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Há dias em que seguir já é desempenho suficiente

Profissionais mentalmente exauridos não decidem melhor, não se comunicam melhor e tampouco produzem com mais qualidade.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Atualizado às 10:59

A cultura jurídica historicamente valoriza desempenho, controle, previsibilidade e excelência constante. No entanto, o que raramente se discute é que essas exigências recaem sobre sujeitos que lidam diariamente com conflitos, urgências, prazos rígidos, expectativas alheias e uma carga cognitiva elevada. Não se trata apenas de trabalho intelectual, mas de trabalho emocional.

Em um cenário assim, a autocrítica excessiva deixa de ser um motor de crescimento e passa a funcionar como fator de desgaste. O profissional que se cobra sem pausa perde a capacidade de avaliar seus próprios limites, interpreta o cansaço como falha e transforma qualquer desaceleração em culpa.

Há uma diferença importante entre responsabilidade profissional e autoexigência punitiva. A primeira organiza o trabalho; a segunda consome recursos internos que já estão sobrecarregados. Quando essa distinção se perde, instala-se um ciclo silencioso de exaustão: o sujeito trabalha cansado, rende menos, cobra-se mais e se afasta progressivamente do próprio sentido do que faz.

Do ponto de vista psicológico, nem todos os dias oferecem as mesmas condições internas de concentração, memória, tomada de decisão e tolerância ao estresse. Ignorar isso não aumenta a produtividade - apenas fragiliza o profissional a médio e longo prazo. Reconhecer limites não é sinal de descompromisso, mas de inteligência adaptativa.

Começar o dia com menos cobrança não significa abandonar metas, padrões ou responsabilidades. Significa compreender que, em determinados momentos, sustentar o básico com qualidade já é um resultado legítimo. Responder ao que é possível, decidir com clareza razoável e manter-se funcional pode ser, em alguns dias, o máximo disponível - e isso precisa ser suficiente.

Na advocacia, onde o erro costuma ter consequências reais, o descanso psicológico ainda é visto como luxo, quando deveria ser compreendido como condição de desempenho.

Profissionais mentalmente exauridos não decidem melhor, não se comunicam melhor e tampouco produzem com mais qualidade.

Talvez o ponto de virada esteja em substituir a pergunta “por que não estou rendendo mais?” por “o que este dia, realisticamente, me permite entregar?”. Essa mudança não diminui o compromisso com a profissão - ao contrário, preserva o profissional que a sustenta.

Há dias em que avançar pouco é avançar. E há dias em que o melhor começo não é acelerar, mas reduzir o peso da cobrança para conseguir seguir.

Fátima Antunes

VIP Fátima Antunes

Psicóloga especializada em atendimento à profissionais da área jurídica. Coach de Vida e Carreira na área jurídica. Especialista em Gerenciamento do Stress. Autora do livro Estresse em Advogados.

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