Fake, deepfake e persuasivo: Eleições em tempos de realidades fabricadas
IA generativa e vídeos falsos transformam a persuasão política, criando desinformação que ameaça o debate público e a confiança nas eleições.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2026
Atualizado em 13 de janeiro de 2026 14:30
O processo eleitoral sempre conviveu com tentativas de manipulação da opinião pública. A novidade do nosso tempo não está na intenção, mas na tecnologia. A inteligência artificial generativa alterou de forma estrutural a relação entre imagem, verdade e persuasão, criando um ambiente em que a falsificação deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano informacional. Em um cenário como esse, as eleições se tornam especialmente vulneráveis.
Os exemplos são conhecidos e recorrentes. Vídeos em que figuras públicas aparecem recomendando produtos inexistentes, como no caso do uso indevido da imagem e da voz de Drauzio Varella para vender supostos “remédios milagrosos”, demonstram que já não é necessário convencer pela argumentação racional. Basta simular autoridade. Da mesma forma, perfis de pessoas vulneráveis, totalmente gerados por IA, circulam nas redes com histórias comoventes, solicitando ajuda financeira ou apoio emocional. Há ainda conteúdos humorísticos ou banais, tratados como registros autênticos da realidade, que reforçam a naturalização da ilusão visual.
Esses fenômenos não são neutros do ponto de vista democrático. Eles revelam uma mudança profunda na lógica da persuasão política. A força probatória da imagem, historicamente associada à ideia de evidência, foi corroída. O vídeo, que antes funcionava como elemento de confirmação, hoje pode ser um instrumento de fabricação de fatos. Isso compromete diretamente a capacidade do eleitor de formar juízo informado.
No contexto eleitoral, o deepfake não precisa necessariamente atribuir falas falsas a candidatos para produzir dano. A simples proliferação de conteúdos duvidosos já é suficiente para gerar desconfiança generalizada. Quando o eleitor passa a acreditar que tudo pode ser falso, instala-se um ceticismo paralisante. A consequência é a desvalorização do debate público e o enfraquecimento do próprio processo deliberativo.
Outro ponto relevante é o uso da persuasão emocional como vetor central da manipulação. A IA permite a criação de narrativas altamente personalizadas, capazes de explorar medos, crenças e vulnerabilidades específicas de grupos sociais. Trata-se de uma persuasão silenciosa, muitas vezes invisível, que não se apresenta como propaganda política explícita, mas como entretenimento, solidariedade ou informação cotidiana.
Do ponto de vista jurídico e institucional, o desafio é complexo. A legislação eleitoral tradicional foi construída para lidar com autoria identificável, com meios de comunicação relativamente estáveis e com temporalidades mais lentas. As realidades fabricadas por IA rompem essas premissas. A autoria se dilui, a velocidade de propagação é exponencial e o dano se consolida antes que qualquer resposta institucional seja possível.
Isso exige uma abordagem múltipla. A regulação do uso de IA em contextos eleitorais é necessária, mas insuficiente se não vier acompanhada de mecanismos eficazes de fiscalização e cooperação com plataformas digitais. A educação midiática do eleitor torna-se um elemento estrutural da proteção democrática, não como recomendação moral, mas como política pública. Também é fundamental reconhecer que a neutralidade tecnológica é um mito. Algoritmos que priorizam engajamento amplificam conteúdos emocionalmente extremos, criando incentivos objetivos à desinformação.
Em tempos de realidades fabricadas, a democracia enfrenta um risco que não se limita à fraude eleitoral clássica. Trata-se da corrosão da confiança social, elemento essencial para a legitimidade do voto e das instituições. Se a percepção da realidade pode ser manipulada em escala industrial, o processo eleitoral deixa de ser apenas uma escolha entre projetos políticos e passa a ser uma disputa sobre o que é considerado verdadeiro.
O desafio colocado às eleições contemporâneas não é apenas tecnológico, mas civilizatório. Preservar a democracia implica reconhecer que a verdade deixou de ser um dado evidente e passou a ser um campo de disputa. Ignorar isso é aceitar que a persuasão artificial ocupe o lugar do debate público, transformando o eleitor em alvo e não em sujeito do processo democrático.
Júlia Matos Coelho
Advogada eleitoral e membro consultiva da Comissão de Direito Eleitoral da OAB Nacional.


