Frustração na advocacia: Esforço não garante o resultado
A frustração é comum na advocacia, ela nasce entre o esforço técnico rigoroso e a imprevisibilidade dos resultados, que é parte estrutural do sistema de Justiça.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2026
Atualizado às 14:24
Em 2010, ao defender minha dissertação de mestrado sobre fontes e reações de estresse em advogados brasileiros, um aspecto se destacou de forma marcante: o esforço profissional, por si só, não garante o resultado do trabalho. Essa constatação revela uma relação direta com a frustração vivenciada na advocacia, que nasce exatamente do descompasso entre dedicação técnica e imprevisibilidade dos desfechos.
A frustração é um sentimento recorrente na advocacia, embora raramente nomeado. Ela surge no espaço silencioso entre o esforço técnico rigoroso e a imprevisibilidade dos resultados, característica estrutural do sistema de Justiça. Estudar, preparar peças consistentes, agir com ética e estratégia não assegura, necessariamente, uma decisão favorável, e é exatamente nesse intervalo que a frustração se instala.
Na prática jurídica, o advogado convive diariamente com fatores que escapam ao seu controle: tempo processual, entendimento do magistrado, dinâmica institucional, conduta da parte contrária e expectativas do cliente. Ainda assim, culturalmente, recai sobre o profissional a responsabilidade integral pelo desfecho. Essa lógica alimenta um modelo de autocobrança excessiva, no qual perder um processo pode ser vivenciado como falha pessoal, e não como parte inerente do ofício.
A frustração, quando não reconhecida, tende a se transformar em irritabilidade, desmotivação ou exaustão emocional. Muitos profissionais passam a operar em modo automático, distanciando-se afetivamente do trabalho como forma de defesa psíquica. Outros internalizam o fracasso, comprometendo a autoestima e o senso de competência, mesmo diante de uma atuação tecnicamente consistente.
Do ponto de vista psicológico, é fundamental diferenciar esforço de resultado. O ESFORÇO é mensurável, planejável e avaliável; o RESULTADO, não. Quando o advogado passa a se avaliar apenas pelo resultado final, ignora variáveis externas e fragiliza sua saúde mental. A maturidade profissional envolve reconhecer que a excelência jurídica está no processo, não apenas na sentença.
Outro ponto central está na gestão das expectativas. Expectativas desalinhadas, amplificam a frustração e produzem desgaste emocional desnecessário. Comunicação clara co o cliente sobre riscos, limites e possibilidades não é apenas uma estratégia jurídica, mas também um recurso de proteção psíquica.
No cotidiano, lidar com a frustração exige pequenas práticas de autorregulação: nomear a emoção, criar rituais de encerramento do dia, reconhecer microconquistas, estabelecer limites entre vida profissional e pessoal e buscar espaços de troca e supervisão. Cuidar da saúde mental não diminui a combatividade ou a seriedade do advogado; ao contrário, sustenta sua permanência lúcida e ética na profissão.
É preciso romper com a ideia de que sentir frustração é sinal de fraqueza. Na advocacia, ela é muitas vezes sinal de envolvimento, responsabilidade e compromisso com o trabalho bem feito. O risco não está em senti-la, mas em silenciá-la.
Em um cenário de crescente judicialização, pressão por produtividade e transformações no exercício profissional, falar sobre frustração é falar sobre sustentabilidade da carreira jurídica. Afinal, não se trata apenas de vencer processos, mas de preservar o profissional que os conduz.


