Os homens que não amavam as mulheres: A escalada do feminicídio como resposta masculina à autonomia feminina
A violência contra mulheres aparece como prática estrutural, alimentada por misoginia, impunidade e controle masculino sobre corpos e vidas.
terça-feira, 3 de março de 2026
Atualizado às 14:08
Em 2005, li um livro de Stieg Larsson, que inaugurava a série Millennium sob um título cuja literalidade - “homens que odeiam mulheres” - já anunciava o eixo estrutural da narrativa: a misoginia como matriz de violência.
De acordo com Joanna Burigo, o patriarcado é o sistema, misoginia é a indicação de sua existência e os machismos são seus atos. Misoginia (seja como atuação, seja como prática discursiva) é o ódio, desprezo ou aversão às mulheres, funcionando como um sintoma ou uma evidência da manutenção do sistema patriarcal. Ela justifica a desvalorização do feminino e atua na conservação da hierarquia masculina através do medo e do ódio.
Embora formalmente enquadrado como romance policial, o livro desloca o foco do crime individual para um sistema social que produz, encobre e reproduz violências contra mulheres. A obra permite uma leitura que ultrapassa o gênero literário e vamos referenciá-la, nesta análise, como um instrumento que dialoga no debate contemporâneo sobre feminicídios e estupros, entendendo-os como expressões de desigualdade estrutural de gênero.
Lá, como aqui, a violência é tratada como sistemática e não como uma exceção. Ao longo da narrativa, os crimes contra mulheres não aparecem como desvios isolados, mas como manifestações reiteradas de uma cultura familiar e institucional marcada pelo ódio e pelo desprezo ao feminino.
No ano de 2025, em todo Brasil, 1470 mulheres, quatro mulheres por dia, foram assassinadas por serem mulheres. No Rio Grande do Sul, somente nos meses de janeiro e fevereiro de 2026, vinte mulheres foram vítimas de feminicídio. O desprezo pelas mulheres como seres humanos faz com que os feminicidas as tratem como objeto de posse, cujas vidas são absolutamente dispensáveis (as frases utilizadas como justificativas dão conta disso: “foi a última vez”, “se não for minha, não será de mais ninguém”).
Parceiros e ex-parceiros são a maioria dos assassinos, mas já temos casos envolvendo apenas negativas de encontros por aplicativos de namoro.
A violência sexual e letal é apresentada como prática recorrente, naturalizada e transmitida intergeracionalmente, revelando que o problema não reside apenas no que pode parecer uma patologia individual do agressor, mas em um ambiente social que legitima o controle e a dominação masculina.
Essa dimensão estrutural nos aproxima da compreensão feminista de que a violência de gênero constitui mecanismo de manutenção de hierarquias e não evento acidental.
Assim como na obra de Larsson, os recorrentes assassinatos de mulheres e o estupro de meninas, evidenciam a facilidade com que esses crimes se tornam invisíveis ou secundarizados pelas instituições responsáveis por contê-los.
A narrativa espelha uma realidade estatística: a repetição de mortes de mulheres em contextos de intimidade, poder e controle. A lógica do feminicídio - entendido como assassinato de mulheres motivado por sua condição de gênero - manifesta-se não apenas na brutalidade dos atos, mas na indiferença social que os cerca.
Os feminicídios e os estupros viraram cenas jornalísticas cotidianas.
A tipificação do feminicídio no Brasil, por meio da lei 13.104/15, representou um avanço, não só jurídico, mas sociológico, uma vez que passa a reconhecer que determinadas mortes de mulheres são motivadas por razões de gênero (o que antes apenas constava como homicídio). A misoginia é presumida (a mulher foi morta por ser mulher).
No entanto, a formalização legal não eliminou obstáculos estruturais como subnotificação, falhas investigativas e revitimização. A realidade brasileira evidencia dificuldades institucionais em enfrentar crimes de gênero com a centralidade que exigem. A invisibilidade não é apenas estatística: é política.
Estamos diante de um ódio estrutural às mulheres que organiza as relações sociais contemporâneas. A violência contra mulheres e meninas não se reduz a desvios individuais, mas integra um sistema que naturaliza o controle masculino sobre seus corpos e suas vidas.
O feminicídio, na formulação de Rita Segato, deve ser compreendido como um fenômeno político e estrutural que integra uma engrenagem histórica de organização patriarcal, na qual os corpos femininos são posicionados como territórios de domínio e regulação. Ao deslocar o debate da esfera psicológica para a esfera política, Segato evidencia que a morte violenta de mulheres constitui expressão extrema de uma ordem social que naturaliza a desigualdade de gênero.
O feminicídio não é exceção à norma social: é sua manifestação mais brutal.
Naturalizar o feminicídio como um problema de difícil solução, ou sobre o qual, são necessárias mobilizações extraterrenas, ou seja, como um “não podemos fazer nada imediatamente porque isso está fora do nosso alcance”, vai construindo um aprendizado coletivo sobre os limites impostos à autonomia feminina, funcionando como dispositivo disciplinador.
A mensagem, tanto aquela que se inscreve no ato violento em, tanto na da impunidade do agressor, quanto a da falta de estrutura estatal, não se dirige apenas à vítima, mas às demais mulheres que observam e internalizam o risco. Trata-se de uma pedagogia do medo (ainda conforme Rita Segato), que reforça expectativas de submissão e delimita fronteiras simbólicas de comportamento.
Esta mensagem também chega aos agressores: o ato violento reafirma pertencimento a uma ordem masculina hierárquica. Ainda de acordo com Segato, a violência sexual é um problema político e não moral. Ela alerta que uma notícia de agressão sexual não pode ser um espetáculo nos meios de comunicação.
O cotidiano insiste em normalizar a persistência de uma ordem social que produz violência, apenas como um comportamento moral do agressão e não como mecanismo de manutenção de poder.
A violência sexual se constitui como instrumento de subjugação e exercício de poder. A agressão não se estrutura como impulso sexual, mas como mecanismo disciplinador. Portanto, vale lembrar do alerta de Lisbeth Salander, a heroína da trilogia Millenium: “Não confie em homens que precisam controlar mulheres.”
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BURIGO, Joanna. Patriarcado Gênero Feminismo. Porto Alegre: Zouk, 2022
LARSSON, Stieg. Os homens que não amavam as mulheres. Tradução de Paulo Neves. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
(Edição original: Män som hatar kvinnor, 2005.)
MATOS, Larissa. Misoginia digital: violências de gênero online e algoritmos do ódio. Porto Alegre: Venturoli, 2025.
SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.
SEGATO, Rita Laura. Contra-pedagogías de la crueldad. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2018.
SEGATO, Rita Laura. Las estructuras elementales de la violencia: ensayos sobre género entre la antropología, el psicoanálisis y los derechos humanos. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2003.
Luciane Toss
Advogada Trabalhista, doutora em Direito, professora e pesquisadora em gênero e mercado de trabalho.


