Trends nas redes sociais: Do nocivo ao ridículo
Entre dados sensíveis e reputação, o que está em jogo quando participamos de tendências aparentemente inofensivas nas redes sociais.
terça-feira, 28 de abril de 2026
Atualizado às 11:56
À primeira vista, as trends podem parecer inofensivas e divertidas. Mas, olhando com lupa, revelam duas dimensões distintas: de um lado, o potencial nocivo, quando conectadas a mecanismos de profiling e segmentação, e, de outro, o potencial ridículo daquelas que trazem visibilidade e levam a reputação profissional.
A recente trend da chamada "família em conserva", ou "família conservadora", oferece um bom ponto de partida para enfrentarmos o que há de nocivo. Em sua fórmula, as pessoas postam vídeos e fotos em um vidro ou lata de conserva, com a estética Doriana Lifestyle, ou seja, a da família harmoniosa, com papéis bem definidos e um certo ideal de ordem doméstica. O problema não está na estética em si, mas no que ela produz em termos de informações sobre essas pessoas.
Ao interagir com esse tipo de conteúdo, curtindo e compartilhando a trend, o usuário não apenas consome uma narrativa: ele se classifica! Plataformas como Instagram e TikTok capturam esses sinais e os integram a sistemas que agrupam indivíduos em nichos comportamentais (clusters). Nesse contexto, a "família em conserva" deixa de ser apenas uma trend e passa a funcionar como um identificador algorítmico.
O efeito prático já é suficientemente conhecido: os usuários são agrupados por afinidade de valores, conteúdos semelhantes passam a ser direcionados e assim formam-se bolhas de informação e vieses de confirmação, fazendo parecer ao usuário que todo mundo (ou a maioria) compartilha dos mesmos valores. É preciso entender que essa "clusterização" não é neutra. Ela cria condições ideais para o direcionamento estratégico de mensagens, inclusive de natureza política ou ideológica. Portanto, não se trata só de estética, e sim de influência.
Kosinski, Stillwell e Graepel, em 2013, lideraram um estudo demonstrando que registros digitais aparentemente inocentes, tais como likes, salvamentos e compartilhamentos, permitem inferir, com elevado grau de precisão, traços de personalidade, preferências políticas e atributos sensíveis dos usuários.
Mais do que aquilo que o indivíduo posta, o que ele faz nas redes e os seus padrões de comportamento revelam atributos que podem ser úteis a quem deseja arregimentar pessoas com determinado perfil. Deste modo, trends deixam de ser apenas manifestações divertidas e passam a funcionar como instrumentos de classificação, permitindo a organização progressiva dos usuários em nichos de afinidade e, consequentemente, sua exposição a narrativas cada vez mais direcionadas.
A lógica é a mesma que ganhou notoriedade em casos como o da Cambridge Analytica, em que dados comportamentais foram utilizados para identificar perfis e direcionar mensagens sob medida às suas predisposições, com impactos no processo eleitoral que elegeu Trump pela primeira vez nos Estados Unidos e no Brexit, quando a maioria dos britânicos decidiu que o Reino Unido deixaria a União Europeia. Esta engrenagem foi didaticamente exposta no filme Privacidade Hackeada, de 2019.
O risco, portanto, não está em vermos uma família dentro de um vidro de conservas, mas em participarmos, ainda que inadvertidamente, de um processo contínuo de segmentação que nos torna alvo de determinadas mensagens. O tema dialoga com a LGPD, eis que a inferência de perfis a partir de interações nas redes toca princípios como finalidade, necessidade e transparência, além do uso de dados sensíveis, incluindo as opções político-ideológicas do indivíduo.
De outra sorte, há trends que exploram o ridículo como vetor de visibilidade. É como eu defino a trend do "dizem nas redes que sou... será?", em que profissionais aparecem dançando ao som de La Isla Bonita, desafiando estereótipos associados às suas profissões. Do ponto de vista algorítmico, admito que o recurso é eficiente: depois que vi o primeiro post, em que dançavam desajeitadamente duas respeitáveis profissionais, outros tantos do mesmo estilo, com advogados, médicos e traders que eu nunca vi na vida, chegaram ao meu feed. Essa exposição expressa uma tensão que não pode ser ignorada, especialmente por estes profissionais.
A advocacia, por exemplo, não é apenas uma atividade técnica; é também uma atividade performativa, no sentido de que a forma comunica tanto quanto o conteúdo. Sobriedade, clareza e rigor não são apenas atributos desejáveis, são sinais de confiabilidade em alguém que deve estar tecnicamente preparado para formar a opinião de um tribunal sobre o direito de alguém. A questão que se impõe não é se abrir mão desses atributos está certo ou errado, mas se esse movimento traz ganho ou perda reputacional.
De um lado, teremos o maior alcance, a conexão emocional e a quebra do distanciamento com o público leigo. De outro, a possível erosão da percepção de rigor técnico, a banalização da imagem pessoal e da profissão, e o desalinhamento com o público mais intelectualizado. O ponto mais relevante é que essas dimensões não são equivalentes: visibilidade não se traduz automaticamente em credibilidade; e engajamento não é, por si só, um indicador de confiança. A adesão a esse tipo de trend, portanto, exige uma escolha, tão consciente quanto possível, sobre qual reputação se pretende construir e com qual público se deseja conversar.
O ponto a reter é que as duas espécies de trends analisadas são manifestações visíveis de sistemas invisíveis, ou seja, de algoritmos que capturam a atenção, classificam pessoas e influenciam comportamentos. No primeiro tipo, o risco é coletivo: formação de bolhas, segmentação ideológica e potencial instrumentalização de perfis. No segundo, o risco é individual: disseminar a percepção de que a identidade profissional e a seriedade que função exige cederam ao desespero por atenção imediata.
Assim, as trends potencialmente nocivas expõem dados sensíveis a nosso respeito, facilitam processos de segmentação e reforçam vieses, ao passo que outras apenas beiram o ridículo, tensionando os limites entre visibilidade e reputação. O bom é que, entre uma coisa e outra, há espaço para a livre escolha. Cabe a cada um decidir se deseja integrar essas dinâmicas ou compreendê-las a ponto de manter, diante delas, algum grau de autonomia.
Ana Paula Ávila
Graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUC/RS (1994) - 1ª colocada; bolsista pela Escola Superior do Ministério Público do Rio Grande do Sul (1995); Mestrado em Direito Público pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (2001); doutorado em Direito Público pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (2007).



