MIGALHAS DE PESO

  1. Home >
  2. De Peso >
  3. Eça de Queiroz no panteão: Memória, Direito e ironia

Eça de Queiroz no panteão: Memória, Direito e ironia

Interessado tanto nas normas que regulam a memória quanto nas camadas históricas que a sustentam, acompanhei com particular atenção o debate em torno da trasladação de Eça de Queiroz.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Atualizado às 14:09

Sou advogado de formação, quase historiador por inclinação e devorador de livros: Essas paixões - pelo direito, pelas fontes e pela literatura - orientam a leitura e as perguntas que faço neste texto. Interessado tanto nas normas que regulam a memória quanto nas camadas históricas que a sustentam, acompanhei com particular atenção o debate em torno da trasladação de Eça de Queiroz. Recentemente li um artigo, do advogado Arnaldo Godoy; faço referência a esse texto e agradeço a Godoy pelas questões jurídicas que trouxe à tona.

No dia 8/1/25, Portugal completou um gesto de consagração e controvérsia: Os restos mortais de José Maria de Eça de Queiroz foram trasladados para o panteão nacional, em Lisboa. A cerimônia encerrou décadas de debate - entre familiares divididos, decisão parlamentar e o julgamento unânime do Supremo Tribunal Administrativo - e impôs ao país um reencontro público com um escritor que sempre forçou o espelho sobre as suas hipocrisias.

O conflito teve contornos claros: Seis bisnetos pediram que Eça permanecesse em Baião, onde a Casa de Tormes guarda memória e museu; treze descendentes apoiaram a consagração. Frente à ausência de vontade expressa do autor, o Tribunal aplicou o Decreto-lei 411/98 e decidiu que, havendo divergência, prevalece a maioria dos descendentes mais próximos. A corte afastou a ideia de que o cadáver integra a herança e reconheceu a homenagem como ato público legítimo, salvo oposição substancial.

A decisão é técnica e simbólica. Ao colocar o interesse coletivo acima da resistência familiar minoritária, o Estado assume o papel de administrador da memória: O panteão funciona como um "espelho maiático" - à maneira de Carlos da Maia - que reflete e questiona a identity cultural, ao mesmo tempo em que a reafirma. Há aqui uma juridicização da memória: a remoção deixa de ser mera logística funerária e passa a ser um ato de consagração política. Como advogado, senti-me particularmente seduzido pelas sutilezas jurídicas do caso; como quase-historiador, reconheci as camadas documentais e afetivas que o atravessam.

A dimensão pessoal transborda o expediente jurídico. Baião não é só um ponto no mapa cultural: é a terra natal de muitos que partiram para o Brasil - entre eles o meu pai, também chamado José - e que sempre levaram Eça na memória. Esse laço diaspórico transforma a trasladação num acontecimento vivido à dupla maneira - enquanto rito nacional em Lisboa e enquanto lembrança íntima em lares brasileiros. Para famílias como a nossa, a "Casa de Tormes reaberta" significa um retorno simbólico e uma ponte entre gerações dispersas.

As metáforas eçaianas ajudam a ler o gesto. A trasladação é também uma "Casa de Tormes reaberta": Baião, antes ponto de retorno íntimo, volta a ser referência pública num movimento entre as "Cidades e as Serras" - ponte simbólica entre periferia e centro. A urna, coberta pela bandeira, transforma-se numa "relíquia que atravessa séculos": objeto de peregrinação cultural que redesenha roteiros turísticos e acadêmicos. E há a ironia final, quase eçaiana: O escritor que desnudou cerimônias e prestígios vê-se agora coroado pelo mais solene dos rituais - um "Primo Basílio deslocado" cuja presença no panteão escancara o contraste entre aparência e essência.

Impactos sobre estudos e turismo literário Brasil–Portugal

A consagração no panteão funciona como catalisador para atividades intelectuais e turísticas que cruzam o Atlântico. No campo acadêmico, espera-se aumento de visibilidade: Novas teses, edições críticas e projetos de pesquisa sobre Eça e sua recepção lusófona; maior presença do autor em currículos universitários e escolares; e maior facilidade para parcerias e financiamento conjunto (bolsas, convênios entre universidades brasileiras e portuguesas). Conferências, seminários e residências acadêmicas, muitos deles realizados em circuito Lisboa–Porto–Baião, reforçarão redes científicas transnacionais.

No turismo cultural, a movimentação cria oportunidades práticas: Roteiros integrados que articulam o panteão de Lisboa, o Porto/Douro e a Casa de Tormes em Baião; pacotes temáticos (viagens de estudo, festivais e peregrinações literárias); visitas guiadas, exposições itinerantes e produtos culturais que exploram a biografia e a obra de Eça. A herança imaterial atrai tanto turistas cultos quanto descendentes da diáspora - famílias como a minha, que mantiveram Eça vivo na memória - estimulando viagens de reconexão. Museus, guias, hotéis e comércio local na região norte e em Lisboa têm potencial de ganho direto, enquanto instituições culturais podem trocar acervos e montar mostras conjuntas.

Sinergias práticas incluem a criação de calendários integrados de eventos, material didático bilíngue para visitantes, programas acadêmico-turísticos e acordos de cooperação entre bibliotecas e museus. Em suma, a trasladação é um multiplicador simbólico que converte reconhecimento cultural em projetos concretos de circulação de saber e pessoas entre Brasil e Portugal.

Mais do que um enterro ou uma cerimônia de Estado, o traslado de Eça de Queiroz é um gesto sobre como se administra o passado. Ao transformar um corpo num sinal público, a nação decide quem tem voz na sua memória coletiva. É uma ironia à maneira do próprio Eça: O crítico das solenidades convertido em instituição de memória. Mas, se há justiça tardia, há também oportunidade: A reabertura da Casa de Tormes e a presença no panteão oferecem à comunidade lusófona - brasileira incluída e marcada por histórias pessoais como a do meu pai José - a chance de renovar o diálogo com um dos seus maiores ficcionistas.

Márcio Aguiar

VIP Márcio Aguiar

Sócio Fundador da Corbo, Aguiar & Waise Advogados. Especialista em Direito Empresarial e Internacional. Colunista. Ex-Diretor Jurídico da Câmara de Comércio Luso Brasileira. Co-Autor da EDD.

AUTORES MIGALHAS

Busque pelo nome ou parte do nome do autor para encontrar publicações no Portal Migalhas.

Busca