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O que a Folha de S.Paulo fez com Mariana Francisco Ferreira — e por que isso exige uma resposta

É essencial discutir a responsabilidade da mídia em retratar adequadamente as histórias de indivíduos e as implicações disso na sociedade.

domingo, 10 de maio de 2026

Atualizado às 08:46

Mariana Francisco Ferreira morreu em 6 de maio de 2026, aos 34 anos. Juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, ela faleceu em decorrência de complicações num procedimento de reprodução assistida. Havia sido designada, em fevereiro daquele ano, para a Vara Criminal de Sapiranga, no interior gaúcho. Tinha três anos de magistratura e uma vida inteira pela frente.

Três dias depois de sua morte, a Folha de S.Paulo publicou, em 9 de maio de 2026, charge da cartunista Marilia Marz. Numa lápide, a inscrição: 'Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos'. Para quem acompanhou os noticiários nesta semana, a referência era imediata. Não havia ambiguidade.

Escrevo este artigo porque o silêncio, neste caso, seria cumplicidade.

A Folha de S.Paulo não é um tabloide. É um dos jornais de maior tradição e responsabilidade do país. Tem redação experiente, editores criteriosos, e uma história que lhe impõe obrigações que veículos menores talvez possam ignorar.

É exatamente por isso que o que foi publicado não pode ser atribuído a descuido. Foi uma escolha. E foi uma escolha que a direção editorial daquele jornal precisa explicar.

Explico o que está em jogo. Não se trata de criticar o Judiciário, crítica que recebo, quando fundamentada, como parte legítima do debate democrático. Trata-se de outra coisa: de usar a morte recente e identificável de uma magistrada jovem como veículo para uma disputa política que ela, em vida, não representava, e que, em morte, não pode contestar.

Mariana Francisco Ferreira era juíza de primeira entrância. Três anos de carreira. Comarca do interior. Não estava no centro de nenhum debate sobre privilégios. Não havia proferido decisão polêmica. Não era figura pública no sentido que justificaria qualquer forma de escrutínio editorial. Era uma profissional jovem que morreu enquanto buscava ter um filho.

A charge de Marilia Marz tomou essa morte e a transformou em legenda para um argumento sobre o qual Mariana nada tinha a dizer. Isso não é sátira. Sátira pressupõe que o alvo tem poder. Se o alvo pretendido era o Judiciário como instituição, havia alvos adequados: decisões, orçamentos, estruturas. A escolha foi outra: uma lápide, uma juíza recém-morta, um nome que a semana ainda carregava nos noticiários. Isso não é crítica institucional. É oportunismo editorial com rosto humano emprestado sem consentimento.

Liberdade de imprensa é um valor que defendo sem reservas. Mas liberdade de imprensa não é licença para tudo. Não autoriza que se transforme o luto de uma família em material gráfico de disputa institucional.

Não autoriza que se inscreva na lápide de alguém, três dias após sua morte, um slogan político. Nenhum princípio liberal de liberdade de expressão chegou até esse ponto.

O que a Folha de S.Paulo fez foi um erro grave. Não um erro de interpretação, não um erro de timing, não um excesso de linguagem. Foi um erro de caráter editorial, e esse tipo de erro tem nome: faltou decência.

A Folha de S.Paulo deve uma retratação pública a Mariana Francisco Ferreira, à sua família, e à magistratura brasileira. Uma retratação formal, com destaque equivalente ao da publicação que a originou.

Não como gesto de cortesia. Como obrigação. A mesma que os códigos de ética jornalística impõem quando uma publicação causa dano injustificado a pessoa identificável, e que o próprio Manual de Redação da Folha de S.Paulo reconhece ao tratar dos deveres de correção e proporcionalidade.

Mariana queria ser juíza desde a adolescência. Chegou lá. Serviu com distinção. Morreu jovem, e de causas que nada tinham a ver com a instituição que amava.

O mínimo que se pode fazer por ela é não deixar que sua morte vire argumento de ninguém.

Alexandre Miguel

Alexandre Miguel

Desembargador e Presidente do Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia (biênio 2026-2027). Doutor em Ciências Jurídicas.

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