Golpe do falso advogado: Como proteger clientes e escritórios em 2026?
A confiança é o principal ativo da advocacia e, paradoxalmente, é exatamente ela que os criminosos tentam sequestrar.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Atualizado às 10:27
Entra ano e sai ano, e os golpes virtuais continuam em alta. Prova disso é a estimativa do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2025), que registrou um aumento de 408%, desde 2018, dos cybercrimes no país. Já o relatório da empresa de tecnologia NordVPN apontou que, somente em 2024, foram 700 milhões de ataques virtuais no Brasil, cerca de 1.379 ataques virtuais por minuto. A mesma pesquisa revelou que o Brasil ocupa o 1º lugar entre 235 países no vazamento de cookies, com mais de 7 bilhões de ocorrências.
Em muitos casos, a tônica é a mesma; mudam, apenas, certas abordagens criminosas. É o caso do chamado "Golpe do Falso Advogado" - que não é novo -, mas cujos registros aumentaram drasticamente em 2025, transformando-se em um fenômeno criminoso recorrente, sofisticado e profundamente lesivo não apenas ao patrimônio das vítimas, mas também à credibilidade dos advogados e seus escritórios.
O funcionamento do golpe é relativamente simples em sua lógica, mas devastador em seus efeitos. Criminosos acessam processos judiciais públicos, identificam ações em fase avançada - especialmente aquelas próximas à liberação de valores - e entram em contato com a parte vencedora, passando-se pelo advogado constituído ou por alguém do referido escritório; geralmente, tais informações estão em sites ou redes sociais.
Assim, utilizando-se de nomes e números de processos reais (que são públicos), linguagem técnica (facilmente adaptável com o uso de inteligência artificial), logotipos e fotografias retiradas de perfis institucionais, os criminosos criam a aparência de legitimidade no contato com as vítimas.
A partir de então, valendo-se de técnicas cada vez mais refinadas de engenharia social, cria-se a suposta necessidade de um pagamento prévio, geralmente via PIX, sob o pretexto de liberação de alvará, quitação de custas residuais, taxas urgentes ou qualquer outra justificativa verossímil que ensejaria algum tipo de vantagem ou eliminação de problemas ao alvo.
E é justamente o senso de urgência que faz a vítima agir por impulso, pois, do ponto de vista psicológico, o criminoso atua com "autoridade" e promessa de benefício iminente. Não obstante, a mensagem geralmente chega em um momento emocionalmente sensível, quando o cliente acredita estar prestes a receber um valor que, não raro, representa anos de espera por uma solução judicial.
Logo, essa combinação entre expectativa, desconhecimento técnico e aparência de legitimidade cria o cenário propício para a fraude. E, não raras vezes, quando a vítima percebe que se trata de um golpe, o dinheiro já foi transferido e rapidamente pulverizado em contas de terceiros (os chamados "laranjas").
Diante da escalada desse tipo de crime, a advocacia passou a reagir de forma mais organizada. A OAB, tanto em âmbito nacional quanto por meio de suas seccionais, lançou campanhas de conscientização, materiais informativos e plataformas de verificação para que cidadãos possam confirmar a identidade de advogados regularmente inscritos.
Destacadamente, iniciativas conjuntas com tribunais e órgãos de segurança pública também buscam alertar a população. O próprio Poder Judiciário, incluindo cortes superiores como o STF, passou a divulgar cartilhas e alertas institucionais sobre o tema, reconhecendo a gravidade e a capilaridade do problema, que já adentra 2026 como promessa nada positiva.
Entretanto, para a advocacia, o impacto do golpe vai além da esfera criminal. Há reflexos diretos no campo ético-disciplinar e na responsabilidade civil, pois não são raros os casos em que clientes, diante do prejuízo sofrido, buscam responsabilizar o advogado verdadeiro, ainda que este também seja vítima indireta do crime.
Por isso, em tempos de IAs reproduzindo imagens, áudios e vídeos com assustadora semelhança, os advogados e seus escritórios precisam adotar medidas preventivas claras, objetivas e documentadas para se proteger e resguardar um de seus ativos mais preciosos: a reputação perante os clientes.
Desta feita, destaca-se a importância de se instituir um canal oficial de comunicação com o cliente, como a adoção de um número de telefone e Whatsapp exclusivo para contatar os clientes, a ser salvo pelo cliente no momento da contratação.
Nesse sentido, a instalação de autenticação em dois fatores nas contas de e-mail, redes sociais e aplicativos de mensagens do advogado, do escritório e do cliente também se faz urgente nos dias atuais. No ponto, ressalta-se a relevância de aplicativos móveis geradores de códigos de uso único, como, por exemplo, o Google Authenticator.
De igual modo, é essencial o uso de senhas consideradas fortes nos acessos aos sistemas judiciais, gerenciais do escritório, e-mails, redes sociais e afins. Considera-se formar códigos com letras maiúsculas, minúsculas, símbolos e caracteres especiais.
Importante implementar o selo verificador, chamado selo azul, nas redes sociais e apps de mensagens. Trata-se de um símbolo de autenticidade que confirma a presença oficial e legítima daquele profissional no respectivo veículo digital.
Frisa-se, porém, a necessidade de formalização contratual desses cuidados, deixando expresso que o escritório não solicita pagamentos por mensagens informais, nem utiliza contas de terceiros. Isso contribui para proteger o cliente e o próprio advogado de eventuais questionamentos futuros.
Outro ponto relevante é a criação de códigos personalizados a serem usados na comunicação entre advogado e cliente. O uso de senha e contra senha também é indicado. Assim, também mediante formalização contratual, o advogado pode estipular o uso de um código alfanumérico exclusivo e personalizado para que o cliente utilize como medida de segurança em qualquer contato duvidoso. De igual modo, no tocante à chave PIX do escritório. Cuidados reiterados, pois já há relatos de chamadas de vídeo fake com o uso de IA, passando-se pelo advogado da vítima.
Oportuno, ainda, é o escritório criar uma lista de transmissão com os números dos seus clientes, enviando mensagens periódicas acerca dos cuidados com relação à restrição de acesso a informações sensíveis e, sobretudo, à manutenção de avisos permanentes alertando sobre as mais variadas modalidades de golpes, bem como as devidas orientações no tocante a procedimentos de segurança.
Além disso, os escritórios devem investir em políticas internas de prevenção e resposta a incidentes, tratando o tema com a mesma seriedade dedicada à estratégia jurídica dos casos patrocinados. Isso inclui o treinamento periódico de advogados e colaboradores para identificar tentativas de fraude e a conscientização sobre segurança digital, como o uso de redes seguras (evitando conectar-se a wi-fi público), manutenção de backups periódicos, automáticos e com processos de recuperação, fora o bom e conhecido antivírus.
Recomenda-se, ainda, a contratação de um serviço de VPN (rede privada virtual), que vai proteger, por meio de criptografia, os dados quando o profissional estiver online. Há diversas empresas no mercado, como a NordVPN e a Surfshark.
No entanto, se houver a percepção de um golpista agindo, é imperioso denunciar o contato do "falso advogado" de duas formas: mediante a configuração do app de mensagem de modo a "denunciar e bloquear" o referido contato, e, ainda, reportar uma denúncia descrevendo o ocorrido e mandando por e-mail.
Neste contexto, em um cenário em que a fraude se reinventa constantemente, a segurança passa a ser também uma forma de ética profissional e de preservação da confiança que sustenta a advocacia. Afinal, a prevenção não é apenas uma boa prática, mas uma forma legítima de autoproteção profissional.
Do ponto de vista prático, os advogados precisam compreender que a segurança da informação deixou de ser um tema periférico para se tornar parte integrante da própria prestação do serviço jurídico, pois a adoção de protocolos claros e padronizados de comunicação com os clientes é, hoje, medida indispensável.
Portanto, todo esse enfrentamento exige uma resposta integrada. Não se trata apenas de repressão penal posterior, mas de educação digital, conscientização da população, atuação institucional das entidades de classe e adoção de protocolos mínimos de segurança na relação entre advogados e clientes, especialmente nessa era da advocacia cada vez mais digital.
A confiança é o principal ativo da advocacia e, paradoxalmente, é exatamente ela que os criminosos tentam sequestrar. Proteger essa confiança é uma responsabilidade compartilhada entre profissionais do Direito, instituições e sociedade. E como alerto desde 2019: na dúvida, desconfie sempre!
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Referências
BRASIL. CNN Brasil. País tem 700 milhões de ataques virtuais em um ano, diz relatório. CNN Brasil - Economia/Negócios, 28 ago. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/negocios/pais-tem-700-milhoes-de-ataques-virtuais-em-um-ano-diz-relatorio/. Acesso em: 05 jan. 2026.
BRASIL. DCiber. Vazamento global: Brasil lidera com mais de 7 bilhões de cookies roubados. Disponível em: https://dciber.org/vazamento-global-brasil-lidera-com-mais-de-7-bilhoes-de-cookies-roubados/. Acesso em: 05 jan. 2026.
FORBES ADVISOR. Best VPN services in Brazil - top VPNs compared. Forbes Advisor, [s.l.], [s.d.]. Disponível em: https://www.forbes.com/advisor/l/best-vpn-services-br/. Acesso em: 05 jan. 2026.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/handle/123456789/279. Acesso em: 05 jan. 2026.


