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O tripé da IA responsável: Ética, governança e regulação

Este ensaio propõe uma visão sistêmica, sustentada no tripé da ética, governança e regulamentação, defendendo que, sem processos internos de controle, a norma legal torna-se letra morta.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Atualizado às 10:18

A discussão sobre IA costuma oscilar entre dois polos: entusiasmo inovador e ansiedade regulatória. De um lado, a promessa de eficiência, automação e racionalização de processos. De outro, a expectativa de que o legislador estabeleça limites capazes de conter riscos. Mas essa dicotomia é incompleta.

O uso legítimo da IA não se sustenta em um único eixo normativo, mas em três camadas estruturais que operam de forma articulada: ética, governança e regulamentação. Retire uma delas, e o discurso da “IA responsável” passa a ser desprovido de eficácia prática.

A primeira camada é também a mais negligenciada. Não existe IA responsável sem ética profissional.

Antes de qualquer protocolo interno ou marco legal, há decisões humanas sobre finalidade, contexto e limites de uso. A tecnologia não escolhe onde será aplicada nem avalia a adequação de seu emprego a situações que envolvem direitos, vulnerabilidades e impactos sociais relevantes. Essa decisão é humana e, portanto, ética.

A ética atua como contenção prévia. Ela impede que a ausência de proibição seja interpretada como autorização irrestrita. Em ambientes de rápida transformação tecnológica, o dever de prudência, diligência e responsabilidade não é substituído pela inovação, mas sim intensificado por ela.

A segunda camada é menos abstrata e mais operacional: governança.

Governança é o que transforma princípios em prática. São os critérios internos de uso, os mecanismos de supervisão, os protocolos de validação, as trilhas de decisão, a definição de responsabilidades. É nesse plano que se decide se a IA será instrumento de apoio qualificado ou atalho decisório não verificado.

Há um equívoco recorrente no debate institucional: esperar que a lei resolva problemas que são, antes de tudo, de governança.

Nenhuma norma substitui estruturas organizacionais capazes de implementar controles, revisar resultados, gerir riscos e manter supervisão humana efetiva. Onde a governança é frágil, a regulação se converte em formalidade declaratória.

Daí a afirmação que desafia o senso comum: regulação sem governança é letra morta.

Pode haver princípios legais avançados, obrigações de transparência, deveres de mitigação de risco. Se as instituições não dispõem de processos internos que deem concretude a essas exigências, a conformidade será apenas aparente.

A terceira camada, a regulamentação, continua sendo indispensável. Ela estabelece parâmetros mínimos, distribui competências, define responsabilidades e cria mecanismos de controle externo. Confere estabilidade jurídica a um campo marcado por assimetrias técnicas e informacionais.

Mas sua função é estruturante, não substitutiva. A lei não cria, por si só, cultura de responsabilidade. Ela a pressupõe. É por isso que o uso seguro da IA se apoia em um tripé que raramente ocupa o centro do debate público: ética, governança e regulação: o tripé invisível por trás do uso responsável da IA.

A ética orienta a decisão individual. A governança organiza a conduta institucional. A regulação estabelece o quadro jurídico de referência.

Isoladas, são insuficientes. Integradas, permitem que a inovação tecnológica opere sem deslocar responsabilidade, sem obscurecer decisões e sem fragilizar garantias.

No fim, a questão não é apenas como fazer a IA funcionar com eficiência.

É como fazê-la funcionar sem que a eficiência substitua a responsabilidade; porque, no campo dos direitos, tecnologia sem sustentação institucional não é progresso. É um risco sofisticado.

Cintia Calais

VIP Cintia Calais

Advogada em BH/MG Membro da Comissão de Dir. Notarial e Registral OAB/MG Ex-Tabeliã e Registradora em MG Especialista em Direito. Registral e Notarial Mestranda em Estado, Mercado e Desenvolvimento.

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