Feliz Dia da Mulher, Lusinete!
Relato em delegacia expõe histórias de agressão, medo e resistência, revelando a dura realidade enfrentada por mulheres e a busca por proteção e justiça.
sexta-feira, 6 de março de 2026
Atualizado às 13:47
Quando escolhi o Direito Penal meu pai me disse: “vai precisar ter estômago”.
O Direito Penal é uma matéria que desperta paixões nos estudantes de Direito no início da faculdade, mas que aos poucos vai sendo substituída por matérias mais requintadas. A atuação na área criminal acaba direcionada àqueles que não se encaixam no status quo, que gostam de coisas atípicas e frequentemente têm aquela sensação de ser "um peixe fora da água".
Após uma longa jornada atuando principalmente em crimes econômicos, a advogada que vos fala acabou encontrando - na semana que antecede o Dia da Mulher - situação para a qual nenhum estômago está preparado.
Tive de ir a uma delegacia da mulher para pleitear uma informação. Ao chegar, notei uma jovem senhora com os olhos roxos. Sim, os dois. Por cima da sobrancelha esquerda, vários pontos de linha hospitalar conferiam ao seu rosto uma futura e enorme cicatriz. Por milagre ela ainda enxergava. Um policial a explicava que não seria possível conseguir a medida protetiva que ela estava pedindo.
A bisbilhotice - característica comum aos advogados que gostam do Direito Penal - me acometeu, e me aproximei. “A senhora é advogada?”, perguntou o policial. “Sou sim”, respondi. “Puxa, doutora, explica para ela. Não posso fazer nada. O agressor não é o marido dela. É um vizinho.” De fato, pela lei Maria da Penha, a medida cautelar é prevista quando a violência é doméstica ou familiar. Sendo assim, o caso, do ponto de vista jurídico, não se enquadraria nos requisitos para tal medida.
Foi aí que conheci a Lusinete e sua história: “Ele estava arrumando o carro na frente da minha casa, e quando acelerava, entrava fumaça com cheiro muito forte. Fiquei com dor de cabeça, saí e pedi para ele jogar o carro mais para cima. Ele me xingou, eu respondi, e aí ele me deu uma paulada na cabeça”, disse Lusinete, que completou: “Ele disse que eu joguei uma lata de cerveja na cara dele, mas eu não joguei, doutora. Eu juro.”
Expliquei que não importava se ela tinha jogado a lata ou palavras de baixo calão ao agressor, ou não. Não existia justificativa para esse horror.
O fato aconteceu no sábado, ela registrou a ocorrência na delegacia mais próxima logo depois. Classificaram o fato como “lesão corporal leve” e pediram que ela aguardasse o laudo.
Mas a segunda-feira chegou e Lusinete estava com medo de sair para trabalhar. Temia pelo filho adolescente. Estava com medo de viver. Então foi em busca da delegacia da mulher, pedir uma medida protetiva. Mas “graças a Deus” (ou não), o agressor não era o próprio marido. Nada podiam fazer por ela ali.
Dei orientações. Falei para voltar a delegacia original e explicar seus receios, buscando uma medida cautelar. Enquanto conversávamos, uma senhora sentada ao lado começou a chorar. Achei que fosse uma testemunha da paulada, mas não. O choro era fruto da empatia de uma desconhecida, que estava na delegacia pela terceira vez, acompanhando a filha, que apanhara do marido. De novo. “Não aguento mais isso, doutora”.
Lusinete foi embora, levou meu telefone e eu fui resolver o meu tema profissional. Quando terminei, sentei-me na recepção da delegacia para aguardar um telefonema. Fiquei mais vinte minutos. Durante esse pequeno período, entraram três outras mulheres: uma levou um soco do ex-namorado; outra apanhou do atual e a terceira foi atropelada pelo ex-marido, quando ele foi devolver as crianças. Mas “foi um atropelo de leve”, ela justificou.
Naquela manhã de segunda-feira, em menos de meia hora, vi cinco mulheres relatando episódios de violência. Fui embora pensando em quantas mais apareceriam no resto do dia, naquela e em outras tantas delegacias. Pensei também em quantas deixaram de reportar os seus episódios de violência física e psicológica, seja por cansaço ou por medo.
Dormi mal na noite desse episódio. Acordei e vi mensagens da Lusinete no meu celular. Ela contava que foi à delegacia, e que deu tudo certo. O delegado mudou o caso dela de lesão corporal, para tentativa de homicídio e ela conseguiu uma medida cautelar. “Ele não pode chegar mais perto de mim, doutora”.
Mais do que me agradecer pelo final “feliz”, Lusinete queria me mostrar que também conseguiu as câmeras da rua. “Olha lá, você viu? Eu não joguei nada na cabeça dele.” Estava aliviada, porque poderia provar para o mundo que não mereceu.
Há 25 anos escolhi o Direito Penal e sei lá mais por quantos vou continuar escolhendo, caminhando nas ambiguidades, e sempre precisando reforçar o estômago, como bem advertiu meu pai.
Respondi a mensagem dela perguntando: “Posso publicar sua história? Usarei um nome fictício”. “Pode, doutora. Mas não usa nome falso, não. Meu nome é Lusinete”.
Então “feliz” Dia da Mulher, Lusinete!
Paula Moreira Indalecio
Advogada criminalista e sócia da área de Direito Penal empresarial do Mattos Filho.


