Stablecoin sandwich: Entre centralização e descentralização
Como as stablecoins estão deixando de ser apenas ativos para se tornarem infraestrutura híbrida de liquidação, conectando blockchain e sistema financeiro tradicional.
sexta-feira, 27 de março de 2026
Atualizado às 13:39
O advento do Bitcoin demonstrou, em termos tecnológicos e econômicos, a possibilidade de estruturar um sistema apto a viabilizar a transferência de valor, inclusive em contexto transfronteiriço, com elevado grau de integridade, verificabilidade e resistência à manipulação, sem a mesma dependência de intermediários centrais que historicamente caracterizou os arranjos tradicionais. A sua inovação não estava apenas na velocidade eventual da operação, mas na combinação, até então inédita em tal escala, entre escassez programável, consenso distribuído, rastreabilidade pública e previsibilidade na validação das transações, atributos que permitiram repensar a própria arquitetura da circulação de valor em ambiente informático.
Essa transformação, contudo, não eliminou os entraves próprios da circulação econômica internacional, mas apenas os reconduziu a outro plano. Se, em um primeiro momento, a grande ruptura parecia residir na superação da dependência de um terceiro central de confiança, a evolução do ecossistema de ativos virtuais revelou que a transferência de valor, por si só, não se esgota em sua possibilidade técnica. Para que se torne amplamente funcional, ela precisa ser compatível com exigências regulatórias, critérios de identificação, controles de integridade, regimes tributários, padrões de responsabilização e estruturas operacionais aptas a sustentar sua inserção em fluxos econômicos institucionalmente organizados.
Nesse percurso, a própria noção de descentralização, que acompanhou o advento do Bitcoin como um de seus traços mais emblemáticos, passou a ser progressivamente relativizada. Não porque tenha desaparecido por completo, mas porque deixou de operar, na prática, como categoria absoluta ou horizonte exclusivo de desenvolvimento do setor.
Essa relativização se revela em múltiplos planos. A começar pela persistente necessidade de conversão em moeda fiduciária, diante da ainda limitada aceitação de ativos virtuais como meio corrente de pagamento em grande parte da economia global. Soma-se a isso a crescente intermediação institucional do setor, perceptível não apenas nos produtos negociados em bolsa aprovados nos Estados Unidos, mas também na autorização de ETFs à vista de ativos virtuais em Hong Kong, inseridos em ecossistema regulado e acessíveis por intermédio de operadores licenciados.
Na Europa, o mesmo movimento se manifesta por outra via: a disciplina conferida pelo MiCA às stablecoins, somada à crescente integração de suas reservas com o sistema bancário, mostra que a aproximação com a infraestrutura financeira tradicional já não é periférica, mas estrutural. E, em plano ainda mais expressivo, observa-se a incorporação patrimonial dos ativos virtuais por entes estatais ou soberanos, seja pela manutenção pública de reservas em Bitcoin em países como El Salvador, seja pela utilização de estruturas de mineração e acumulação soberana em jurisdições como o Butão.
Em todos esses casos, o que se nota não é o abandono da inovação trazida pelo setor, mas a sua progressiva inserção em estruturas que mitigam, condicionam ou reorganizam o ideal originário de descentralização.
À medida que os ativos virtuais se expandiram, ganharam escala econômica e passaram a dialogar de maneira mais intensa com estruturas estatais, regulatórias e financeiras já consolidadas, tornou-se evidente que a utilidade dessa tecnologia não se esgota em arranjos integralmente apartados da ordem institucional vigente. Ao contrário, boa parte de sua consolidação contemporânea tem ocorrido justamente por meio de formas crescentes de integração, acomodação e reconciliação com os mecanismos tradicionais de custódia, intermediação, supervisão e liquidação.
É precisamente nesse ambiente de maior integração entre o universo dos ativos virtuais e a infraestrutura financeira tradicional que algumas stablecoins, especialmente aquelas lastreadas em moeda fiduciária, com alta liquidez, ampla aceitação e capacidade concreta de interoperar com estruturas de entrada e saída em moeda estatal, passaram a assumir relevo singular.
Se, em um primeiro momento, o debate a seu respeito esteve fortemente associado à preservação de valor e à facilitação de negociações em plataformas especializadas, a evolução do setor passou a revelar, em relação a essas estruturas mais robustas, uma função adicional de especial importância: a de servir como camada intermediária de liquidação entre diferentes trilhos financeiros. A sua centralidade, nesse contexto, não decorre apenas de sua vocação para reduzir volatilidade, mas da aptidão concreta para coordenar fluxos entre sistemas juridicamente distintos, operacionalmente fragmentados e, por vezes, temporalmente incompatíveis.
É nesse ponto que ganha densidade o chamado stablecoin sandwich. A expressão descreve arranjos em que a entrada e a saída da operação permanecem vinculadas a meios fiduciários tradicionais, enquanto a liquidação intermediária ocorre por meio de stablecoins. Em termos práticos, o remetente pode iniciar a operação por um trilho local convencional, ao passo que o destinatário recebe os valores por outro mecanismo igualmente tradicional, sem que a infraestrutura utilizada no percurso intermediário se apresente, necessariamente, de forma visível.
O aspecto mais relevante desse modelo não está em substituir integralmente o sistema financeiro existente, mas em utilizar uma camada baseada em blockchain para reduzir fricções, encurtar etapas de liquidação, otimizar custos operacionais e ampliar a interoperabilidade entre sistemas nacionais distintos.
Imagine-se, por exemplo, uma empresa brasileira do setor farmacêutico que precise importar insumos de um fornecedor sediado nos Estados Unidos. No modelo tradicional, essa operação poderá envolver contratação cambial, sucessivas etapas bancárias, intermediação por correspondentes e prazo de liquidação que nem sempre acompanha a urgência comercial da operação. A depender da estrutura utilizada, o fornecedor estrangeiro somente considerará o pagamento efetivamente recebido dias depois da saída dos recursos no Brasil, o que pode retardar a liberação da mercadoria, comprometer cronogramas logísticos e impor custos adicionais à compradora, seja pela necessidade de capital de giro, seja pela perda de previsibilidade no fluxo financeiro da operação.
Já em arranjo baseado no chamado stablecoin sandwich, a empresa brasileira pode realizar o pagamento em reais por infraestrutura doméstica, o valor ser convertido internamente em stablecoin para liquidação intermediária e, no destino, ser novamente convertido em moeda fiduciária, com entrega ao fornecedor por mecanismo bancário local. Para as partes, a operação continua a se apresentar como pagamento empresarial internacional, enquanto do ponto de vista infraestrutural a utilização dessa camada intermediária permite reduzir o tempo de liquidação, conferir maior previsibilidade ao recebimento, diminuir fricções cambiais e racionalizar a dependência de múltiplos intermediários por meio do uso de tecnologia blockchain e ativos virtuais.
Do ponto de vista econômico, isso pode ser particularmente vantajoso quando o adimplemento mais célere influencia diretamente a dinâmica do negócio subjacente. Se o fornecedor somente embarca os insumos após a confirmação do crédito, a redução do tempo de recebimento pode significar antecipação da remessa, preservação do cronograma produtivo e menor exposição da importadora a custos decorrentes de atraso.
Além disso, a maior previsibilidade do fluxo financeiro pode produzir efeitos econômicos relevantes para além da mera redução do tempo de liquidação. Em operações empresariais recorrentes, ela tende a favorecer melhor gestão de caixa, maior precisão no planejamento de pagamentos internacionais, redução da necessidade de capital imobilizado para fazer frente a atrasos e menor exposição a custos decorrentes de descasamentos temporais entre obrigação assumida, saída de recursos e efetiva disponibilização do numerário ao beneficiário.
Em cadeias mais sensíveis a prazo, o recebimento mais célere e previsível também pode repercutir diretamente sobre liberação de mercadorias, cumprimento de cronogramas contratuais, reposição de estoque e continuidade operacional da atividade econômica subjacente. Soma-se a isso a potencial redução de fricções administrativas, com menor dependência de múltiplas confirmações intermediárias, menor assimetria informacional entre as partes e maior racionalidade na coordenação de fluxos financeiros transnacionais.
Para o Brasil, essa lógica revela-se particularmente interessante. De um lado, o país dispõe de uma infraestrutura doméstica de pagamentos altamente eficiente, na qual o Pix já ocupa posição central na circulação interna de recursos. De outro, permanece intensamente inserido em fluxos internacionais de importação e exportação, com número recorde de empresas exportadoras e importadoras e corrente de comércio em patamar historicamente elevado.
Essa combinação produz uma assimetria reveladora: internamente, a movimentação de valores tornou-se rápida, simples e amplamente acessível. Externamente, contudo, a liquidação transfronteiriça ainda pode envolver fricções cambiais, camadas de intermediação, maior custo operacional e menor previsibilidade temporal. É justamente nesse descompasso entre a eficiência doméstica e a complexidade do pagamento internacional que arranjos híbridos de liquidação ganham especial atratividade. Em vez de prometer a supressão automática de encargos regulatórios ou tributários, o modelo oferece, em tese, outra vantagem: ampliar a eficiência econômica do fluxo, facilitar o acesso funcional à liquidez em dólar norte-americano, reduzir o tempo de disponibilização dos recursos no exterior e conferir maior previsibilidade financeira a operações empresariais que dependem de pagamentos internacionais mais céleres e coordenados.
Por isso, o stablecoin sandwich já se apresenta como uma das expressões mais relevantes da atual fase de maturação do mercado de ativos virtuais. A sua força não reside na reedição pura da promessa originária de completa desintermediação, nem no simples retorno à lógica bancária clássica, mas na construção de uma zona intermediária em que descentralização e centralização passam a coexistir de maneira funcional.
Trata-se de arquitetura híbrida: descentralizada o suficiente para explorar a programabilidade, a velocidade e a flexibilidade de infraestruturas baseadas em blockchain, mas suficientemente integrada para dialogar com moeda fiduciária, instituições reguladas, controles de integridade e exigências operacionais da economia contemporânea. Talvez seja justamente nessa linha tênue, situada entre a ruptura e a acomodação institucional, que se encontrem algumas das aplicações economicamente mais relevantes dos ativos virtuais nos próximos anos.


