As muitas mulheres que habitam em nós
No Dia das Mulheres, reflexão traz olhar íntimo sobre identidade feminina, memória e ancestralidade e destaca o amor-próprio como força de reconhecimento e transformação.
sexta-feira, 6 de março de 2026
Atualizado em 5 de março de 2026 14:38
Durante anos, no Dia das Mulheres, eu escrevi sobre direitos.
Sobre igualdade salarial, sobre oportunidades, sobre liderança, sobre conquistas no mercado de trabalho. E continuarei escrevendo - porque isso importa. Porque ainda é necessário. Porque ainda há muito a construir.
Mas este ano, quando sentei para refletir, percebi que queria falar de algo mais íntimo. Mais profundo. Mais silencioso.
Quis falar de mim. E, ao falar de mim, inevitavelmente falo de nós. Porque dentro de uma mulher não existe uma só. Existem muitas.
Existe a filha - que carrega memórias, aprendizados, às vezes feridas, às vezes colo. Existe a amiga - que acolhe, aconselha, ri alto, segura a mão. Existe a namorada, a esposa - que ama, que teme, que se entrega, que aprende a dividir. Existe a mãe - ainda que de pet - que cuida, protege, organiza o mundo ao redor. Existe a profissional - firme, estratégica, determinada. Existe a que sofre em silêncio. A que dança quando ninguém vê. A que empodera outras. A que é exemplo.
A que não é bem-vinda em certos espaços - e mesmo assim permanece.
Existe uma infinidade delas.
E, além de todas essas, existem as nossas ancestrais. As que vieram antes de nós.
As que talvez não puderam estudar. As que silenciaram sonhos. As que sustentaram casas inteiras com a própria força. As que amaram como puderam.
As que sobreviveram.
Nós somos continuidade. Somos resposta. Somos também reparação.
É verdade - todos os dias deveriam ser das mulheres. Mas este dia tem um convite especial: parar. Olhar para dentro. Reconhecer quem somos. Refletir sobre nossos valores, sobre nossas perspectivas. Sobre a nossa capacidade de gerar. E quando falo gerar, não falo apenas de filhos, falo de ideias, de projetos, de negócios, de movimentos e de redes de apoio. Falo de transformação.
O feminino, para mim, não é fragilidade. Também não é dureza excessiva para sobreviver em um mundo competitivo. O feminino é força com sensibilidade. É firmeza com intuição. É estratégia com empatia. É luz que não precisa apagar a de ninguém para brilhar.
O feminino é a capacidade de sentir profundamente e, ainda assim, escolher agir com consciência. É acolher sem se anular. É liderar sem perder a essência.
É saber que há espaço para todas as versões de nós.
Neste Dia das Mulheres, meu desejo é que cada uma reconheça a grandeza que já habita dentro de si, que honre suas múltiplas versões e que perdoe suas imperfeições. Que abrace sua história - inclusive as partes que doem.
E, acima de tudo, que encontre o verdadeiro amor.
Não o que depende de validação. Não o que implora reconhecimento.
Mas o amor-próprio. O amor que sustenta decisões, que impõe limites, que escolhe melhor e dqe permanece. Que cada mulher encontre em si mesma o lar que procura no mundo.
Feliz Dia das Mulheres. Que sejamos luz - para nós e para as outras.
Marília Meorim Ferreira de Lucca e Castro
Sócia e advogada de Brasil Salomão e Matthes.


