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Herdeiros em confronto: Os bastidores societários do Biscoito Globo

A disputa entre herdeiros do Biscoito Globo revelou fragilidades na sucessão e na governança de empresas familiares, levando o conflito societário ao Judiciário por quase uma década.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Atualizado às 14:59

A trajetória do Biscoito Globo sempre esteve associada à estabilidade empresarial e à construção de identidade sólida no mercado carioca. Fundada na década de 1950, a empresa consolidou-se como referência regional, mantendo modelo de gestão enxuto e decisões concentradas na figura do fundador. A centralização do comando funcionava como elemento de coesão interna, permitindo que divergências fossem absorvidas antes de se tornarem disputas formais. Esse padrão é recorrente em empresas familiares brasileiras, nas quais a liderança pessoal substitui, muitas vezes, instrumentos formais de governança.

O cenário se alterou de forma significativa com o falecimento do patriarca. A sucessão patrimonial foi formalizada mediante a transferência das quotas aos herdeiros, mas a redistribuição do poder revelou-se mais complexa do que a mera reorganização do quadro societário. A transição da liderança unificada para uma estrutura compartilhada expôs divergências quanto à condução administrativa, à legitimidade de determinados atos societários e ao exercício do controle da empresa. O conflito deixou o ambiente restrito da família e alcançou o Judiciário, onde permaneceu por quase uma década.

A disputa não se limitou a um desentendimento episódico. Ela envolveu questionamentos sobre validade de deliberações, regularidade da administração e definição de quem detinha autoridade para conduzir o negócio. Em termos jurídicos, o caso evidencia uma distinção essencial no direito societário: sucessão patrimonial não equivale a sucessão de comando. A transmissão de quotas resolve a titularidade, mas não define, automaticamente, critérios de decisão, hierarquia administrativa ou mecanismos de resolução de impasses.

A legislação societária oferece instrumentos aptos a organizar a governança de sociedades limitadas, inclusive por meio de acordos de sócios, cláusulas específicas sobre administração e regras de deliberação qualificada. Contudo, em muitas empresas familiares, tais mecanismos não são implementados com a devida profundidade enquanto o fundador permanece à frente da gestão. A autoridade central atua como elemento estabilizador e reduz a percepção de necessidade de formalização detalhada. Quando essa liderança deixa de existir, as lacunas estruturais tornam-se evidentes.

O prolongamento do litígio no caso do Biscoito Globo demonstra que conflitos societários podem coexistir com a continuidade da atividade empresarial. A marca manteve presença no mercado e preservou reconhecimento público, enquanto o embate se desenvolvia no plano judicial. Essa dissociação entre estabilidade externa e tensão interna revela que solidez comercial não significa necessariamente robustez institucional. A governança, embora menos visível do que o desempenho econômico, é elemento determinante para a  continuidade do negócio ao longo das gerações.

Sob a perspectiva econômica, litígios prolongados tendem a impactar decisões estratégicas e planejamento de longo prazo. A incerteza quanto ao exercício do controle compromete a previsibilidade administrativa e pode gerar ambiente de cautela institucional. Ainda que não haja interrupção da atividade produtiva, o conflito societário influencia a dinâmica interna da empresa e altera a forma como decisões estruturais são tomadas.

O episódio também reforça a importância do planejamento sucessório como instrumento preventivo. A sucessão empresarial exige estruturação prévia de papéis, definição clara de competências e previsão de mecanismos eficazes de solução de conflitos. Protocolos familiares, acordos de quotistas e cláusulas de saída são ferramentas jurídicas capazes de reduzir o risco de judicialização quando ocorre a transição geracional. A ausência desses instrumentos amplia a probabilidade de que divergências se convertam em disputas formais.

O caso envolvendo o Biscoito Globo transcende a dimensão meramente episódica. Ele ilustra desafio estrutural enfrentado por inúmeras empresas familiares brasileiras: a passagem de uma gestão personalíssima para modelo institucionalizado. A continuidade empresarial depende não apenas da força da marca ou da fidelidade do mercado, mas da capacidade de reorganizar o poder de forma clara e previsível após a saída da liderança fundadora.

A experiência demonstra que tradição e estabilidade histórica não substituem governança estruturada. A transmissão do patrimônio não encerra o processo sucessório; ao contrário, inaugura fase em que a organização jurídica do poder se torna ainda mais relevante. O litígio prolongado revela que a ausência de arquitetura societária clara pode comprometer a harmonia interna mesmo em empresas economicamente consolidadas.

Outrossim, o presente caso permanece como referência emblemática da necessidade de amadurecimento institucional nas empresas familiares. A sucessão, quando tratada apenas como formalidade patrimonial, tende a gerar disputas que poderiam ser prevenidas por planejamento jurídico adequado. A preservação da atividade empresarial e da função social da empresa depende, em larga medida, da capacidade de antecipar conflitos e estruturar a transição geracional com rigor técnico.

Kelly Viana

VIP Kelly Viana

Advogada e CEO do KASV Advocacia Empresarial, escritório comprometido em desenvolver estratégias jurídicas inovadoras e seguras para potencializar o crescimento de negócios e reduzir riscos legais.

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