Quando a misoginia vem embalada em seda
A misoginia nem sempre grita. Às vezes, ela sussurra em regras sociais, expectativas e julgamentos cotidianos que disciplinam mulheres e naturalizam desigualdades.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
Atualizado às 13:09
Há um tipo de violência que não grita. Não quebra portas. Não precisa de insulto explícito. Ela se instala na escolha do adjetivo, no enquadramento do olhar social, na pergunta “inocente” e na repetição exaustiva de um mesmo roteiro: o de que mulheres, quando ocupam espaço público, precisam provar duas vezes que merecem estar ali e, ainda assim, serão tratadas como suspeitas.
É nesse terreno que prospera uma misoginia de seda: aquela que se disfarça de “boa educação”, de “cuidado”, de “tradição” e até de “imparcialidade”. Uma misoginia que não se anuncia como ódio, mas como norma. E que, justamente por parecer “regra”, torna-se mais difícil de ser reconhecida e mais eficaz em moldar percepções.
O verniz da “tradição” e o vício do enquadramento
Segmentos da sociedade que se autoproclamam intelectuais e tradicionalistas costumam se apresentar como guardiões de valores, de modos, de uma suposta civilidade perdida. Não há problema algum em tradição, muito pelo contrário, ela é necessária; o problema surge quando a tradição vira biombo para conservar hierarquias, sobretudo as de gênero.
O mecanismo é antigo: a mulher pública é enquadrada menos pelo que faz e mais pelo que “parece”. A discussão sobre seu trabalho, suas escolhas e suas ideias cede espaço ao escrutínio do comportamento, da voz, da roupa, da “postura”, do “tom”, da “ambição”, e até das postagens em redes sociais. Nesses ambientes, não importa apenas o conteúdo do discurso, mas se ela “sorriu demais”, “endureceu demais”, “foi emocional demais”, “foi fria demais”. A régua oscila, mas o resultado é previsível: qualquer posição é erro, e o erro vira rótulo.
O nome disso não é crítica. É controle social.
A misoginia que se diz “técnica”
O truque mais sofisticado é quando o preconceito passa a operar como se fosse método. Não se diz “mulher não sabe”; diz-se “falta compostura”. Não se diz “ela não serve”; diz-se “não tem perfil”. Não se diz “ela é histérica”; diz-se “afetada” ou “destemperada”. Não se diz “mandona”; diz-se “autoritária”. O léxico é cuidadosamente escolhido para parecer neutro, mas o objetivo é sempre o mesmo: disciplinar.
Compare o tratamento dado a homens e mulheres em posições equivalentes, no trabalho, na política, em casa, em qualquer lugar onde haja poder em disputa. No homem, a firmeza costuma ser lida como liderança. Na mulher, como arrogância. No homem, o silêncio é estratégia. Na mulher, é despreparo. No homem, o erro é um tropeço. Na mulher, é prova de incompetência. A sociedade, não toda, mas uma parte relevante, alimenta esse filtro seletivo ao repetir “leituras” que já vêm prontas, embaladas em “bom senso”.
E o bom senso, muitas vezes, é só o senso comum mais horripilante com um belo verniz.
O corpo vira pauta, a pauta vira corpo
Outro sintoma recorrente é a transformação do corpo feminino em assunto público. A conversa social desliza, ainda que discretamente, para comentários sobre aparência, idade, maternidade, vida afetiva, “carisma”, “feminilidade”. A mulher vira personagem, não agente. E personagem, por definição, está ali para ser julgada: por seu figurino, por sua performance, por sua capacidade de agradar.
Enquanto isso, o que deveria ser o centro (decisões, resultados, propostas) vira rodapé.
Essa inversão não é inocente. Ela produz um efeito político e social: desloca o debate do racional para o moral, do público para o íntimo, do concreto para o simbólico. Com isso, reduz a mulher a uma disputa sobre aceitabilidade, e não sobre competência ou legitimidade.
A pergunta que já carrega a sentença
A misoginia raramente se apresenta como afirmação; ela se manifesta como pergunta. “Ela aguenta a pressão?” “Ela tem jogo de cintura?” “Ela tem emocional?” “Não seria melhor alguém mais preparado?” E, quando há uma crise, a pergunta muda: “Ela perdeu o controle?” “Ela se vitimizou?” “Ela está colhendo o que plantou?”
O truque é simples: a pergunta não busca resposta; busca moldar a audiência. A sentença vem embutida, e a repetição transforma insinuação em verdade social. Assim, constrói-se uma reputação por desgaste, não por fatos.
É a política do subentendido.
“Imparcialidade” seletiva e a indulgência com o poder masculino
Quando homens erram, muitos tendem a tratar como “ruído” de trajetória. Quando mulheres erram, trata-se como “prova” de inadequação. A indulgência é masculina; a punição, feminina. E isso fica nítido na assimetria do julgamento social: o homem recebe o benefício da complexidade; a mulher, o peso do estereótipo.
A cultura que escolhe proteger reputações masculinas em nome de “estabilidade”, “respeito institucional” ou “prudência”, mas se permite ser impiedosa com mulheres em nome de “exemplo”, “moral” ou “limites”, revela que sua “neutralidade” tem endereço.
O custo democrático do “civilizado”
O problema, no fim, não é só com mulheres. É com a democracia e com a própria ideia de dignidade. Porque uma sociedade que naturaliza padrões de avaliação diferentes, que fiscaliza com dureza seletiva e que recorre à moralização do feminino para manter o masculino confortável, participa da fabricação de desigualdade política e social.
E desigualdade não é tema identitário; é tema institucional. Onde metade da população enfrenta barreiras simbólicas adicionais para ocupar espaço público, a representação é defeituosa. A arena fica mais pobre, a disputa fica menos justa, e o debate público vira teatro de papéis fixos.
Desmascarar não é censurar: é exigir uma cultura social melhor
Criticar esse padrão não é “patrulha”, não é censura, não é cerceamento de opinião. É cobrança de qualidade humana e de justiça. Uma sociedade que se pretende séria deveria ser a primeira a desconfiar de clichês, a revisar seus próprios filtros e a perguntar: estou avaliando fatos ou reforçando arquétipos?
Não se exige benevolência. Exige-se simetria.
Não se pede aplauso. Pede-se critério.
Não se reivindica blindagem. Reivindica-se Justiça.
Porque quando a misoginia se disfarça de eloquente, de intelectual ou de tradicionalista, ela ganha credibilidade. E quando ganha credibilidade, ela deixa de parecer violência e passa a parecer “natural”. É aí que mora seu maior perigo: ela não precisa convencer; basta habituar.
E nada é tão difícil de enfrentar quanto um preconceito que aprendeu a falar baixo.


