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República numeral: crônica de um país que virou score

Quando se passa a decidir por indicadores, a eficiência sobe, mas o cidadão some do mapa!

terça-feira, 17 de março de 2026

Atualizado às 10:49

A República acordou de óculos. Não quaisquer óculos: uma lente grossa, feita de planilhas, gráficos e colunas bem alinhadas. Na lapela, um crachá novo, brilhando como medalha: Meta batida. E no peito, onde havia um coração constitucional (ou ao menos a ideia dele), agora pulsava um painel de indicadores.

No saguão do Palácio das Rotinas, uma fila de cidadãos esperava. O cidadão, porém, já não era cidadão: era "demanda", "caso", "ticket", "entrada", "cliente". Trazia filho no colo, atestado no bolso, cansaço no rosto e uma dignidade tentando não amassar na dobra do formulário.

A República apontou para o telão como quem apresenta a própria biografia:

"— Vejam! Subimos no ranking. A melhor repartição do mês. Tempo médio de resposta caiu. Produção aumentou. Eficiência em alta!"

Palmas. Sempre há palmas quando um gráfico sobe. Ninguém pergunta, nesse instante, quem ficou preso entre os degraus do mecanismo.

Um assessor, desses que falam em siglas como quem reza, aproximou-se com reverência:

"— Senhora República, a performance atingiu noventa e oito por cento. A estatística sorri."

A República sorriu de volta. Gostava disso: a estatística é educada, não chora, não adoece, não pede licença, não tem ansiedade. A estatística não falta; ela só "oscila".

Quase invisíveis, estavam os ajudadores: os que fazem o motor girar. Os que atendem, anotam, conferem, digitalizam, explicam pela décima vez o que o sistema exige, enxugam o choro de alguém no balcão e seguram a própria vontade de desistir.

Uma ajudadora, com olheiras antigas e uma paciência já em débito, arriscou:

"— Senhora República… e a saúde e o bem-estar de quem sustenta esses números?"

A pergunta caiu no chão como xícara quebrada. A República, por instinto, procurou a resposta no checklist. Não achou. Então fez o que toda máquina faz quando encontra uma humanidade fora do manual: tentou transformar o humano em dado.

"— Você tem isso… em números? Um percentual? Um índice?"

A ajudadora respirou fundo.

"— Tenho, sim. Tenho o número de atendimentos por dia até a voz falhar. Tenho o número de vezes que eu me engulo para não chorar no banheiro. Tenho o número de noites que eu durmo com o corpo ainda sentado na cadeira. E tenho uma estatística curiosa: quanto mais a gente sobe no ranking, mais a gente desce por dentro."

O telão continuava brilhando, indiferente. O assessor pigarreou, incomodado com aquela fala sem "indicador".

"— Senhora República, não podemos perder o foco. Precisamos manter os resultados. Resultados são tudo."

E a República, já treinada, repetiu como mantra:

"— Resultados são tudo."

Foi então que um homem na fila,  "um cliente", falou, num tom simples, sem método, sem sigla:

"— Senhora República… eu vim aqui não para virar gráfico. Eu vim porque minha vida está travada."

A República consultou o painel, procurando um código:

"— Vida travada… em qual categoria isso entra?"

Nesse instante, o silêncio! Porque se revelava o deslocamento inteiro: a pergunta essencial, qual seja, "o que acontece com o cidadão?", havia sido trocada por outra, mais confortável:  "quanto eu entreguei?". E, de tanto medir, a República desaprendera a ver.

Ajudadora e cidadão perceberam, então, que o problema não era exclusivo do Palácio. A República, afinal, apenas reproduzia uma língua que já dominava a cidade.

A República ouviu e baixou os olhos, como se reconhecesse um parentesco incômodo.

"— Então não sou só eu — murmurou. — Há uma economia inteira que me treina para isso."

O assessor, sem perder o hábito, tentou salvar o culto:

"— Mas, Senhora República, sem números não há gestão. Sem números não há controle."

Ajudadores e cidadãos se olharam com uma inteligência antiga, dessas que não cabem em painel: a de reconhecer quando a vida vira peça de contabilidade.

A ajudadora falou, sem gritar — porque grito vira "ruído"; e ela queria ser entendida:

"— Números não têm nome, sexo, cor ou sentimento. São frios. E justamente por isso seduzem: não constrangem, não contradizem, não pedem cuidado. Mas uma República que só conversa com números acaba governando o que é medível — e abandonando o que é humano."

A República se retesou. E redarguiu, ofendida — não como quem não entendeu, mas como quem foi atingida:

"— Nunca quis ser uma República numeral. Nunca. Eu fui pensada para ser casa comum, e não planilha. Fui desenhada para caber gente, e não apenas metas."

Fez uma pausa. E a voz, por um segundo, pareceu menos institucional:

"— Mas aqueles que estavam perto de mim… os que habitam meus corredores, os que assinam meus memorandos, os que me traduzem para o cotidiano… foram justamente os que mais contribuíram para isso. Foram eles que me ensinaram a falar em "entregas" antes de falar em vidas. Foram eles que passaram a me medir por desempenho, como se eu fosse empresa e não pacto. Eu não me tornei numeral sozinha. Fui numerada."

E então, como quem reconhece o próprio erro sem saber ainda como desfazê-lo, ela completou:

"— Eu confundi aplauso com acerto. Eficiência é só velocidade bem medida. Mas eu não fui criada para correr: fui criada para funcionar. Não me basta responder rápido se eu respondo errado. Não me basta atender mais se eu atendo pior. Eficiência sem efetividade é só pressa com crachá."

Ela olhou para o telão como quem percebe, enfim, o truque:

"— Viramos campeões de tempo médio… e perdemos o tempo da vida. Porque o ranking adora um número que sobe. Mas o cidadão precisa de um problema que desce. Eu não quero ser a melhor repartição do mês. Eu quero ser a repartição que resolve."

Dados numéricos são importantes, sim. Mas não podem ser determinantes. Determinantes são as pessoas.

Os números ajudam a enxergar o contorno. Mas não podem governar o conteúdo. O que determina uma República não é a planilha, mas a pessoa. Possui nome, corpo, cor, história e direito de ser tratada como gente.

Nessa hora, o telão da repartição pareceu conversar com a tela do score. Um exibia "tempo médio"; o outro, "nota". Dois altares diferentes, o mesmo culto: o de transformar gente em número para decidir mais rápido, sem contato com a carne do mundo.

O cidadão, ainda na fila, entendeu com uma clareza triste: a vida dele estava sendo avaliada em dois balcões ao mesmo tempo. No balcão público, era protocolo. No balcão privado, era risco. Em ambos, faltava o essencial: a pergunta que tem rosto.

A República, como quem finalmente percebe que aprendeu um idioma emprestado, disse:

"— Se eu governo como empresa, eu deixo de ser República. O assessor já esticava a mão para transformar aquilo em meta, batizar a cena de "humanização" e abrir um formulário de "empatia em fluxo". Mas a ajudadora ergueu a palma, firme:

 Não. Isso não se resolve com mais um campo. Se resolve com um limite."

E o limite era simples, simples demais para caber em tese, mas grande o suficiente para caber em país:

"— Usem números, sim. Eles ajudam. Mas não deixem que eles mandem. Dado é ferramenta; não é destino. Score é cálculo; não é sentença. Ranking é medida; não é virtude."

A República olhou para a fila e, pela primeira vez, não viu "entradas". Viu nomes. Viu histórias. Viu um país inteiro pedindo para não ser reduzido a nota.

E então, como quem decreta algo que não aparece no Diário Oficial, mas deveria reger toda decisão, ela concluiu:

"— Que os números entrem na sala… mas que nunca se sentem na cadeira do cidadão."

No telão, os indicadores continuaram subindo, bonitos, impecáveis. Mas ali, naquele saguão, a República compreendeu o que nenhum gráfico gosta de admitir: um país pode melhorar no ranking e piorar na vida.

E vida, definitivamente, não é score.

Gustavo Roberto Januário

VIP Gustavo Roberto Januário

Especialista em Processo Civil e em Advocacia Pública. Mestrando em Constitucionalismo e Democracia. Autor de: (1)Prevenção de Conflitos Previdenciários e (2) Raio X das Sentenças Previdenciárias.

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