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Ativos virtuais como agenda mobilizável nas eleições de 2026

Em 2025, os ativos virtuais tornaram-se tema estrutural da economia e da política no Brasil, fruto de adoção racional, maior institucionalização do debate e relevância eleitoral crescente para 2026.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Atualizado às 13:17

Em 2025, os ativos virtuais deixaram de figurar de forma episódica no debate público brasileiro e passaram a ocupar um espaço recorrente, contínuo e progressivamente mais relevante. Hoje, o tema, que durante anos foi tratado como periférico, excessivamente técnico, restrito a nichos específicos ou até retratado de forma caricatural, passou a ser compreendido como elemento estrutural do funcionamento da vida econômica e social contemporânea.

Essa mudança de percepção refletiu-se diretamente no alargamento do campo de debate, que deixou de se concentrar em discussões pontuais e passou a incorporar questões relacionadas à circulação de valor, aos mecanismos de troca e liquidação, à organização de mercados, à custódia patrimonial, à proteção de dados e da privacidade, à defesa do consumidor, à concorrência, à inovação e às políticas tributária e cambial, projetando efeitos diretos sobre os limites, a legitimidade e a extensão da atuação estatal sobre a esfera patrimonial e a autonomia econômica privada.

Paralelamente, consolidou-se no Brasil um ecossistema próprio de interlocução pública em torno dos ativos virtuais, marcado pelo surgimento e pela progressiva profissionalização de associações setoriais, entidades representativas, formadores de opinião, cursos, eventos e iniciativas de capacitação. Esse movimento revela não apenas o aumento do interesse, mas um processo efetivo de institucionalização do tema no cenário nacional, com maior densidade técnica e capacidade de articulação junto a agentes públicos e privados.

Esse processo também se refletiu de forma clara no espaço informacional. Ao longo de 2025, os ativos virtuais passaram a ser tratados com maior regularidade e profundidade analítica tanto pela mídia especializada quanto pela tradicional, além de ocuparem espaço crescente nas redes sociais, deixando de figurar como tema marginal ou episódico para integrar, de modo recorrente, pautas econômicas, regulatórias e legislativas de maior visibilidade.

Não bastasse, observou-se uma mudança relevante na postura de agentes historicamente mais reticentes, especialmente no âmbito do mercado financeiro tradicional. Bancos gestores de recursos e fundos de investimento passaram a oferecer, direta ou indiretamente, produtos e serviços baseados em ativos virtuais, sinalizando que essas tecnologias deixaram de ser percebidas como experimentais e passaram a integrar práticas habituais de mercado.

Esse aumento de presença não foi fortuito nem artificial. Ele encontra lastro empírico em dados consistentes de adoção, amplamente documentados por levantamentos internacionais como os relatórios da Chainalysis, que posicionam o Brasil entre os cinco países com maior nível de adoção de ativos virtuais no mundo.

Esse dado, contudo, não deve ser interpretado de forma simplista nem como sinal de adesão ideológica ou entusiasmo difuso. A elevada utilização de ativos virtuais no Brasil decorre, sobretudo, de comportamentos econômicos racionais, condicionados por fatores estruturais conhecidos, como a volatilidade cambial, a necessidade de proteção contra a inflação, a mitigação de fricções no acesso a mercados internacionais e a busca por instrumentos mais eficientes de gestão patrimonial e liquidez. Soma-se a isso um contexto doméstico caracterizado por uma população numerosa, inserida em um ambiente de ampla digitalização financeira, com elevado grau de bancarização, perfil demográfico relativamente jovem e participação ativa em tecnologias digitais, o que favorece a rápida incorporação de novos instrumentos financeiros.

Trata-se, portanto, menos de um fenômeno cultural ou tecnológico e mais de uma resposta funcional a incentivos e restrições concretas do ambiente econômico nacional, sendo justamente nesse contexto que se projeta a relevância eleitoral do tema. Ao serem utilizados de forma recorrente como instrumentos de preservação de valor, circulação de riqueza e acesso a mercados, eles passam a incidir diretamente sobre questões que, grosso modo, orbitam o campo econômico e que tradicionalmente ocupam posição central em disputas eleitorais no Brasil, como inflação, tributação, custo de vida, política cambial, além das aspirações legítimas de melhoria das condições materiais de vida.

Isso acontece também pelo fato de os ativos virtuais funcionarem como ponto de convergência de múltiplas tensões estruturais contemporâneas, envolvendo disputas sobre organização econômica, política tributária, poder regulatório do Estado, autonomia patrimonial dos indivíduos, circulação e proteção do valor, coordenação institucional e modelos de governança.

A omissão ou o tratamento superficial desse tema tende, por outro lado, a produzir desalinhamento discursivo com preocupações já presentes no cotidiano do eleitorado, abrindo espaço para que adversários capturem essa agenda sob enquadramentos mais simples, diretos e politicamente eficazes.

Trata-se de uma agenda intrinsecamente transversal, que movimenta volumes expressivos de valor e possui aptidão concreta para produzir efeitos sistêmicos sobre a organização econômica e social, especialmente em um ciclo eleitoral no qual economia e tributação tendem a ocupar posição central no debate público brasileiro. Ao atravessarem temas sensíveis da vida econômica, os ativos virtuais oferecem múltiplos pontos de entrada discursiva, permitindo enquadramentos eleitorais distintos e, muitas vezes, concorrentes. Espera-se que, no ciclo eleitoral de 2026, que envolverá a escolha do presidente da República, governadores de Estado, senadores, deputados Federais e deputados estaduais, essa pauta seja explorada a partir de narrativas diversas.

Há quem enquadre essa pauta a partir de uma agenda de liberdade econômica, concorrência e redução de custos de intermediação, associando os ativos virtuais à ampliação de escolhas individuais, à eficiência dos meios de pagamento e à mitigação de entraves regulatórios que afetam a atividade produtiva e o acesso a mercados globais. Outros a mobilizam sob a ótica da modernização institucional e da competitividade do sistema financeiro nacional, vinculando o tema à atração de investimentos, à inserção do Brasil em cadeias digitais e financeiras internacionais e à construção de um ambiente regulatório considerado mais previsível e funcional.

Há, ainda, abordagens centradas na arrecadação tributária, no controle fiscal e cambial, na rastreabilidade de fluxos financeiros e no fortalecimento dos instrumentos estatais de fiscalização, prevenção e repressão a ilícitos econômicos, tratando os ativos virtuais como fenômeno que deve ser plenamente integrado às estruturas tradicionais de supervisão, controle e Poder Público.

O ponto central é que essas interpretações não decorrem do fenômeno em si, mas da forma como ele é politicamente apropriado. Não se tratam, necessariamente, de pautas “puramente cripto”, mas de propostas diversas, que evidenciam que essas tecnologias possuem múltiplas aplicações e finalidades, fazendo com que seus efeitos e implicações passem a ser percebidos, discutidos e disputados por diferentes espectros da política, à medida que se tornam objeto crescente de atenção e preocupação social.

Experiências recentes no cenário internacional demonstram que a mobilização política em torno dos ativos virtuais não se limita à formulação de políticas públicas ou planos de governo, mas já integra, de forma explícita, estratégias de comunicação eleitoral e construção de narrativas de campanha em diferentes jurisdições.

Nos Estados Unidos, Donald Trump incorporou reiteradamente os ativos virtuais ao discurso político-eleitoral, utilizando o tema como símbolo de força econômica, soberania monetária e liderança tecnológica. Em manifestações públicas e declarações de campanha, a pauta foi associada à ideia de que os Estados Unidos devem ocupar posição central e dominante no ecossistema global de criptoativos, contrapondo inovação, competitividade e protagonismo nacional a modelos regulatórios percebidos como excessivamente restritivos ou concentradores de poder estatal. Trata-se de um uso deliberado do tema como instrumento de mobilização eleitoral, capaz de dialogar com eleitores sensíveis a narrativas de autonomia econômica, dinamismo de mercado e rejeição à burocratização excessiva.

Em El Salvador, Nayib Bukele utilizou o bitcoin como elemento central de sua narrativa eleitoral, associando-o à soberania econômica, à atração de investimentos e à ruptura com elites financeiras tradicionais, explorando o tema reiteradamente em discursos públicos, redes sociais e material de campanha, com impacto direto em sua popularidade e recondução política. Na Argentina, Javier Milei incorporou, ainda durante a campanha presidencial, uma retórica abertamente favorável ao bitcoin e à concorrência monetária, utilizando os ativos virtuais como símbolo de rejeição ao controle estatal, à inflação crônica e à política monetária tradicional, conectando o tema diretamente às preocupações cotidianas do eleitorado. Na Europa, partidos liberais e movimentos reformistas em países como Alemanha e Países Baixos passaram a incluir referências explícitas a bitcoin, ativos virtuais e tecnologia blockchain em peças de campanha e debates eleitorais, associando o tema a eficiência estatal, proteção patrimonial e modernização econômica.

Nesse cenário, tende a sair na frente, no contexto das eleições brasileiras de 2026, o agente político que compreende que os ativos virtuais não constituem uma pauta setorial ou restrita a um nicho tecnológico, mas um vetor discursivo transversal, capaz de dialogar com múltiplas dimensões da vida, sobretudo com preocupações concretas do eleitorado relacionadas à economia, à tributação, ao custo de vida, à preservação do poder de compra, ao acesso a meios de pagamento mais eficientes e à inserção em mercados globais.

Pedro J. T. C. Torres

VIP Pedro J. T. C. Torres

Mestre em Blockchain e Ativos Virtuais. Sócio do Sydow e Torres Advogados Associados.

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