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Lealdade processual e os limites de partes e julgadores

A lealdade processual é dever de todos os atores, inclusive do juiz, que deve decidir com base nos autos. Critica ativismo, vieses e desvios, defendendo fidelidade à lei, prova e Constituição.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Atualizado às 09:00

A lealdade jurisdicional como limite ao decisionismo: Ética judicial, advocacia responsável e integridade do processo

1. Introdução

A lealdade processual costuma ser tratada como dever das partes, dos advogados e dos demais sujeitos que praticam atos no processo. Essa leitura, embora correta, é incompleta. O processo é ambiente institucional de produção de decisões públicas e, por isso, a lealdade deve alcançar também quem julga. Não basta exigir boa-fé do jurisdicionado se o Estado-juiz não se submete aos mesmos padrões de coerência, fundamentação, autocontenção e fidelidade aos autos.

A lealdade do juiz possui natureza própria. Ela não se confunde com neutralidade psicológica absoluta, pois nenhum ser humano decide sem pré-compreensões, experiência, linguagem, memória, valores e limites cognitivos. A lealdade jurisdicional consiste em submeter essas pré-compreensões ao método jurídico: prova, contraditório, fundamentação, legalidade, Constituição, precedentes e responsabilidade institucional.

O juiz deve julgar conforme sua convicção. Todavia, a convicção legítima não nasce de impressões extraprocessuais, preferências ideológicas, pressão social, simpatia por grupos, aversão moral a comportamentos ou conveniências estatísticas. A convicção judicial constitucionalmente legítima é aquela formada dentro do processo. O que está fora dos autos pode integrar a cultura geral do julgador, mas não pode substituir a prova, o debate e a norma aplicável.

A questão central deste artigo é demonstrar que a lealdade jurisdicional não é virtude meramente subjetiva, mas requisito objetivo de legitimidade da decisão. O juiz leal não é o juiz desprovido de convicções. É o juiz que impede que suas convicções pessoais substituam os autos. A justiça, nesse sentido, não se realiza pela vontade individual do magistrado, mas pela aplicação constitucionalmente adequada do Direito ao caso concreto.

Essa reflexão exige crítica simultânea à magistratura, à advocacia, às corregedorias, ao Ministério Público e às demais instituições do sistema de justiça. A integridade processual é rompida tanto pelo juiz que decide por ativismo quanto pelo advogado que litiga por subterfúgios procrastinatórios. Também é afetada pela corregedoria que pune sem orientar, pela instituição que se protege corporativamente e pela minoria que abandona sua vocação pública para negociar influência, decisão ou acesso.

2. A convicção judicial legítima e o dever de julgar com base nos autos

A expressão “livre convencimento” nunca deveria ser lida como licença para decidir livremente. O convencimento judicial deve ser motivado, controlável e produzido dentro de parâmetros normativos. A liberdade do juiz não é liberdade contra o processo; é liberdade responsável para valorar a prova de modo racional e fundamentado.

A CF/88 exige fundamentação das decisões judiciais como condição de validade democrática do exercício jurisdicional. O art. 93, IX, da Constituição impede que a decisão seja mero ato de autoridade. O CPC/15 reforça esse modelo ao exigir enfrentamento dos argumentos relevantes e ao considerar não fundamentada a decisão que se limita a invocar precedentes, princípios ou conceitos jurídicos indeterminados sem demonstrar sua pertinência concreta.

A lealdade do juiz, portanto, exige que a decisão revele o caminho intelectual percorrido. Não basta que o resultado seja aparentemente justo. É necessário que o itinerário seja juridicamente verificável. A decisão correta por intuição, se não fundamentada, permanece institucionalmente defeituosa, porque impede o controle pelas partes, pelos tribunais, pela sociedade e pela comunidade jurídica.

A neurociência e a psicologia cognitiva contribuem para esse debate ao demonstrar que decisões humanas são influenciadas por vieses, heurísticas, emoções, memória seletiva, aversão à perda e predisposições morais. O julgador não está fora desse universo. Ao contrário, por decidir sob pressão, excesso de volume, repetição de casos e exposição institucional, pode tornar-se especialmente vulnerável ao viés de confirmação, ao efeito de ancoragem, ao framing narrativo e à normalização de padrões decisórios automáticos.

A consciência desses riscos não diminui a magistratura; qualifica-a. O juiz que reconhece seus limites cognitivos está mais próximo da imparcialidade do que aquele que se imagina imune a vieses. A lealdade jurisdicional exige autocrítica permanente: perguntar se a conclusão decorre dos autos ou se os autos estão sendo lidos para confirmar uma conclusão previamente intuída.

3. Ativismo judicial, decisionismo e a retórica da justiça

A crítica ao ativismo judicial não pode ser confundida com crítica à interpretação constitucional. Interpretar a lei à luz da Constituição é dever do julgador. O problema surge quando o juiz abandona o texto normativo, seleciona princípios conforme o resultado desejado e transforma a fundamentação em justificativa posterior de uma decisão previamente escolhida.

O ativismo judicial é particularmente sedutor porque costuma apresentar-se com linguagem moralmente nobre. Fala-se em dignidade humana, efetividade, justiça social, proteção do vulnerável, combate à impunidade, moralização da economia ou correção de desigualdades. Esses valores são relevantes e constitucionalmente densos, mas não autorizam a supressão da legalidade, do contraditório, da prova e da separação funcional dos poderes.

A promoção da justiça não se realiza contra o Direito, mas por meio dele. Quando o magistrado se afasta da lei para produzir o resultado que considera moralmente superior, assume função legislativa sem legitimidade democrática direta e fragiliza a previsibilidade do sistema. A consequência é paradoxal: em nome da justiça do caso concreto, cria-se insegurança para todos os casos futuros.

O decisionismo é mais perigoso quando se mascara de sensibilidade social. O julgador pode acreditar sinceramente que está corrigindo uma injustiça, mas, ao fazê-lo sem base normativa ou probatória, cria uma injustiça institucional. A decisão judicial não é espaço de soberania pessoal. É ato público vinculado à Constituição, às leis, aos autos e à fundamentação.

A crítica aqui desenvolvida dialoga com a advertência de que decidir conforme a consciência, quando essa consciência não se submete ao Direito, equivale a substituir o Estado de Direito por um Estado de julgadores. A integridade do sistema exige que a resposta judicial seja produto de uma comunidade jurídica interpretativa, e não simples expressão psicológica de quem ocupa a cadeira de julgar.

Clique aqui e confira o artigo na íntegra.

Helcio Kronberg

VIP Helcio Kronberg

Doutor em Direito Mestre em Direito Mestre em administração

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