Uma Justiça que acerta sempre… e entende cada vez menos
O artigo analisa a Justiça automatizada, alertando que eficiência e previsibilidade podem comprometer a escuta e a compreensão das particularidades humanas.
quarta-feira, 22 de abril de 2026
Atualizado em 17 de abril de 2026 16:19
O juiz não dorme mais. Não se cansa. Não hesita. E, talvez, não sinta.
Em Justiça artificial, a inquietação não está no que a IA faz, mas no que ela dispensa. O humano vira excesso. Ruído. Uma variável incômoda em um sistema que prefere previsibilidade à complexidade. O filme não precisa gritar isso. Ele sussurra. E o sussurro, às vezes, é mais perigoso.
Porque a pergunta não é se a tecnologia funciona. Funciona. Sempre funcionou. A pergunta é outra, mais desconfortável. Funcionar basta?
O curioso é que aquilo que parecia roteiro começa a ganhar contornos de rotina. Aos poucos, decisões deixam de ser escritas e passam a ser geradas. Argumentos viram padrões. Histórias viram dados. E o processo, que um dia foi encontro, se transforma em fluxo.
No ambiente jurídico, isso não é apenas uma mudança de ferramenta. É uma mudança de lógica. A previsibilidade, tão desejada por quem depende da estabilidade das decisões, passa a ser construída não pela maturação do entendimento, mas pela repetição em escala. E isso pode soar como avanço.
Talvez seja inevitável. Talvez seja até desejável.
Afinal, quem não quer rapidez? Quem não quer eficiência? Quem não se cansa da lentidão quase ritualística de certas engrenagens?
Mas toda aceleração cobra um preço. Nem sempre visível.
Quando a Justiça aprende a repetir, ela também desaprende a escutar. E escutar, convenhamos, nunca foi sua maior virtude. Mas era, ao menos, uma promessa.
Agora, é possível que a promessa mude de natureza. Menos escuta, mais cálculo. Menos interpretação, mais correspondência. Como se cada caso fosse apenas uma peça tentando se encaixar em um molde pré-existente. Como se a singularidade fosse um erro de sistema.
E talvez seja aí que mora o risco mais silencioso.
Não no erro escandaloso, que chama atenção e provoca reação. Mas na pequena distorção cotidiana. Na decisão que parece correta, mas não convence. No resultado que fecha a conta, mas não resolve a história
Em um sistema que valoriza a previsibilidade, decisões que se repetem trazem conforto. Reduzem incertezas. Facilitam projeções. Mas também podem criar uma estabilidade aparente, onde o que se perde não é a coerência, mas a capacidade de compreender o que foge ao padrão.
Porque a máquina não se incomoda. Não hesita diante de um detalhe humano. Não se detém em uma contradição emocional. Não percebe o peso de um silêncio.
Ela responde. E responder, às vezes, é fácil demais.
É possível que, no futuro, a Justiça se torne cada vez mais previsível. E isso pode soar como avanço. Segurança. Estabilidade.
Mas também pode ser outra coisa.
Pode ser o início de uma Justiça que acerta sempre e compreende cada vez menos.
Talvez o verdadeiro dilema não esteja em confiar nas máquinas. Mas em perceber, tarde demais, que passamos a confiar nelas justamente quando deixamos de exigir aquilo que só humanos sabem oferecer.
Não perfeição.
Mas a capacidade de compreender antes de decidir.
Anderson Leite
Advogado na área de Contencioso Cível Consumidor e Cobrança em Martorelli Advogados.


