Governança da certificação e a construção de ativos ambientais
O texto pontua a governança da certificação na construção de ativos ambientais, destacando transparência, credibilidade e sustentabilidade econômica e ecológica.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
Atualizado em 14 de abril de 2026 16:43
Recentemente, o BNDES publicou o edital FEP Fomento 01/26, um passo decisivo para a implementação do SBCE - Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. O objetivo central é estruturar uma base técnica sólida para a certificação de créditos de carbono. A governança da certificação é o eixo de integridade essencial para a credibilidade e a funcionalidade econômica deste novo mercado.
A certificação é o "selo de autenticidade" do ativo ambiental. É a governança de certificação desse processo que garante que uma tonelada de carbono foi, de fato, reduzida ou removida da atmosfera sob padrões metodológicos cientificamente robustos, auditáveis e rastreáveis. Uma governança da certificação disfuncional resulta em insegurança jurídica e um mercado que fica exposto a distorções graves: Assimetria de informações, excesso de oferta, preços deprimidos e falta de liquidez.
A escolha do modelo de certificação e as regras de interoperabilidade para a aceitação dos ativos no SBCE são pilares fundamentais na estruturação do nosso sistema. Todavia, é um erro pensar que a escolha é puramente técnica. Há, pelo menos, duas questões cruciais nesse cenário.
A primeira é que a definição de quais projetos e metodologias serão aceitos impacta diretamente na precificação do ativo. É fato que a escala de cada tipo de projeto influencia a oferta de créditos válidos para conciliação de obrigações e, portanto, a dinâmica dos preços dos ativos. A primeira grande função da governança da certificação é evitar mecanismos de validação que permitam um excesso de oferta. Existe aqui uma lógica perversa: Embora preços baixos possam parecer atraentes para as empresas reguladas no curto prazo, eles criam distorções que comprometem a eficácia do sistema e, ao fim, inviabilizam o próprio fomento à descarbonização.
A outra dimensão está na ponta da oferta. A governança da certificação atua como o árbitro de uma disputa entre diferentes interesses legítimos, que, conforme o conceito de coalizões de defesa (Advocacy Coalitions) de Paul Sabatier, buscam converter suas crenças técnicas e visões de mundo em normas regulatórias oficiais. Para além do domínio tradicional dos projetos de REDD+, observa-se a organização de grupos em torno de fronteiras como a do carbono biogênico de alta permanência (biochar), da economia da restauração (ARR) e do agrocarbono. Para essas coalizões, o edital do BNDES é um campo de embates no qual o conhecimento técnico é utilizado para garantir espaço e competitividade no SBCE.
Em última análise, instituir o mercado regulado de carbono no Brasil significa construir um novo ecossistema econômico de ativos ambientais. As empresas submetidas ao SBCE precisam compreender a governança da certificação como um divisor de águas estratégico. Dependendo dos critérios de certificação que prevalecerem, o cenário para a geração e aquisição de ativos ambientais pode mudar radicalmente, de modo que investimentos planejados podem ser transformados em vantagens competitivas ou em riscos financeiros significativos.
Leonardo Alves Corrêa
Sócio-executivo da área Direito Ambiental e Negócios Sustentáveis no VLF Advogados. Professor de Direito Ambiental e Minerário da Faculdade de Direito da UMFG.



