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Como a presença feminina muda a lógica das negociações empresariais

Andressa Garcia e Nathalia Cardia

Negociação evolui da disputa à cooperação, com foco em interesses comuns, e a diversidade de gênero reforça soluções sustentáveis e melhora resultados em acordos complexos.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Atualizado em 26 de março de 2026 16:24

Por muito tempo, a negociação foi compreendida como uma barganha de força, com embate direto entre partes que disputam recursos escassos e ganhador seria quem sustenta a posição mais rígida ou demonstra maior poder. Essa visão, ainda presente em certos ambientes corporativos e institucionais, vem sendo substituída gradualmente nas negociações contemporâneas por modelos colaborativos e orientados à lógica ganha-ganha. 

O modelo desenvolvido pelo Havard Negotiation Project, também conhecido como negociação baseada em princípios, é um bom exemplo disto. O mecanismo propõe a superação da barganha posicional e privilegia a identificação de interesses comuns, a criação de valor mútuo e a utilização de critérios objetivos na tomada de decisões. 

Processos negociais reais, sobretudo aqueles que envolvem múltiplas partes, não funcionam como jogos de soma zero, mas como estruturas variáveis, governadas pela circulação de informações e pela adequada calibração de riscos. Nessa perspectiva, a negociação deixa de ser um campo de imposição e passa a ser um espaço estratégico de construção coletiva. 

É nesse contexto que a presença feminina tem demonstrado capacidade concreta de alterar positivamente a lógica tradicional da negociação. A literatura contemporânea em teoria da negociação, psicologia organizacional e economia comportamental aponta que negociar é, essencialmente, um processo de resolução conjunta de problemas. 

A efetividade do acordo depende da identificação dos interesses subjacentes e da preservação de relações que frequentemente se prolongam para além da assinatura formal - aspecto especialmente relevante nos contratos empresariais, que possuem, em regra, longa duração. Nesses contratos, a manutenção da cooperação contínua entre as partes é elemento central para sua estabilidade.

Nesses cenários, a habilidade de estruturar soluções sustentáveis tende a ser mais relevante do que a demonstração isolada de poder, seja no momento da celebração do contrato empresarial, seja durante sua execução. Pesquisas empíricas reforçam esse entendimento. Meta-análises sobre gênero e negociação demonstram que diferenças de desempenho entre homens e mulheres são pequenas quando fatores como experiência e acesso à informação são equivalentes. Além disso, em negociações integrativas, mulheres frequentemente alcançam resultados tão bons quanto ou superiores aos de seus pares masculinos. Estudos da Columbia Business School apontam que mulheres negociadoras tendem a adotar abordagens mais orientadas à troca de informações e à construção de interesses comuns, reduzindo impasses e aumentando a probabilidade de acordos mutuamente benéficos, especialmente em contextos corporativos e regulatórios. 

Na mesma linha, o Stanford Women’s Leadership Innovation Lab destaca que estilos negociais baseados em colaboração, escuta ativa e integração de múltiplas perspectivas favorecem soluções mais criativas e duradouras, reforçando o papel estratégico da diversidade de gênero nos processos decisórios. Essas evidências contribuem para desmontar a ideia de que firmeza e eficácia exigem posturas inflexíveis ou agressivas.

Em negociações complexas, como frequentemente ocorre em contratos empresariais, a capacidade de gerir informações, compreender interesses alheios e antecipar riscos mostra-se decisiva. A presença feminina tende a ampliar o espectro de variáveis consideradas, a reduzir conflitos improdutivos e a fortalecer a sustentabilidade dos acordos, demonstrando que estilos colaborativos não representam fragilidade, mas sofisticação estratégica.

A relevância da participação feminina também se confirma em negociações de alto impacto social e institucional. Estudos sobre processos de paz e acordos internacionais indicam que a inclusão de mulheres está associada a maior durabilidade dos acordos e a taxas mais elevadas de implementação, justamente porque ampliam a agenda negociada e incorporam preocupações relacionadas à coesão social e à governança pós-acordo. 

Essa lógica pode ser aplicada analogicamente aos contratos empresariais complexos, os quais frequentemente envolvem múltiplas partes e diversos stakeholders, exigindo soluções institucionalmente consistentes. 

Em negociações, a força isolada raramente produz bons resultados. O que sustenta acordos eficazes é a capacidade de gerir informações, construir confiança e calibrar riscos ao longo do tempo. 

A evidência empírica indica que a presença feminina fortalece exatamente esses elementos, transformando a lógica da negociação de um jogo de imposição para um processo estratégico de construção conjunta, o que é especialmente relevante quando se trata de contratos empresariais. Em um ambiente marcado por interdependência e alta complexidade, ter mulheres à mesa não é apenas uma questão de representatividade, mas de racionalidade decisória e eficiência institucional.

Andressa Garcia

Andressa Garcia

Mestre em Direito Privado pela UFRGS. Advogada no Silveiro Advogados, na área de Direito Societário e M&A.

Nathalia Cardia

Nathalia Cardia

Atua na área de Societário do escritório Silveiro Advogados. Graduanda em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Representou nacionalmente e internacionalmente a equipe de mediação e negociação empresarial da PUCRS.

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