde o poder e a concussão se confundem, onde o mando é a moeda e a mentira o altar. E quando a mentira se torna regra e o roubo virtude, a história já não caminha - ela rasteja.

Portanto, é tempo de reproclamar a República - não aquela fundada nas armas e nas baionetas, moldada pela beligerância e pela tirania das forças, mas uma nova República, erguida sobre os pilares da democracia, do respeito à Pátria e do amor à cidadania.

Uma República em que o humanismo retorne ao centro das relações humanas, iluminando a consciência coletiva e restaurando a dignidade que o poder e a vaidade tantas vezes soterraram.

É preciso sepultar o ódio, a ganância que corrompe o espírito público, e enterrar no cemitério do Bonfim o desamor, a indústria do ressentimento, a miséria moral da corrupção e a degradação social que fere o corpo da nação.

Que desses túmulos floresça, como a fênix imortal, o espírito da solidariedade, o sentimento universal que anima as almas nobres e que faz pulsar o humanismo petrarquiano, nascido da crença de que o ser humano é o centro da razão e o fim último da Justiça.

Assim, reproclamar a República é mais que um ato político - é um gesto histórico de renascimento ético, uma convocação à consciência moral e à fraternidade humana.

É o chamado para que, das cinzas do egoísmo e da indiferença, renasça o Brasil solidário, onde cada cidadão seja, ao mesmo tempo, guardião da liberdade e artesão da paz.

__________

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 5 out. 1988.

Código Penal Brasileiro (Decreto-Lei nº 2.848/1940).

Constituição Federal - Artigos 1º, 3º, 5º, 37.

LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. São Paulo: Zahar, 2018.

Lei nº 9.504/1997 - Lei das Eleições.

Lei nº 12.846/2013 - Lei Anticorrupção.

Jeferson Botelho

VIP Jeferson Botelho

Delegado Geral aposentado da PCMG; prof. de Direito Penal e Processo Penal; autor de obras jurídicas; advogado em Minas Gerais. Jurista. Mestre em Ciência das Religiões - Faculdade Unida Vitória/ES;

AUTORES MIGALHAS

Busque pelo nome ou parte do nome do autor para encontrar publicações no Portal Migalhas.

Busca