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Jiu-jitsu e advocacia: A técnica que vence a força também vence no jurídico

Arte marcial ensina ao advogado técnica, leitura e controle emocional sob pressão, mostrando que método, base e tempo certo vencem força e impulso hoje.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Atualizado às 12:58

Pensei nesse texto depois de ver uma postagem do Tallis Gomes, no Instagram, em que ele solta uma frase provocativa (e que gruda na cabeça): “se você é empresário e não pratica jiu-jitsu, está deixando dinheiro na mesa”. Na hora, eu entendi o recado para além do esporte - e trouxe imediatamente para a minha realidade: a advocacia, especialmente quando você atua com pressão, risco, conflitos e decisões que não podem ser emocionais.

Porque o jiu-jitsu não é “só” um treino. Ele é um ambiente onde você é obrigado a pensar com clareza quando tudo parece apertar. E isso é exatamente o que a vida profissional exige de quem lidera, negocia, sustenta tese, assume responsabilidades e precisa entregar resultado.

No tatame, a primeira lição é brutalmente simples: força sem técnica cansa, expõe e perde. Você pode querer resolver rápido, pode tentar compensar com intensidade, pode até dar a impressão de domínio por alguns segundos… mas logo a realidade se impõe: quem tem fundamento controla o jogo. Os ensinamentos transmitidos pelo mestre Guilherme Santos, nos tatames da Academia Nova União, ecoam para além do esporte e oferecem lições para enfrentar as complexidades da missão profissional. Na advocacia, acontece o mesmo. A pressa vira inimiga. O impulso vira risco. A vaidade vira erro. A vontade de “ganhar no grito” custa caro. E, no final, o processo premia quem trabalha com método, não quem só trabalha no volume.

Outra coisa que o jiu-jitsu ensina sem discurso é a importância da base. Sem base, você cai. Na profissão, sem base você também cai - só que em forma de pedido mal formulado, prova desconectada, tese inconsistente, argumento bonito que não se sustenta, ou uma postura que abre espaço para o adversário fazer o que quer. Antes de atacar, eu aprendi a estabilizar. Antes de acelerar, eu aprendi a enxergar. Porque no jiu-jitsu, quando você tenta finalizar sem controle, você entrega a posição. E na advocacia, quando você “vai pra cima” sem estratégia, você entrega o caso.

E talvez a maior semelhança entre o tatame e o jurídico seja essa: ambos exigem leitura de cenário. No jiu-jitsu, você aprende a perceber intenção no detalhe: o peso que muda, a pegada que aperta, o quadril que vira, o braço que entra. No direito, o detalhe também decide: uma contradição em depoimento, um documento que muda o rumo, um ponto sensível de negociação, uma falha de gestão que se transforma em passivo, um risco reputacional que ninguém quis enxergar. Quem lê antes, chega antes. E quem chega antes, controla.

O treino também ensina algo que só quem vive entende: paciência não é passividade, é estratégia. Tem luta que você perde porque quer resolver logo. Tem processo que você perde porque quer encerrar rápido. No jiu-jitsu, a finalização aparece quando o outro cede - não quando você fica ansioso. Na advocacia, muitas vitórias também nascem assim: do tempo certo de falar, do momento certo de negociar, da hora certa de endurecer, e principalmente da maturidade de sustentar o plano sem se desorganizar no meio do caminho.

E existe um ponto que, para mim, é o que mais fortalece a profissão: controle emocional sob pressão. Quando o rola aperta, o instinto manda fazer força, prender a respiração e gastar energia de uma vez. Mas isso é exatamente o que te quebra. O jiu-jitsu treina o contrário: respirar, priorizar, ajustar o ângulo, recuperar a lucidez. E é impossível não levar isso para a advocacia, porque o nosso dia a dia é feito de tensão: audiência com conflito, cliente ansioso, prazos curtos, risco alto, decisões que impactam pessoas e empresas.

No fim, o jiu-jitsu me lembra diariamente que o resultado não vem do desespero - vem do fundamento. Não vem do barulho - vem da consistência. Não vem da força - vem da técnica. E talvez seja por isso que a frase do Tallis Gomes faça tanto sentido: porque o “dinheiro na mesa” não está apenas no networking ou na saúde física. Está principalmente naquilo que o jiu-jitsu constrói por dentro: disciplina, clareza, resiliência, estratégia e presença.

E quando você aprende a manter a cabeça no lugar no tatame, você começa a manter a cabeça no lugar no trabalho. E isso, na advocacia, vale ouro.

Marcus Linhares

Marcus Linhares

Head de Gestão e Compliance Trabalhista no escritório André Menescal Advogados.

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