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Candidatura, vaidade e ruptura: O roteiro repetido da política

Quando a pesquisa interna contraria o desejo pessoal, o “projeto” vira desculpa, a “unidade” vira cobrança e o interesse coletivo vira coadjuvante.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Atualizado às 09:34

Há uma palavra que a política adora pronunciar e raramente praticar: altruísmo. Em épocas eleitorais, então, ela vira adereço de discurso, perfume de palanque, legenda de rede social. Todo mundo é “pelo projeto”, “pela unidade”, “pelo bem maior”. Até a pesquisa interna apontar que o candidato mais viável não é o próprio interessado.

É nesse instante que a retórica cede lugar ao instinto.

A cena se repete em qualquer grupo político, de qualquer cidade, de qualquer espectro ideológico. Em tese, a escolha de candidaturas deveria seguir um critério simples: quem tem melhores condições de vencer e de sustentar o programa do grupo. Em tese. Na prática, o jogo muda quando o resultado desagrada. Quem está atrás nos números não se vê como peça do conjunto; vê-se como injustiçado. E passa a agir como tal.

Primeiro vêm as dúvidas “técnicas”: questiona-se a pesquisa, a amostragem, a metodologia, o período, o recorte. Depois, surgem as versões “morais”: acusa-se o grupo de falta de diálogo, de ingratidão, de elitismo, de traição, de “panelinha”. Em seguida, aparecem as negociações “necessárias”: cargos, espaços, compromissos, garantias, compensações. E quando nada disso resolve, vem o movimento mais sincero de todos: a busca por outra sigla; não por convicção, mas por acolhimento.

A ruptura, nesse roteiro, quase nunca é sobre ideias. É sobre protagonismo.

O político que se dizia comprometido com o coletivo descobre que seu compromisso tinha prazo e condição: ser candidato. Se não for, o projeto perde “sentido”. Se não for, a unidade vira “imposição”. Se não for, a estratégia vira “injustiça”. E o povo, que deveria ser o centro, aparece apenas como justificativa moral para um desejo que é essencialmente pessoal: não ficar de fora.

O altruísmo verdadeiro, aquele que exige renúncia, é praticamente um corpo estranho na lógica da carreira política. Porque carreira, como o nome diz, pressupõe continuidade, visibilidade, acúmulo. A renúncia, por mais virtuosa que seja, costuma ser mal remunerada no mercado eleitoral. Ela não rende curtidas, não dá manchete, não garante palanque. E pior: ainda pode ser interpretada como fraqueza. Na política, abrir mão pode soar menos como maturidade e mais como derrota.

Por isso, a “unidade” frequentemente é um slogan que dura até o momento em que contraria o projeto individual de poder.

A consequência é previsível e, ao mesmo tempo, naturalizada. A cada eleição, grupos se fragmentam não por divergência programática, mas por disputa de cabeça de chapa. Constroem-se discursos sobre “novos caminhos” para encobrir velhas ambições. A palavra “convite” vira sinônimo elegante de “me ofereceram a candidatura”. A palavra “missão” vira apelido de “preciso me manter relevante”. E a palavra “povo” entra como carimbo de legitimidade para decisões que já estavam tomadas no plano privado.

O mais incômodo é que isso não é exceção: é método. Um sistema que transforma mandato em degrau e representação em profissão tende a produzir profissionais da candidatura, não servidores do projeto. E, quando a prioridade vira a própria sobrevivência política, o interesse coletivo passa a ser variável de campanha: útil, mas substituível.

Altruísmo e carreira política até podem coexistir em momentos pontuais, em gestos raros, em pessoas raras. Mas como lógica dominante, parecem incompatíveis. O altruísmo pede “nós”. A carreira, quase sempre, grita “eu”.

E, no fim, a pergunta talvez não seja porque isso acontece. A pergunta é porque ainda fingimos surpresa quando acontece.

Gustavo Bottós de Paula

VIP Gustavo Bottós de Paula

Advogado formado pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Pós-graduado em Direito Público, Civil e Processual Civil.

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